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As gueixas no cinema japonês e ocidental

Conheça um pouco mais sobre as gueixas, figuras históricas da arte e da cultura japonesa

CINÉFILOS
16 set 2021 | Por Thiago Campolina (thiagocampolina@usp.br) e Renato Brocchi (rebrocchi@gmail.com)

As Olimpíadas de Tóquio 2020 terminaram, mas algumas lembranças da intrigante cultura japonesa ainda ficam em nossas cabeças. As gueixas, por exemplo, são uma das personagens artísticas desse país mais conhecidas. E não é para menos, pois, como você verá a seguir, de maneira sucinta, através de um paralelo feito com alguns filmes em que as gueixas são protagonistas, elas são verdadeiramente fascinantes.

 

Gueixas na visão de Mizoguchi

Em frente ao santuário de Yasaka, se estende Gion. Esse distrito de Kyoto se firmou como complemento ao templo ainda no período Sengoku (séculos XV e XVI), mas, com o tempo, foi tomando as feições que vemos em As Irmãs de Gion (Gion no shimai, 1936), de Kenji Mizoguchi: uma mistura de distrito comercial e artístico, algum lugar pouco definido entre o sagrado e o profano da vida japonesa. Perfeito para as gueixas exercerem suas atividades.

É esse o palco da derrocada das irmãs Umekichi (Yōko Umemura) e Omocha (Isuzu Yamada), ambas gueixas. A primeira, atrelada à tradição, à família — e não raro posta em situações que apenas acentuam sua pretensa ingenuidade. A segunda, prática a ponto do cinismo, empurra a trama pela frente com suas armações e embustes contra os homens de Gion.

Os presentes, os favores e as cortesias (falsas ou não) formam o léxico das gueixas neste filme de Mizoguchi; as mentiras e a sexualidade, sua sintaxe. Por apresentar uma situação fora do normal, o longa pode não ser uma representação fiel do dia-a-dia nessa profissão; por outro lado, não deixa de nos revelar um pouco das relações travadas entre as gueixas e a sociedade que as circunda: o que fazem, o que delas se espera, como os danna — os patrocinadores das gueixas — tentam enganá-las.

Em cena de As irmãs de Gion, gueixa se arruma. [Imagem: Divulgação/Shochiku]

As irmãs de Gion, clássico dos primórdios do cinema japonês, oferece detalhada representação dos dilemas da profissão. [Imagem: Divulgação/Shochiku]

A dinâmica entre as duas personagens funciona como um romance de Yukio Mishima: os contrastes, em vez de dar lugar a uma síntese reconfortante, só fazem salientar a inadequação das protagonistas. As ambiguidades de sua profissão (e o modo como tentam lidar com elas) são o tema principal de um filme que, até seus minutos finais, parece destinado ao moralismo: é fácil condenar Omocha pelas suas mentiras. Mas o roteiro de Kenji Mizoguchi e Yoshikata Yoda caminha por veredas mais tortuosas e prefere os nós aos desenlaces. 

O fim da película é uma pergunta bem direta sobre o lugar das gueixas na sociedade japonesa, tornada ainda mais angustiante pelo momento de produção. Em 1936, o Japão estava prestes a ver até onde a industrialização e o militarismo iam levá-lo; parte desse processo consistiu em uma reavaliação do lugar de suas instituições mais tradicionais. As Irmãs de Gion não deixa de participar dessa construção de um “novo Japão” — e é, por isso, bem revelador ao espectador não japonês da atualidade.

O filme A Música de Gion (Gion Bayashi, 1953), também dirigido por Mizoguchi, conta a história de Eiko (Ayako Wakao), uma jovem que deseja tornar-se uma gueixa, tal qual sua mãe que acabou de falecer. Seu pai não era presente em sua vida, então, devido à morte da mãe, ela se viu obrigada a morar com o tio, que só a deixaria viver em sua casa se ela aceitasse dormir com ele. Tentando fugir dessa situação, ela busca abrigo na okiya de Miyoharu (Michiyo Kogure).

Okiya são as casas em que as gueixas vivem, juntamente com as maiko, meninas jovens que estão no processo de aprendizado para se tornarem gueixas, e a okasan, uma gueixa já mais experiente, responsável por comandar a casa. Esse lugar é muito importante para conhecer o universo das gueixas, pois é nele em que as maiko, como Eiko, serão treinadas. Ali elas aprendem o canto, a dança, a música, a poesia, as tarefas domésticas e a maneira de se portar em diversas situações.

Pois esse é um ponto essencial a saber sobre as gueixas. Ao contrário do que muitos pensam, elas não são prostitutas de luxo: elas são um baluarte das artes e da cultura japonesas. Eiko passa a ter o nome artístico de Miyoe, algo comum entre as gueixas para aumentar o mistério em torno de sua verdadeira identidade. No filme, ela se recusa a ter relações sexuais com um cliente, pois isso era considerado um extremo desrespeito com as gueixas. Elas próprias desprezavam aquelas que usassem da sua posição para dormir com clientes, caindo assim em desgraça.

Em A Música de Gion, podemos ver a futura gueixa Miyoe aprendendo a tocar o shamisen, este interessante instrumento japonês de três cordas. [Imagem: Divulgação/Daiei Film]

Em A Música de Gion, podemos ver a futura gueixa Miyoe aprendendo a tocar o shamisen, este interessante instrumento japonês de três cordas. [Imagem: Divulgação/Daiei Film]

 O treinamento era extremamente rígido e exige em torno de cinco anos, mas pode chegar a sete ou oito. Tanto que em tempos mais antigos, uma maiko podia chegar às okiya com apenas seis anos de idade. Depois de todo esse tempo aprendendo as formas tradicionais da arte japonesa e os padrões de comunicação requeridos, as maiko tornavam-se gueixas por meio de uma cerimônia chamada mizuage. Ela representava a transição de jovens para mulheres adultas, as gueixas.

