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Como foi aprender a andar de bicicleta
ARQUIBANCADA
12 maio 2020 | Por Emylly Alves (emylly@usp.br)

Pessoas que começaram a pedalar na idade adulta

O céu amanhece nublado na terça-feira. Mas não chove. No Parque Villa-Lobos, às margens da Marginal Pinheiros, a aula está prevista para às dez horas da manhã. Alugo uma bicicleta e um capacete. 

O funcionário da BikeGo Villa-Lobos reconhece meu nervosismo: “é para a aula, moça?”, ele me pergunta. Confirmo que sim sem muita certeza.

Ele me traz uma bicicleta aro vinte e dois da cor verde-limão, meio caminho entre o verde e o amarelo. Então, movo-a por energia cem por cento humana: empurrando-a. 

Depois, avisto o professor Willi que termina a aula anterior. A outra aluna se chama Sol, tem quarenta e sete anos. Ela me diz que soube da Escola de Bicicleta Primeiro Pedal por recomendação de uma amiga da época do secundário, que também não sabia pedalar e aprendeu com o instrutor.

Willi me convidou para fazer o curso quando o entrevistei sobre adultos que investem em aulas para aprender a andar de bicicleta. Ele descobriu que eu também não sabia pedalar, uma das minhas maiores frustrações até então.

 

Nunca é tarde para aprender

Willi Schlote é um educador físico natural de Taubaté, no Vale do Paraíba paulista. Voluntário há três anos no projeto Bike Anjo, no qual ciclistas experientes ensinam gratuitamente as pessoas a usarem a bicicleta com segurança, ele percebeu que tinha facilidade para ensinar. Então, há dois anos, a Escola de Bicicleta Primeiro Pedal surgiu com o objetivo de ensinar pessoas de todas as idades a andarem de bicicleta. 

“No Bike Anjo, você tem que se aprimorar sozinho depois. Na escola, eu ensino a pessoa a ser ciclista”, ele explica.

O método de aprendizagem e didática próprios fazem com que os alunos aprendam a pedalar de modo rápido e seguro. Willi ainda continua o trabalho voluntário: a cada cinco alunos na escola, ensina um no Bike Anjo. 

No início do curso, Willi conversa com o alunos para entender os seu históricos e suas dificuldades no processo de aprendizagem para andar de bicicleta. Depois, ele define em conjunto com o aluno como será a abordagem. 

“Durante o curso, eu consigo ver onde está a sua dor, onde está o seu problema, para corrigi-lo. A primeira técnica mais importante é essa”, diz.

 

Primeiras pedaladas

Na primeira aula, Willi remove os pedais. Ele abaixa o banco da bicicleta e eu me encontro com os meus dois pés no chão. 

“Não tem como você cair. A bicicleta virou um patinete com banco. Você vai bater o pé no chão e dar movimento”, ele me assegura.

O instrutor também explica que a primeira coisa que o aluno precisa entender quando sobe numa bicicleta é se equilibrar. Willi ensina técnicas de corpo e guidão e, principalmente, para qual direção é preciso olhar para manter o equilíbrio.

“Por isso, as pessoas às vezes não aprendem. Quem está ensinando realmente tem boa vontade, mas não tem didática. Acaba não percebendo onde está o erro. A pessoa continua errando e a outra continua falando: ‘mas você tem que pedalar!’. O problema não é pedalar, é ter a técnica correta”, afirma.

Ele também me explica o uso dos freios. “O freio traseiro e o freio dianteiro têm muita diferença. O freio dianteiro proporciona parada mais brusca e o traseiro uma frenagem mais suave. Então, pensa assim: mão direita é mão de princesa, mão esquerda é mão de ogro.” 

Segundo Willi, as pessoas geralmente não ensinam esse aspecto. Dessa forma, quando alguém aprende a se equilibrar na bicicleta, acaba caindo no momento de parar por apertar o freio errado. O que pode ocasionar um evento traumático no indivíduo pela queda. 

“O freio dianteiro não é o vilão, muito pelo contrário: ele que te salva. Só que você precisa usá-lo de maneira correta. Ele é um freio mais sensível. Então, se você parar a bicicleta, você não cai. Antes de ela cair, você para.”

Ele nunca segura meu banco. Segundo ele, poucos alunos caem, quando acontece é porque se distraiu e esqueceu de usar o freio. Então, isso me dá segurança.

“Se eu segurar, quando você precisar se equilibrar, eu que vou corrigir”,  justifica.

Willi explica que equilíbrio em cima da bicicleta é movimento. Para ter movimento, é necessário de velocidade. 

“Quem tem muito medo não deixa a bicicleta pegar velocidade, ela vai andar devagar toda aula. Então, a partir do momento que você não tem velocidade, você não tem movimento, você não tem equilíbrio.”

Termino a primeira aula já pedalando. Aprendo a saída com bicicleta, a parar e a usar os freios. E o que nunca vou esquecer: o equilíbrio motor sobre duas rodas. Ajeito minha mochila nas costas e volto pedalando para devolver a bicicleta e o capacete.

