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Cinderella: Uma tentativa de trazer a modernidade ao conto de fadas
Em Cena
05 set 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Divulgação

O musical Cinderella, com os atores Lia Canineu (Cinderella) e André Loddi (Príncipe Topher), é uma adaptação da versão Disney do conto Cinderella, de 1950. No entanto, não tem como objetivo a reprodução precisa do enredo mais conhecido. Às mudanças, se adicionam as novas tecnologias de projeção e algumas perspectivas mais atuais. Nisso, a peça transita entre presente e passado, uma vez que se origina de uma história tradicional, mas claramente se preocupa em fazer uma ambientação contemporânea. Porém, essa preocupação por vezes funciona e, por outras, falha.

Há alguns aspectos trazidos da atualidade que não condizem com o universo dos contos de fadas. Nas falas, o tom fica forçado quando tentam incrementar gírias, o que foi bastante frequente. “Arrasa, maninha”, “vem em mim que eu estou facinha”, “olha ela!”, por exemplo.

Nas referências culturais compartilhadas com o público, há a inserção de elementos que afastam o espectador da fantasia. Primeiro, Cinderella canta uma música em que diz querer ser capa de revista. Momentos depois, a Madrasta (Talitha Pereira) aponta ao cabelo de uma de suas filhas e pede para que o arrume, pois podia parecer “arte contemporânea” – a história da Gata Borralheira, a qual originou essa, foi criada na China, em 860 a.C. e mesmo a versão da Disney provavelmente se passa na Idade Moderna. Houve ainda uma cena em que um dos personagens recebeu a ordem de dar um aviso aos súditos. Acabado o aviso, ele diz: “Volto às 11h com esportes e previsão do tempo”, como se estivesse na TV.

Além de tais fatores, ocorre a inserção de um novo personagem, Jean-Michel (Igor Miranda), um revolucionário que faz críticas à realeza e deseja que a monarquia implante a democracia – o que já é, por si, inconsistente; ser justo, honesto e bondoso não é o mesmo que ser democrático. Ele representa os pobres e, de modo geral, a oposição ao governo do príncipe. No início, Jean-Michel parece ser canal das questões da crise política brasileira atual. Ele fala sobre corrupção, por exemplo, importando o descontentamento popular de hoje – materializado na Operação Lava Jato – para dentro do conto.

Não que historicamente as monarquias não tenham suscitado a desaprovação e até mesmo a ira do povo. Nem que o fato de o filme não trazer a temática impeça a adaptação  de incluí-la. Acontece que o personagem parece um atalho para a familiarização do público com a dimensão da obra. Sua participação não faz tanto sentido na peça, e, algumas vezes, chega a ser ridicularizada, como no momento em que ele diz que não chegou a ler o livro sobre governo popular que o próprio indica. Ele simbolizaria o homem que não tem riquezas, mas sim ideias próprias. Porém acaba caindo no estereótipo do “pé rapado” e do “rebelde sem causa”.

Considerando que ele representa a voz dissonante em relação ao governo vigente, é perigoso mascará-lo como alguém que fala muito sem saber o que diz. Nesse caso, ridicularizar Jean-Michel é ridicularizar o pensamento dos que questionam. Mesmo que não intencionalmente, é dizer ao público que todos aqueles que se posicionam contra o que está estabelecido são apenas inflamados, que bradam mais do que pensam.

Todavia, há um saldo positivo em sua presença. Jean-Michel é par romântico de Gabrielle (Letícia Mamede), uma das filhas da Madrasta. Os atores mostram grande química e cativam o espectador. Ao contrário da história original, Gabrielle se mostra uma pessoa altruísta, apresentando até algumas cenas de união com sua irmã, Cinderella.

Outra adaptação que empobrece a obra é o fato de Cinderella conhecer o príncipe antes do baile, chamá-lo de “Vossa Alteza” e depois agir como se não soubesse quem era. Também, há duas festas e duas situações com o sapatinho, sendo a correspondente à história original apenas a segunda.

