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“Carta à rainha louca” não enlouquece o leitor
Na Estante
19 dez 2019 | Por Gabriella Sales (gabriellasm@usp.br)

Uma história que retrata a opressão às mulheres, contada por uma mulher do Brasil do século XVIII, Carta à rainha louca (Alfaguara, 2019) traz a história de uma mulher inteligente e corajosa na luta contra a sociedade patriarcal da sua época, numa crítica constante que mistura História e ficção.

O romance epistolar é narrado por Isabel das Virgens, que escreve à rainha Maria I, considerada louca. A carta é a tentativa final da autora de provar a sua lucidez diante da acusação de insanidade que a acompanha ao fim da vida. Para isso recorre à piedade da rainha e à situação da mesma, que considera, de certa maneira, semelhante à sua. 

Assim, Isabel defende o seu ponto na tentativa de provar que não é louca, apenas desobedeceu as regras patriarcais impostas às mulheres do seu tempo e, por isso, foi acusada de insanidade e confinada num convento. Não é importante para o livro se de fato ela e a rainha são ou não loucas, mas sim o questionamento sobre o que os homens daquele período faziam com as mulheres que não se submetiam a eles.

No caso de Isabel, a não submissão é, na verdade, apenas uma forma de sobrevivência, já que passa boa parte da sua vida precisando prover para si mesma e sua senhora, Blandina, ambas renegadas pela família que as protegia. 

Portanto, a crítica tecida por Maria Valéria Rezende no livro é consistente e confunde informações de uma pesquisa histórica consistente com a ficção aventureira que constitui a história de Isabel. Um dos recursos mais interessantes utilizados pela autora é o de recorrer a trechos riscados, mas ainda legíveis, que imitam os riscos da pena quando a remetente diz algo que sente não dever. Tal recurso é bastante eficiente para ressaltar comentários até mesmo ácidos da narradora sobre a sociedade na qual está inserida, que se tornariam impertinentes numa carta à rainha. 

Contudo, na tentativa de tornar a carta realista, a autora também recorre a uma linguagem própria do século XVII, o que pode tornar a leitura cansativa e maçante em alguns momentos. Além disso, o início do livro é repleto de reflexões, devaneios e reclamações por parte da narradora, o que faz da leitura difícil de engatar, já que o propósito da história e as suas aventuras não são logo revelados. 

A crítica elaborada por Maria Valéria Rezende em Carta à rainha louca é perspicaz e inteligente, ressaltando elementos da sociedade patriarcal brasileira que muitos já sabem, mas não imaginam ver revelados de forma tão íntima e próxima. Todavia, a leitura é, por vezes, de difícil compreensão e pouco cativante, o que revela que, talvez, a autora pudesse ter atingido o seu objetivo de forma mais dinâmica e emocionante.

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