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Capitolina – o poder das garotas
Na Estante
08 ago 2016 | Por Jornalismo Júnior

Criada em 2014, a revista online Capitolina se destacou ao trazer um discurso diferente das tradicionais revistas voltadas para as meninas adolescentes. Com o objetivo de fazer as garotas se sentirem representadas – algo que as fundadoras sentiram falta na adolescência – a linha editorial da revista foca na inclusão e no empoderamento: toda menina pode ser o que ela quiser, não importa a raça, classe social, orientação sexual ou aparência.

Capitolina – O Poder das Garotas (Seguinte) consegue passar para o papel todo o clima da revista online. Com textos antigos e inéditos, a publicação reúne os temas do primeiro ano da revista. Colorido, repleto de ilustrações e atividades que visam manter a interação com as leitores, como na Internet, o livro trata de assuntos extremamente relevantes e que podem ser lidos em qualquer idade, apesar do foco no público adolescente.

Ler o livro é como conversar com alguém que entende exatamente como você se sente – sim, você, que é ou já foi uma adolescente cheia de dúvidas e inseguranças. O mito do corpo ideal, meritocracia, identidade de gênero e depressão se misturam aos textos sobre sonhos, livros, girl bands e viagens. Assuntos difíceis e leves, que fazem a leitora sorrir e refletir. “Queremos que cada adolescente nesse mundão perceba o poder que tem, apesar do que o mundo lhe diz”. Esta é uma frase que se encontra em um dos textos e representa bem o que o livro quer passar.

A sororidade – união entre as mulheres – transborda ao longo da leitura. Diversos textos realmente transmitem a mensagem de que nenhuma garota está sozinha e que os seus dilemas, apesar de grande parte da sociedade considerarem bobos, são importante e merecem atenção. “Adolescentes são – e devem se reconhecer como – mulheres extremamente poderosas e corajosas que têm sim a capacidade de mudar o jeito que as meninas são ensinadas a se colocar na sociedade”.

O livro cumpre com o que promete, afinal, é puro girl power e uma pequena extensão do que é a revista online. Inclusive quem leu e já está querendo mais, não se preocupe, há muito mais no site. Além disso, o segundo volume, Capitolina: O Mundo é das Garotas,tem lançamento previsto para o final de agosto.

O Sala 33 conversou com a Clara Browne, uma das editoras gerais da Capitolina, sobre a criação da revista, a produção do primeiro livro e sobre o lançamento do segundo. Ela estará presente na 3ª Semana da Jornalismo Júnior, no dia 23 de agosto, na mesa “A mulher no Jornalismo”, que irá contar ainda com Nana Soares, Jéssica Moreira e Juliana Romano.

Clara Browne é uma das editoras gerais da revista online, junto com Lorena Piñeiro e Sofia Soter. Imagem: Arquivo pessoal

A Capitolina diverge das tradicionais revistas voltadas para as adolescentes, como surgiu a ideia de criar uma revista com um discurso tão diferenciado?

Nós estávamos conversando num grupo do Facebook sobre arte e feminismo, discutindo a capa de uma revista. Era uma revista que queria mostrar “Ai, como somos diferentes”, mas a capa era uma mulher branca, magra, rica e estava falando mal de mulheres sexualizadas. Muitas pessoas começaram a conversar e falar como nunca se sentiram representadas por nenhuma revista adolescente. E, basicamente, fizemos a boa e velha pergunta: “Mas se nós não fazemos, quem faz?”.

De onde surgiu o nome e como foi o processo de realização do projeto?

O nome veio bem no começo. Nós queríamos um nome feminino e que fosse forte. Eu lembrei que o nome da Capitu, de Dom Casmurro, não era Capitu e quando fui procurar eu vi que o nome dela era Maria Capitolina. Ficava grande, mas por que não Capitolina? E aí as meninas curtiram. Eu descobri também, algum tempo depois, que Capitolina é a loba que deu de mamar para Remo e Rômulo, no mito da fundação de Roma, e eu achei genial.

Sobre o processo, nós criamos um grupo para todas conversarem, mas começou largado, tinham 80 meninas. Eu, Sofia e Lorena conversamos mais, discutimos as coisas e fizemos uma grande pesquisa: o que seria legal ter e o que adolescente lê. Decidimos que o que fazia sentido eram sete áreas, uma para cada dia da semana, e um tema mensal. Decidimos que nós três seríamos as editoras gerais e haveria uma coordenadora para cada área. Começamos a falar em setembro de 2013 e começou em abril de 2014. Foi um negócio muito rápido, no fim das contas.

Você se sente uma responsabilidade por ser editora geral da Capitolina, uma revista com um conteúdo considerado progressista e que aborda questões tão necessárias para a sociedade atual?

A Capitolina é muito coletiva, não sou eu que escolho tudo lá dentro, estou longe disso, inclusive. É uma coisa de todo mundo e tem muitas discussões, é bem colaborativo mesmo.

Eu acho até meio engraçado, porque para mim e para as outras meninas é tão óbvio que os assuntos têm que ser abordados da forma que a gente aborda que não consigo responder muito bem essa pergunta, porque é óbvio que vai ser assim, não tem outra forma.

O público alvo da revista é a garota adolescente, que está numa fase de descobertas e, muitas vezes, conturbada. Como é lidar com esse público? É preciso ter algum cuidado no modo de escrever ou abordar certos assuntos?

Nós tomamos muito cuidado para abranger o maior número de pessoas e não oprimir. Se acontece de um texto ter alguma questão, algum ponto, nós sempre discutimos tudo lá dentro. É sempre muito cuidadoso.

