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Cem anos do Sulamericano de 1919: toda paixão tem um início
ARQUIBANCADA
04 dez 2019 | Por Anderson Marques Lima (anderson.marques.lima@usp.br)

Mais um dia bonito se iniciava na famosa Cidade Maravilhosa. O clima de decisão era emanado através de toda população, uma sensação que corria nas veias da nação brasileira, mas especialmente na ponta das chuteiras dos jogadores que entrariam em campo naquele dia. Ávidos pelo sentimento de superação e conquista e no intuito de deixarem seus nomes marcados na história do futebol brasileiro, a final Sulamericana movimentava o Rio de Janeiro e os atletas já sonhavam em ver seus feitos perpetuados pelo título que tanto buscavam. 

Você, caro leitor, pode pensar que estamos falando sobre o título da Copa América de 2019, conquistado pelo Brasil, após um jogo tranquilo contra o Peru. No entanto, o título citado era o Torneio Sulamericano de 1919, uma versão mais antiga e simples do que se tornaria a Copa América algumas décadas depois. 

Mas o que significava conquistar um título para a seleção brasileira em uma época em que o futebol não era um símbolo nacional? Toda paixão que se preze deve ter um início em algum momento, e o futebol, esporte que se tornaria identidade de um povo, nasceu para a Seleção Brasileira em 1919, na mesma cidade que traria tantas alegrias (como o título já mencionado da Copa América em 2019) e tristezas (Maracanaço em 1950) para o apaixonado futeboleiro. 

No dia 29 de maio de 1919, a história de conquistas importantes da maior seleção do mundo se iniciava, e assim, era hora de novas lendas serem criadas e perpetuadas. 

Medalha que foi dada aos campeões do Campeonato Sulamericano de 1919 [Imagem: GLOBOESPORTE.COM]

 

País do futebol? O advento de um símbolo nacional

Alguns estudos tentam descobrir como e quando o futebol brasileiro ganhou a alcunha de “pátria das chuteiras”. O início desse apelido tem momento certo, e foi com os onze “operários” que entraram em campo defendendo as cores verde e amarela no Torneio Sulamericano de 1919. 

O torneio disputado no Brasil foi a terceira vez que seleções da América do Sul se encontraram para disputar o título, com a primeira edição sendo sediada na Argentina, em 1916 (com o Uruguai faturando seu primeiro título sulamericano), e a segunda edição no Uruguai, em 1917 (com mais um título da celeste). A terceira edição do campeonato era para ter sido disputada em 1918, mas por causa dos casos de gripe espanhola que assolavam o território brasileiro, a organização do torneio decidiu suspendê-la, iniciando a competição no ano seguinte. 

Mesmo chegando ao Brasil por volta de 1890, o futebol foi sendo estruturado aos poucos, até chegar em 1914, quando um selecionado carioca embarcou em alguns amistosos defendendo o nome do Brasil. O futebol já havia alcançado outros estados, como São Paulo, e, no ano seguinte, os paulistas fundaram a Federação Brasileira de Futebol, sendo inclusive filiada à Federação Sul-Americana de Futebol. 

1914 foi o ano em que a palavra seleção foi vinculada ao país Brasil pela primeira vez. Vitória de 2×0 sobre o Exeter City, clube profissional da Inglaterra [Imagem: Arquivo CBF]

De acordo com Victor Figols, jornalista do site Ludopédio, “a união entre cariocas e paulistas só aconteceria em 1916, com a fundação da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), com sede no Rio de Janeiro. Acho que só é possível falar em uma Seleção Brasileira, após a fundação da CBD. Ainda que o selecionado fosse composto basicamente por jogadores do Rio de Janeiro e São Paulo, a ideia de uma Seleção Nacional já estava presente nas intenções da CBD, coisa que as iniciativas anteriores não vislumbravam”.

O Fluminense foi um dos principais pilares para a seleção nessa época. Seja através de jogadores convocados e da figura de Arnaldo Guinle, presidente do Fluminense e também da CBD na mesma época (1916-1920), o time carioca representava um grande fator para o sucesso da seleção. Tanto que quando foi decidido que o Sulamericano de 1918 iria ser no Brasil, o Fluminense construiu sua casa, o famoso Estádio das Laranjeiras, local que sediaria a final do torneio em 1919. 