Alguns aspectos conhecidos fizeram falta. A relação de Cinderela com todos os animais, que no filme é tão presente, é suprimida. Não só faltam os passarinhos que acordam a princesa, como o cavalo, que se comove com sua situação de humilhação, e até o vilanesco gato lúcifer. Nem mesmo os ratinhos Jaq, Tata e Bruno, fiéis amigos da moça, estão presentes.

A ausência de músicas como Bibidi-Bobidi-Boo, tocada durante a transformação do vestido, intriga os fãs que conhecem a versão Disney.

As danças entre o casal principal também deixam a desejar, pois essas são curtas e pouco trabalhadas. Essas cenas, que no filme são tão delicadas quanto centrais, na peça ficam em segundo plano e acabam com beijos que parecem objetificar mais do que romantizar.

Na versão Disney, o máximo que acontece entre os dois ao fim do baile é um quase beijo. É certo que a época era outra – tanto em relação à em que o filme foi produzido quanto à que representa. A visão social da sexualidade feminina já progrediu muito. Hoje, Cinderella não teria uma imagem melhor por não beijar o príncipe, “resguardando-se” em relação a ele. Porém, nesse caso, economizar os beijos não seria conservador, mas colaboraria com a esfera de encantamento em que se insere o casal, que fica prejudicada.

O conservadorismo, de qualquer forma, é presente e se revela em algumas cenas de forma muito mais grave. A tentativa de trazer temas atuais – como os que se relacionam à diversidade – torna-se incoerente e problemática quando carrega preconceitos. Há passagens de caráter gordofóbico, como as referências à outra filha da Madrasta, Charlotte (Luana Bichiqui), a qual é sempre tratada como “gorda”, “gulosa”, entre outros adjetivos em tom ofensivo. Poderia-se dizer que o fato de esse discurso ser colocado na boca da vilã mostra justamente a sua deslegitimidade. Mas a própria Cinderela, identificada como modelo de conduta tanto por crianças quanto por adultos, ao fim da peça é condescendente com a fala da madrasta que ordena uma dieta à filha, pois esta estaria “enorme de gorda”. Diante disso, a princesa sorri compreensivamente, acolhendo o discurso.

A peça derrapou novamente na representação de outra parcela da diversidade: a comunidade LGBTQ+. A homofobia fica implícita com o papel de um  criado do príncipe, que é estereotipado e moldado como “escandaloso”, o que dá uma falsa visão do homossexual. O personagem também é negro e tem pouca voz, colocando-o realmente como não mais que um “criado mudo” sem uma real representatividade.  

Da forma colocada, tanto a gordofobia quanto a homofobia funcionam como mecanismos de riso fácil para a plateia e conseguem alcançar seu objetivo. Muitos convidados pareciam estar de acordo com as piadas, inclusive crianças, o que implica em algo negativo para os coletivos de resistência existentes e, no geral, para o avanço do respeito em relação às minorias.

A intencionalidade do discurso da peça seria diferente colocando Cinderella como a personagem gorda. Mas ao colocar  a irmã invejosa e rejeitada como tal, a intenção é outra. Seria uma colocando, como no Live-action (2015), a negritude no personagem do Capitão da Guarda – fiel companheiro do príncipe – e é outra colocando-a no personagem escandaloso que mal possui falas.

Há também algumas mudanças que não eram necessárias, mas se tornam aspectos negativos, na medida em que fazem o público perder oportunidades de reconhecer pontos da obra. A plateia espera conseguir identificar nomes, cenas específicas, tendo em mente que a história é um clássico.

Quem viu o filme percebeu ou perceberá a seguinte alteração: as irmãs de Cinderella, que na peça chamam-se Charlotte e Gabrielle, nele, carregam os emblemáticos nomes Anastasia e Drisella. Além disso, o paralelo entre cor do vestido e personalidade é desfeito aparentemente sem motivos. Na animação, a irmã de rosa é quem mais compete com Cinderela pelo príncipe, enquanto na adaptação quem o faz é a irmã de verde. Ou seja, nem por nome, nem pela figura, as irmãs podem ser reconhecidas. O próprio Príncipe Encantado é Príncipe Topher na versão teatral, e seu carismático pai, pelo roteiro da peça, já haveria morrido.