“Esse cara é um mestre! As pessoas entram empurrando a bicicleta e saem pedalando”,  fala animadamente um dos funcionários da BikeGo Villa-Lobos.

Os alunos utilizam um colete durante as aulas [Imagem: Instagram/Reprodução]

A dificuldade aumenta

A quarta-feira da semana seguinte amanhece ensolarada. Máxima de trinta e seis graus. A aula está prevista para às onze horas da manhã. Mais uma vez alugo a bicicleta verde-limão e o capacete. Mas dessa vez o funcionário de entrega uma de aro maior: aro vinte e quatro. Estranho o tamanho e não consigo ter confiança para ir pedalando. Willi me vê empurrando-a:

“Próxima aula quero que você chegue aqui pedalando! Você já sabe”, ele me desafia.

O sol maltrata muito durante a aula. Estamos quase atingindo o que a gente quer. Nesta aula, aprendo a desviar de obstáculos e fazer o oito com a bicicleta. Foi muita caloria que se gastou, muito sol na cabeça. Mas valeu.

 

Formatura 

A terceira e última aula foi às dezessete horas da tarde. Estava fresco. Os funcionários da BikeGo já me reconhecem e me recebem calorosamente. Encontro Willi. É a minha formatura no curso. O objetivo é fazer os três quilômetros e meio de ciclovia do parque. O caminho começa plano e largo, depois se torna mais acidentado. Pego alguns buracos. Eu quase mergulho neles. Mas me mantenho calma.

Ele me ensina quais medidas tomar quando for fazer ultrapassagens ou ser ultrapassado. Quando não utilizo o freio numa das últimas curvas, vou de encontro a um canteiro de flores amarelas. Mas não me machuco, essas coisas servem para ficar mais esperta.

“Não adianta vir apavorado para pedalar. Vai ter aperto, vai acontecer de tudo”, diz.

Acabamos a ciclovia. Agradeço ao Willi por me ensinar algo que nunca pensei ser capaz. Em três aulas, cada uma de uma hora, virei ciclista. Tiramos uma foto, que vai para o registro de alunos formados no curso na conta do Instagram da Escola de Bicicleta Primeiro Pedal. Ainda tenho tempo e decido sozinha fazer a trilha novamente. Não erro dessa vez. Por fim, devolvo a bicicleta e o funcionário me parabeniza:

“Daqui a pouco está fazendo grau com a bicicleta”, ele me diz. Confirmo que sim. É só o início da minha jornada como ciclista.

Com Willi, alunos podem aprender a andar de bicicleta quando adultos

Willi tira uma foto com todos os alunos formandos para simbolizar o fim do curso [Imagem: Instagram/Reprodução]

É como andar de bicicleta, você nunca esquece

“Andar de bicicleta é tão intuitivo quanto aprender a caminhar. A hora que você começa a aprender, não precisa pensar mais, seu corpo não esquece”, explica.

Isso é afirmado porque existe uma memória para o aprendizado da habilidade motora. Quando realizamos ou tentamos imitar um ato motor, nossos programas representam nada mais do que modelos para a formação de memórias associativas. 

Nesse estágio, este tipo de memória se refere à capacidade de aprender novos gestos motores, sendo manifestada por meio da melhora do seu desempenho, mediante um processo chamado de mecanização.

Willi teve casos de alunos que aprenderam a andar de bicicleta na infância e não pedalavam há mais de cinquenta anos.

“Esses alunos sabem andar, só não possuem a confiança. É como caminhar: você pode passar sessenta anos numa cama, mas você não precisa reaprender a caminhar”. Para ele, basta equilibrar o corpo pra frente e colocar um pé em frente do outro. “Bicicleta é a mesma coisa: você tem que pôr a bicicleta em movimento e usar o guidão”, garante.

 

Adultos que investem em cursos para aprender a andar de bicicleta

Ele recebe alunos a partir dos sete anos. Willi explica que não tem uma faixa etária mais fácil: já teve crianças que pedalaram em dez minutos e senhora com sessenta e oito anos que pedalou em dez minutos. De acordo com Willi, nenhum aluno saiu sem pedalar. 

“Quem demora mais para aprender é quem tem muito medo. O medo paralisa a pessoa e ela não consegue entender o que é equilíbrio. Eu já tive uma aluna que fez mais de dez aulas.”

O custo das aulas é de R$ 490. Um valor fixo, independente de quantas aulas o aluno precisar. “Eu gosto de dar a segurança para o aluno de que ele vai aprender, tanto que o pagamento do curso ocorre só depois que ele aprende a pedalar”, afirma.

O perfil mais recorrente das pessoas que procuram a Escola de Bicicleta Primeiro Pedal é de mulheres na fase adulta. E, apenas no ano de 2018, a escola formou mais de duzentos alunos.

“As crianças, os pais esperam um pouco pra ver se vai aprender. Os adultos vêm procurar por necessidade: eles observam que a cidade está precisando dessa mudança de hábito ou muitos alunos querem tirar a carta de moto e precisam aprender a parte de equilíbrio”, explica. 

Para o instrutor, o maior índice de mulheres é devido ao fato do orgulho masculino para pedir auxílio.

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