A elite carioca ajudou na construção do estádio, e esse apoio aristocrático representava o que o futebol era na época: dominado pela elite e para o prazer da elite. “O controle do Fluminense e da CBD estava nas mãos de uma aristocracia carioca. Isso significava dizer que o controle do futebol pertencia a elite. O Fluminense foi fundado por uma elite carioca, que estava interessada em reproduzir o jogo praticado em território inglês. Mas, para além disso, a aproximação entre o Fluminense e a Seleção Brasileira se deu graças à figura de Arnaldo Guinle, que foi presidente do Fluminense”, comenta Victor.

O famoso Estádio das Laranjeiras, local construído para ser a casa do Fluminense e para sediar o Torneio Sulamericano de 1919, inclusive sua final [Imagem: Acervo Flu-Memória]

No entanto, algo estava para mudar, principalmente porque o Brasil e o mundo passavam por eventos importantes naquele momento: Revolução Russa e a Primeira Guerra Mundial no âmbito internacional, e a Greve Geral de 1917 no Brasil, acontecimento que escancarou os problemas sociais e políticos ocorridos através da crescente industrialização. 

O Sulamericano de 1919 foi a porta de entrada para o povo simples sentir o mesmo calor, as mesmas emoções que a elite sentia ao ver futebol. Naquela oportunidade, a cor e a classe social não importavam: estavam todos juntos com o time e torcendo para o melhor resultado.

 

Cem anos de história: a primeira estrela a gente nunca esquece

No dia 11 de maio de 1919, teve início o terceiro Campeonato Sulamericano de Futebol e o jogo Brasil x Chile foi o responsável por abrir o torneio. Jogador participante do primeiro jogo do Brasil na história, lá em 1914, Friedenreich marcou três gols, o que ajudou na goleada de 6 a 0 para cima dos chilenos. No mesmo grupo, Argentina e Uruguai fizeram um jogo equilibrado, terminando em vitória para os uruguaios por 3 a 2. A vitória acachapante da seleção despertou ainda mais o interesse do povo de estar nas arquibancadas para ver as partidas seguintes. 

Todos os jogos disputados no campeonato aconteceram no Estádio das Laranjeiras, e, quando a partida envolvia o Brasil, o estádio superlotava, passando facilmente dos 20 mil lugares disponíveis na época. Algo que aconteceu novamente quando a seleção brasileira enfrentou a Argentina e venceu por 3 a 1. O Uruguai ganhou seu outro jogo, agora contra o Chile, encaminhando a decisão para o último jogo do torneio, ao enfrentar o Brasil. 

No entanto, o jogo disputado no dia 26 de maio de 1919 não foi o que sacramentou o campeão do torneio, pois os dois times empataram em 2 a 2, com Neco, outro destaque da seleção brasileira, marcando os dois gols. Como na época não havia critério de penalidades para decidir o vencedor, uma partida extra foi planejada para o dia 29 de maio.

“O desejo de assistir ao jogo extra contra os uruguaios (os mesmos que nos abateriam no fatídico Maracanazo) era tanto que, diante da impossibilidade de conseguir comprar um bilhete, o torcedor não se fez de rogado. Escalou o morro vizinho e, do alto, com uma vista panorâmica do gramado, pôde acompanhar a todos os movimentos da partida”, relata o escritor Roberto Sander em seu livro Sul-americano de 1919: Quando o Brasil descobriu o futebol

De fato, mais de 28 mil pessoas compareceram ao Estádio das Laranjeiras na final, o que mostra a superlotação do local. Essa final envolveu mais coisas do que o campo podia comportar. Além da oportunidade de ser campeão de um título importante pela primeira vez em sua história, o Brasil dividia um passado de guerras com o Uruguai e a Argentina. 

O esquadrão que defendeu as cores da seleção brasileira no Sul-americano de 1919: Píndaro, Sergio, Marcos, Fortes, Bianco, Amílcar, Million, Neco, Friedenreich, Heitor e Arnaldo [Imagem: Revista O Malho]

“Já havia certa hostilidade entre brasileiros, argentinos e uruguaios que remonta à Guerra do Paraguai (1864-1870), quando tanto os vizinhos platinos, mas, principalmente, os paraguaios, usavam o termo “macaco” para designar os soldados brasileiros. Muitos anos depois, esse mesmo termo seria usado para designar os jogadores de futebol”, comenta Victor. 