Vários detalhes compunham a mizuage, como por exemplo a troca de um kimono de cor forte e viva para uma mais suave, junto com o colarinho, que deixava de ser vermelho e dava lugar ao branco. Ou então os sapatos de salto alto de madeira, conhecidos como okobo, que agora passavam a ser de salto baixo, os geta.

 

Gueixas no século XXI

Zatoichi (Zatōichi, 2003), de Takeshi Kitano, traz a comédia e a violência características desse diretor japonês — que, com essa película, abiscoitou o Leão de Prata de melhor diretor no Festival Internacional de Veneza. Aqui, Zatoichi (interpretado pelo próprio Kitano), um massagista e espadachim cego, se integra a uma trupe eclética formada por uma fazendeira solitária (Michiyo Okusu), seu sobrinho viciado em queimar dinheiro nos dados (Guadalcanal Taka) — e uma dupla furtiva de gueixas fixadas numa vendetta familiar (Daigoro Tachibana e Yūko Daike). Do outro lado do tatame, os indefectíveis chefões locais, Ginzo (Ittoku Kishibe) e Ogiya (Saburo Ishikura), além de um trágico samurai ronin (Tadanobu Asano).

A salada de personagens pode dar a ideia de que o filme se perde entre tramas e dramas paralelos, mas essa confusão faz parte dos atrativos. Se não é um retrato historicamente fiel do Japão em fins do período Edo (1603 a 1867), ainda diverte e cativa com a miríade de personagens e problemas que põe em cena. A dupla de gueixas, apesar de não serem as protagonistas, ocupa um lugar privilegiado no desenrolar do filme: é o seu drama pessoal que, por fim, dá um eixo norteador à narrativa. 

Assim como nos filmes acima, a sua proximidade aos poderosos cria as condições ideais da intriga — e, aqui, da violência. O mundo das gueixas se revela perigoso, de uma sexualidade ora sugerida, ora evidente, cheio de entendidos e mal-entendidos, do escrúpulo dos inescrupulosos. Mas essas gueixas não são mais vítimas de seu destino, nem se dobram sob as pressões de quem as quer controlar.

Em cena de Zatoichi, as duas gueixas. [Imagem: Divulgação/Shochiku e Office Kitano]

Trama de vingança e violência marca a aparição das gueixas em Zatoichi. [Imagem: Divulgação/Shochiku e Office Kitano]

O filme de Kitano se integra muito mais facilmente ao mundo do mito e da lenda do que da história. Apesar de ainda existirem, as gueixas, hoje, já são mais um símbolo de um Japão pretérito do que uma realidade. Zatoichi, então, não deixa de ser uma janelinha para quem deseja ver como andava a interpretação nipônica de seus próprios mitos na última virada de século. Tudo sob a ótica particular de Kitano, em uma mistura inteligente de comédia e ação — influenciada pelo cinema americano, mas tremendamente particular.

E foi justamente o cinema americano que ajudou a reavivar o interesse por essa faceta da cultura japonesa com Memórias de uma Gueixa (Memoirs of a Geisha, 2005). Apesar de não ser uma produção fidedigna, traz uma outra vertente possível do mizuage. Na obra, esse rito de passagem é apresentado como a perda da virgindade da maiko, que é vendida numa espécie de leilão, no qual quem pagar mais tem o direito de desposá-la. De fato, essa prática acontecia algumas vezes, mas desde 1959 ela é considerada ilegal. Quem vencia o leilão tornava-se o danna, que arcava com os seus custos de vida. Porém, ela não se tornava uma gueixa exclusiva de seu danna, ainda que muitas vezes houvesse casamentos entre essas duas partes. Quando isso ocorria, então a gueixa não podia mais exercer o seu ofício.

Em Memórias, a gueixa Sayuri (Zhang Ziyi) se apaixona por um homem que a ajudou em um momento de dificuldade quando ela ainda era criança, o presidente de uma empresa, Iwamura Ken (Ken Watanabe). Em dado momento do filme, diz-se que uma gueixa não pode se apaixonar. Seu objetivo, na verdade, é fazer com que os homens se apaixonem por elas com apenas um olhar fatal. Isso porque, caso elas se apaixonassem, não poderiam mais ser gueixas, além de o mistério em torno delas também diminuir em relação ao cliente em questão. 

Homem consola garotinha. [Imagem: Divulgação/Columbia Pictures]

Quando Sayuri ainda era criança (Suzuka Ohgo) e se chamava Chiyo, ela se encanta pelo presidente Ken, que é carinhoso com ela em um momento de tristeza. [Imagem: Divulgação/Columbia Pictures]

E “mistério” talvez seja a palavra que melhor define as gueixas do Japão contemporâneo. Se, na década de 1920, elas somavam mais de 80.000, há, hoje, em torno de apenas 300 gueixas e maikos. Esse número reduzido faz com que tanto o cinema japonês quanto o Ocidental se encante pela mítica que gira em torno das gueixas. Assim como em Memórias de uma Gueixa e Zatoichi, essa representação nem sempre é histórica — frequentemente, tende a uma idealização, como se as gueixas fossem personagens de contos de fadas. Fato é que elas continuam cativando o mundo das artes até hoje.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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