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Chame-o pelo nome: a importância da representatividade na música
Escuta Aí
06 dez 2017 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de Capa: Jonas Santana/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

“Sejam quem vocês são, o que vocês são. Sejam. Se manifestem” (Ney Matogrosso em entrevista à Trip TV)

De diversas maneiras, o meio artístico está sempre produzindo um padrão para a música. A forma mais fácil de perceber isso é através da sonoridade – a estrutura sobre a qual as músicas são produzidas é a mesma, começando de forma lenta e passando por um clímax intenso que as encerra. A razão para tal é essencialmente comercial, sendo formado uma espécie de molde para produzir canções que atinjam um agradável número de vendas.

Dessa forma, a liberdade criativa do compositor é cerceada. O desejo de produzir uma música – ou qualquer outra forma de arte – de forma mais subjetiva e identitária é excluído, e assim grandes massas de fãs ficam sem uma música que os represente de verdade.

A arte é livre, mas o artista não

Uma das maiores dificuldades do mundo artístico é a busca da definição do que é arte. Tentativas não faltam: muitos teóricos se propuseram a dar uma resposta acadêmica à questão, mas a maioria falhou em evasão inconclusiva ou especificidade generalizadora.

A impossibilidade de desmistificar esse conceito vem, em parte, do ilogismo da pergunta. A arte, por si só, tem natureza livre. A proposta de traçar a linha demarcatória entre o que é considerado arte e o que não é restringe seu horizonte, lhe dá forma e fere o único caráter que é comum à todas suas categorias – a liberdade.

O fazer artístico provém de um indivíduo, origina-se nas curvas de seu cérebro, e a intencionalidade pertence à ele até seu lançamento. A arte é expressão. O artista funciona como um instrumento através do qual ela se manifesta, a mão que pinta e a garganta que canta, mas a arte em si é totalmente independente dele. Ele é o meio, a arte é o fim.

A falta de certo e errado neste caso não dá, ao contrário do que se possa imaginar, total liberdade de produção ao artista. Interesses financeiros, a necessidade de alcançar um público maior, o medo da represália e a reputação do nome por trás da obra são alguns fatores que motivam uma autocensura do artista, que acaba optando por deixar de lado algumas características essenciais que poderiam causar uma maior identificação do público.   

Imagem: Jonas Santana/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

A representatividade na música

O acompanhamento constante por parte dos espectadores de um determinado artista é muito ligado ao nível de identificação pessoal que sentem. A sensação de conexão, o intuito de procurar a si mesmo numa obra, e principalmente de encontrar a si mesmo, é o que produz o gosto por aquela arte em específico. E para Tolstói, essa é a única forma verdadeira de arte, como explicado em seu livro O Que é Arte?. “A arte é uma atividade humana que consiste em alguém transmitir de forma consciente aos outros, por certos sinais exteriores, os sentimentos que experimenta, de modo a outras pessoas serem contagiadas pelos mesmos sentimentos, vivendo-os também”, define. Assim, o autor endossa que “quanto mais forte for o contágio, melhor é a arte enquanto arte”.

De fato, uma das melhores formas de contagiar o espectador subjetivamente é através da representatividade, que tem ganhado muita força no meio artístico na última década. Não apenas como uma forma de contestar, não como um ato político, mas como uma forma de ser – sem meias palavras ou comedimento, apenas como simplesmente se é. A ascensão de artistas que se utilizam de características pessoais para produzir a arte diz muito sobre a importância da representatividade – o artista que se expressa com orgulho sobre a forma que é, mesmo tendo consciência que parte do público irá desgostar, revela a necessidade de existir uma voz dizendo aquilo.

No Brasil, o cenário musical dos últimos dois anos foi tomado por artistas LGBTQ+ que buscam, através de suas letras, atrair a atenção do público ao colocar a sexualidade em cima do palco. Algo que, alguns podem dizer, existe desde Madonna, mas que na verdade é diferente – agora, os artistas não tem receio de chamar a pessoa amada pelo nome, independentemente do tradicionalismo de gênero. O uso afetuoso de pronomes que remetem ao mesmo sexo são um marco importantíssimo na música e na comunidade LGBTQ+, pois apesar de termos artistas publicamente declarados homossexuais, ainda temos poucas canções que também o são. Na verdade, em sua maioria é utilizado o pronome “você”, deixando em aberto o gênero da pessoa referida. Bowie, Cazuza, Morrissey, Cássia Eller, Freddie Mercury e muitos outros nunca cantaram sua orientação sexual, optando pela indefinição de gênero para compor suas canções.

“Baby, eu já cansei de me esconder / Entre olhares, sussurros com você / Somos dois homens / E nada mais”

A nova forma de manifestação homossexual tem sido muito bem recebida pelo público. Artistas como Liniker, Johnny Hooker e Rico Dalasam eclodiram no país com milhões de visualizações no Youtube, e chegaram a tomar os palcos de programas da televisão aberta – ganhando reconhecimento até internacional – ao apostar numa representatividade que transcende metáforas e declarações à mídia. O intuito é colocar em voga os preceitos definidos de gênero e brincar com eles, usando-os ao seu favor, ao misturar barbas com delineador e blues com beijos gays.

A nova geração da música brasileira também está sendo vista com bons olhos pela velha guarda. Em entrevista à Trip TV, Ney Matogrosso comenta, junto de Rico Dalasam, que o princípio das duas eras é o mesmo: “não se submeter, não caminhar dentro de trilhos pré-determinados”. O artista, que teve muita repercussão na década de 80, ainda comentou que observa que “vem vindo junto com você [Rico Dalasam] uma galera que não tem governo e nem nunca terá”.

 

A comunidade LGBTQ+ precisa de vozes que digam o que seu público não tem espaço para dizer, que não tenham receio de uma má recepção midiática, que permitam aos espectadores um escape, proporcionando a oportunidade de cantar num mundo, infelizmente ainda utópico, em que não se tenha medo de chamar a pessoa amada pelo nome. Em que se chame ele de ele, ela de ela, e não se omita. Assim, citando o Walter White de Breaking Bad – ou Destiny’s Child para os beyhives -, fica um apelo à todos os artistas que representam uma orientação sexual minoritária: say my name.

Por Giovanna Jarandilha
giovannajarandilha@gmail.com

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