A data foi tão importante que o presidente em exercício, Delfim Moreira, decretou ponto facultativo na capital federal. As equipes entraram em campo e nenhum dos times conseguiu marcar um gol durante o tempo normal. Ao contrário do que ocorre hoje em dia, se o jogo terminasse empatado, prorrogações de 30 minutos deveriam ocorrer até que um dos times vencesse, e foi exatamente o que ocorreu. Depois de 120 minutos, a decisão ainda estava aberta. 

Em uma situação de extremo desgaste, já que não eram permitidas substituições, os 22 jogadores partiram para a segunda prorrogação de 30 minutos. E, aos 3 minutos, após rebote do goleiro uruguaio, Friedenreich cabeceou firme em direção ao gol, sem chances para os defensores, e o estádio veio abaixo. “Naquele instante, o futebol fazia a sua primeira grande mágica; a revolução que o tornaria um patrimônio cultural de toda uma nação, o seu próprio rosto, uma espécie de carteira de identidade, com impressão digital, fotografia e tudo mais que se tem direito”, exclama o escritor Roberto Sander ao relatar sobre o significado desse gol e dessa vitória. 

 A hegemonia uruguaia era colocada em xeque pela primeira vez, o que deu um status diferente ao Brasil. Segundo Filipe Mostaro, Doutor em Comunicação, “A vitória do Brasil em 1919 marca a condição do futebol como uma expressão muito forte do imaginário nacional sobre algo que seria capaz de representar a nossa nação”. Depois do título, o futebol caminhou para se tornar o principal esporte brasileiro, sendo ainda mais reforçado com o terceiro lugar na Copa do Mundo em 1938 e, depois, ao sediar a Copa do Mundo de 1950.

Um dos impactos mais importantes desse título foi o início da profissionalização do futebol em terras brasileiras e a esperança que esse esporte saísse do eixo Rio-São Paulo, mesmo que isso acontecesse de forma tímida.

O gol do título: Friedenreich cabeceia firme no gol, colocando todos os presentes em êxtase [Imagem: Arquivo Nacional]

 

El Tigre: Friedenreich, o artilheiro dos “mil gols”

“O chute de Friedenreich abriu o caminho para a democratização do futebol brasileiro”, escreveu o jornalista Mário Filho no livro O negro no futebol brasileiro. Exemplo da miscigenação brasileira, o descendente de alemães Arthur Friedenreich nasceu para se tornar a primeira estrela da seleção.

O site da CBF conta que “durante uma partida na rua, o jovem foi atropelado. Não sofreu nada além de arranhões e seu pai, Oscar, pensando em evitar um novo incidente, matriculou o filho no clube Germânia”. Devido a um acidente, o destino do artilheiro e da seleção se cruzaram em algum momento, mudando a história de ambos.

 “Friedenreich era um mulato de olhos azuis, que não pertencia a elite brasileira, mas devido ao seu estilo único de jogar futebol, conseguiu circular entre os principais clubes paulistas e cariocas, até chegar à Seleção Brasileira”, comenta Victor ao descrever a carreira do jogador. Carreira essa que era envolta em mitos, seja na contagem de gols, em que alguns registros contabilizam mais de 1300 gols, ou mesmo a lenda de nunca ter perdido um pênalti em mais de 500 cobranças. Verídicas ou não, o torcedor brasileiro se importa com o que de fato viu: o gol do título de 1919. 

O desempenho e o gol importante fizeram com que os uruguaios, em uma demonstração de espírito esportivo, dessem uma placa a ele com a alcunha “El Tigre”, apelido que ele usou até o fim de sua carreira. O nome não foi dado em vão, pois, de acordo com descrições da época, o jogador realmente lutava como um tigre e representava perigo constante aos adversários. 

O Museu do Futebol, instituição da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, contabiliza oito artilharias no Campeonato Paulista para Friedenreich, uma marca que seria quebrada apenas quando um jogador chamado Pelé encantou os campos paulistas (e mundiais).

Arthur Friedenreich, o “El Tigre” [Imagem: Globo Esporte]

Além disso, o Museu também relata outros dados históricos em que o jogador esteve envolvido, tal como ter participado nos primeiros jogos de um time brasileiro no exterior, ao jogar pelo S.C. Americano, ou mesmo jogar o primeiro jogo da Seleção Brasileira, conforme citado anteriormente. 