A parte mais difícil é equilibrar assuntos inteligentes e que precisam ser discutidos com outras coisas mais tranquilas, por diversão mesmo. Acho que isto é mais difícil do que a parte de tratar dos assuntos, porque, na verdade, é até muito fácil, já que estamos muito acostumadas. A maioria das meninas são escritoras, escrevem para outros lugares, trabalham com isso, participam de movimentos feministas, são pessoas que criam cartilhas, fazem essas coisas. É sempre um pessoal que está por dentro do assunto.

Atualmente já podemos notar mudanças nas redações de algumas revistas adolescentes e femininas no geral, eliminando conteúdos machistas, por exemplo. Para você qual é o fator que impulsiona essas pequenas transformações?

A internet. Não o advento internet, mas como as pessoas estão usando a internet. Está todo mundo criticando, problematizando tudo o tempo inteiro. As pessoas agora conseguem pedir muito mais, conseguem influenciar. Você pode fazer hashtags, compartilhar milhões de textos. Todo mundo pode produzir coisas, criticar e compartilhar. E isso afeta, porque é mais gente falando mal de uma coisa ou falando bem de outras e mais pessoas consumindo ou deixando de consumir aquele conteúdo. Então eu acho que tem muito a ver com isso, junto com essa discussão do feminismo que, hoje em dia, está muito na internet.

Você acredita que a Capitolina fez o caminho inverso das revistas adolescentes? Já que Capricho, por exemplo, deixou de ter suas revistas impressas e passou toda a publicação para o mundo online.

Não fizemos o caminho inverso, porque nós publicamos um livro, vamos para o segundo agora, mas nunca deixamos de estar na Internet. Isso é muito importante. O livro é um braço da revista, é uma coisa a mais. A revista continua sendo na internet, ela continua sendo o site, o foco sempre vai ser online. Muita gente perguntou isso, mas nós não fizemos o caminho inverso, porque nunca deixamos de publicar online, nós nunca deixamos de ter isso como a grande meta. Até porque a internet, por mais que ela não seja completamente democrática, ela é muito mais democrática do que um livro ou uma revista. Mas o livro, de novo, é um braço. Nós conseguimos alcançar mais pessoas com ele. Ele ajuda, mas não é o ponto central. Não é a ideia ser, nunca foi.

Por conta da revista ser online vocês sempre estiveram muito ligadas com a Internet, como foi passar o conteúdo para as páginas impressas?

Foi uma longa discussão. Nós recebemos algumas propostas de editoras diferentes, então teve esse primeiro ponto de o que tem mais a ver com a gente, não só como editora, mas também como as propostas estavam sendo dadas. No final, nós acabamos fechando com a Seguinte, exatamente por causa da proposta.

Nós acabamos juntando as ideias que nós já tínhamos, de um anuário, com a proposta da editora, com os textos inéditos que eles queriam. Foi uma discussão muito tranquila: como trazer isso de uma forma legal, com conteúdo e sem perder a identidade da Capitolina. Nós fechamos alguns textos que já tinham rolado, mais outros textos inéditos. No primeiro livro era um texto não inédito e um inédito de um tema do primeiro ano, ou seja, doze temas e 24 textos, mais os sete textos de cada área da revista, que eram inéditos. Nós fizemos o possível para não repetir escritoras. E teve aquela discussão de como trazer a interação da internet para o livro e veio essa ideia de fazer as atividades.

No livro, infelizmente, não é possível colocar todos os textos produzidos para o site. Como foi feita a seleção? Todas as colaboradoras se envolveram com a produção do livro ou existiu um grupo mais envolvido com essa parte de produção?

Nós discutimos com a editora os textos que ela queria dos que já tinham, os que ela achava mais interessante. Nós não quisemos repetir ninguém. Depois disso, apresentamos os textos escolhidos e falamos quem ia escrever ou não. Todo mundo que queria escrever um texto poderia escolher um tema e dar uma ideia da pauta que escreveria. Tiveram várias ideias e, novamente, nós fomos falar com a editora e escolhemos juntas.

O primeiro livro conta com textos antigos e novos das doze primeiras edições, textos novos de cada editoria e páginas para as leitoras interagirem. O segundo livro continua com esse formato?

Vai ser um pouco diferente. Nós vamos continuar tendo textos inéditos e não inéditos. Os textos não inéditos serão no mesmo esquema, um de cada edição. Também nenhuma repetição de escritoras, ainda mais agora que temos mais meninas, são 120. E nós decidimos com a editora que queríamos fazer novos formatos.

Qual a mensagem que vocês queriam passar com o primeiro livro? Essa mensagem continua no segundo volume ou tem algo de novo?

Eu acho que a mensagem é sempre a mesma, que é a nossa bandeira, e, inclusive, é o subtítulo do primeiro livro: o poder das garotas. Meninas tem poder, meninas podem fazer tudo, meninas não precisam ficar mal e se deixar vencer pelo patriarcado. Todas as meninas mesmo: negras, lésbicas, bissexuais, assexuais, trans. É sempre isso que vamos trabalhar e discutir. Nós vamos falar de formas diferentes, abordando questões diferentes, mas sempre essa ideia. O nosso ponto é dar essa força, esse apoio para as meninas verem que elas também têm força para fazer as coisas e mudar. O que nós discutíamos muito no começo é que todas nós, quando adolescentes, queríamos fazer várias coisas, mas nós não necessariamente entendíamos que poderíamos fazer. Queremos passar que elas podem fazer tudo o que elas quiserem, elas conseguem. E nós estamos conversando sobre isso com elas, estamos aqui para bater papo e ajudar.

Por Beatriz de Arruda
beatriz.arruda12@gmail.com

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