Apesar das negativas, o espetáculo tem momentos em que prende a energia do público. Neles, somos quase irremediavelmente fisgados. As coreografias, sobretudo as do baile, e os figurinos, que compactuam com o momento, deixam o público maravilhado. A transformação dos vestidos é fantástica, com uma mudança praticamente imperceptível e com muito brilho, como deve ser. A carruagem montada deixa os olhos brilhando e Marie (Ivanna Domenyco), a fada madrinha, encanta a todos com sua belíssima voz.

E se falha a representação dos LGBTQ+ e dos gordos, a feminina funciona surpreendentemente bem em alguns momentos da peça. Cinderella e sua irmã Gabrielle, que estavam destinadas a brigar pelo amor do príncipe, apoiam-se mutuamente em suas decisões pessoais, encorajam-se a seguir com seus planos e torcem uma pela outra. A competição entre mulheres, presente na animação, é substituída por uma cumplicidade entre elas, a qual, no contexto do feminismo, chamamos de “sororidade”.

Foi também interessante notar a atitude feminina posta em cena. Ainda que tenha custado alterações significativas de enredo, valeu a pena vermos Cinderella dando ao príncipe a ideia de guardar seu sapatinho para encontrá-la depois. Ela o faz de modo pouco sutil, ao jogá-lo a Topher, que só então exclama: “Ah!”, como quem entende o que deve fazer. Gabrielle também passa por algo parecido. Ao receber Jean-Michel em sua casa, diz a ele algo como “Você bem que podia me pedir em namoro”, abrindo espaço para que ele se pronuncie em relação a isso.

Ambas as situações desconstroem o paradigma da passividade feminina diante dos homens. Apesar de quererem que eles as procurem e de quererem receber pedidos de casamento, são elas quem dão o primeiro passo para que isso possa acontecer.

No filme, Cinderela é protagonista, mas ainda é o fruto da visão masculina sobre a figura da mulher. Assim, o príncipe, ainda que sequer tenha nome, na prática é mais ativo que ela, pois a dinâmica da obra se estabelece partindo da perspectiva do homem. Nunca se assumiria ao público que teria sido Cinderella quem teve iniciativa em relação ao príncipe, e não o contrário. Na peça, as mulheres começam a ganhar autonomia, o que, dessa vez, consegue refletir o contexto atual. E esse avanço se traduz naquilo que a obra permite que o espectador veja. Por isso vemos essas personagens femininas colocando suas cartas na mesa, no jogo dos relacionamentos amorosas.

Fazer a adaptação de um clássico não é fácil. Sobretudo porque deve-se contar com o fato de que o público já chega com um referencial bem definido do que espera encontrar. Mudar esse script e obter sucesso é mais difícil ainda. Para tanto, deve-se ter um objetivo muito claro e justificado. Caso contrário, os espectadores só se sentem alienados da obra pela qual já cultivam certo carinho.

O clássico Cinderella sem os amigos ratinhos, o pai do príncipe, Anastasia e Drisella, Encantado e sem a cena original do sapatinho nos passa uma mensagem. A de que a obra atual não quer ser apenas reprodução. Mas existe um vácuo de intenção na nova mensagem pretendida. Isso parece fazer com que, sob alguns aspectos, a peça fique no meio do caminho entre a nossa realidade e a realidade do conto de fadas. Acaba sendo frustrante, pois não se deixa ser puro entretenimento – já que nos deixa alerta a todo tempo, pelas muitas alterações em relação àquilo que já conhecemos. Mas também não se estrutura totalmente como uma inovação – não mostra um propósito pensado, que nos permita embarcar na nova versão, o que preencheria o vazio deixado pelos elementos ausentes.

Por Carolina Fioratti e Ana Gabriela Zangari Dompieri
carolinafioratti@usp.br | anagabrielazd@gmail.com

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