Em 1914, o Brasil foi convidado a disputar a Copa Roca, e com isso, ele também participou da primeira vitória da seleção brasileira no exterior, quando venceu a Argentina por 1 a 0. O momento histórico mais importante foi com certeza a conquista do Sulamericano de 1919, mas, mesmo após esse título, Friedenreich continuou fazendo história, participando dos primeiros jogos de um time brasileiro na Europa, em 1925, com o C.A. Paulistano e também por participar do primeiro jogo profissional do futebol brasileiro. 

Mesmo com o início tímido em 1919, a profissionalização do futebol demorou 14 anos para se concretizar, quando os clubes de São Paulo e Rio de Janeiro cansaram de perder jogadores para o exterior. Mas isso não foi o mais importante, a questão é que Friedenreich foi o autor do primeiro gol profissional da história, em 1933, em um jogo entre Santos F.C. e São Paulo F.C. na Vila Belmiro. 

“Certamente Friedenreich é um dos personagens mais importantes dos primórdios do futebol brasileiro. Ele teve um papel determinante para o crescimento e popularização do futebol no Rio e São Paulo, além de ter sido o principal jogador da Seleção Brasileira na época”, comenta Victor. 

De fato, o jogador está entre os mais importantes da história brasileira, inclusive tendo espaço no Museu do Futebol, localizado no Estádio do Pacaembu. Se a Seleção Brasileira ganharia o título de 1919 sem o atacante? Na história não existe o “se”, mas não há como negar a importância e a relevância que Arthur Friedenreich teve para a amarelinha, ou, respeitando seu momento, a branquinha.

 

Entre homenagens e nostalgia, o respeito merecido

Neste ano, o Sulamericano de 1919 completou um século. De forma nostálgica, a CBF decidiu prestar homenagem aos campeões daquele campeonato, e, no dia 14 de junho de 2019, no jogo entre Brasil e Bolívia, os jogadores entraram em campo com o uniforme branco. 

Historicamente, o uniforme branco da seleção foi utilizado até a final da Copa do Mundo de 1950. Após a derrota, mais por uma questão de superstição do que qualquer outro motivo, o uniforme teve sua cor modificada. Sendo assim, a partir de 1954, a camisa amarela com calção azul começou a aparecer em campo. O segundo uniforme teve seu modelo adotado a partir de 1958, quando o Brasil ganhou a final contra a Suécia, e então o azul continuou a ser uma das opções. 

Homenagem ao uniforme usado em 1919. Ao enfrentar a Bolívia pela Copa América 2019, os jogadores entraram em campo com o uniforme branco, usado até a década de 1950 [Copyright: CBF/Reprodução]

Seria difícil pensar em algo que a seleção atual poderia aprender com aqueles jogadores que entraram em campo em 1919, já que há uma boa distância entre o amador praticado naquela época e o profissional disputado hoje em dia, tempos de transações milionárias, patrocínios exorbitantes e estruturas colossais. 

No entanto, de acordo com Victor, há algum aprendizado: “Não sei dizer se tem alguma lição para ser aprendida com a Seleção de 1919, mas sem dúvida a seleção atual poderia se aproximar da torcida brasileira, mandando mais jogos em território nacional, estreitando o vínculo seleção-torcedor. E assim, talvez, um título de Copa América tivesse maior comoção e comemoração por parte da torcida”. 

A história é feita por ciclos: em seu início, o futebol era dominado pelas elites. A partir do título de 1919, o povo percebeu que também poderia entrar na festa, e assim, o sonho de torcer e de jogar foi alcançando as diversas classes sociais existentes no Brasil. Mais recentemente, através da glamourização do esporte, os menos afortunados começaram a ser afastados novamente do futebol, seja por ingressos extremamente caros ou pela criminalização dos torcedores pobres.

O título do Sulamericano de 1919 foi o princípio de uma revolução, não apenas para o futebol, mas para a sociedade brasileira. Servindo até como elemento de unidade nacional, o futebol é uma emoção que já foi mais romantizada e que progressivamente tende para um lado mecanizado e financeiro. O que não pode ser esquecido é que até chegar a um Pentacampeonato mundial e ser referência no esporte, um fato importante foi a causa inicial e jogadores como Marcos Carneiro de Mendonca, Neco e Friedenreich foram parte dessa causa: a faísca que desencadeou o início dessa paixão brasileira chamada futebol.

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