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A revolução copernicana da felicidade
Corpo e Mente
29 jan 2020 | Por Bruno Richard (brunrich@usp.br)

“Quando eu passar na faculdade serei feliz”, “quando eu ingressar naquele emprego serei realizado”, “quando tiver minha casa poderei encontrar alegria”. A nossa cultura nos ensina que devemos primeiro alcançar nossos objetivos para, só depois,  finalmente, atingirmos a felicidade. Porém, essa mentalidade vem minando a saúde mental de muitas pessoas. De acordo com um relatório publicado pela revista Lancet, casos de doenças como ansiedade e depressão aumentaram “dramaticamente” nos últimos 25 anos. As decepções por não se alcançar aquilo que os outros esperavam contribuem para esta estimativa. 

Pesquisadores, nos últimos tempos, tem realizado pesquisas que comprovam os equívocos dessa cultura. Segundo eles, essa lógica na verdade deveria ser invertida. Segundo o neurologista e psicólogo formado na Universidade de São Paulo  (USP) Poti Chimetta, a sensação de prazer ativa o sistema límbico, responsável pelas emoções, tornando os indivíduos mais aptos e produtivos. Portanto, o estímulo “a felicidade” aumenta nossa produtividade e nosso potencial para alcançarmos nossos objetivos. 

Mas qual felicidade seria essa? Como eu poderia provocar esse sentimento em mim mesmo? Bom, não estamos falando daquela que os filósofos tentam definir há séculos. Referimo-nos à sensação de bem-estar ou, poderíamos dizer, sobre a alegria. Sentimento esse que pode ser alcançado pela prática de algumas atividades. 

Complexos sistemas estão relacionados ao sentimento de alegria, uma das substâncias que podemos destacar é o hormônio chamado Endorfina, cuja produção é estimulada principalmente através de exercícios físicos

Kelly, 29 anos, moradora do bairro de Itaquera em São Paulo, auxiliar administrativa e ciclista na horas vagas, conta que a bicicleta foi a principal ferramenta que lhe auxiliou a enfrentar as situações difíceis da sua vida. Aos 23, após dar à luz a sua filha, que atualmente tem cinco anos, obteve depressão pós-parto. Apesar do terapeuta indicar remédios para sua melhora, Kelly relata que foi após suas atividades com a bicicleta que conseguiu recuperar-se. Além disso, ela conta que, nessa época, trabalhava em uma loja de conveniência durante a madrugada e, após iniciar as pedaladas, conseguia manter-se mais atenta e disposta para desempenhar suas funções.

Kelly praticando ciclismo, atividade que a deixa feliz. Imagem: Reprodução.

Kelly praticando ciclismo, atividade que a deixa feliz. Imagem: Reprodução.

Kelly, atualmente, faz cicloviagens para Ilha Bela, Campos do Jordão e Aparecida do Norte, além de ter sido chamada para participar de uma competição há menos de um mês. Segundo ela, hoje sente-se mais disposta tanto em sua casa para dar atenção à filha como no trabalho. “Eu pedalo porque gosto muito. Quando estou na bike outra Kelly surge. Me encontro, tenho paz, vou até meu limite. A bicicleta me levou em lugares que nunca pensei ir. Conheci paisagens incríveis que me fazem querer ir mais além.  Até onde vou eu não sei, mas sigo em frente fazendo o que gosto”, afirma.

Ainda existem neurotransmissores, pequenas moléculas responsáveis pela comunicação das células no Sistema Nervoso, diretamente ligadas às sensações de satisfação e alegria. As principais são a Dopamina e a Serotonina, ambas também podem ser estimuladas a partir de algumas atividades. Entre elas estão: escutar suas músicas preferidas, meditar, conversar com amigos, dividir as tarefas em partes menores, entre outras. 

O Benefício da Felicidade explica o porquê empresas de software de vanguarda disponibilizam mesas de pebolim no lounge, tem salão de massagem e porque os funcionários do Google são encorajados a levar o cachorro para o trabalho. Empresas inteligentes cultivam esses tipos de ambientes de trabalho porque, cada vez que os colaboradores vivenciam uma pequena descarga de alegria, eles se predispõem à criatividade e à inovação.

Andreia Bertoleti, 21 anos e estudante do segundo ano de medicina na USP, levou três anos para atingir a aprovação. Segundo ela, nos dois primeiros anos ela praticamente só estudava,  “Nesse ano eu não tinha tempo para nada além de estudar, então foi um ano bem estressante porque não tinha estímulos prazerosos, apenas uma cobrança constante e mil tarefas para cumprir”. 

Já no terceiro e último ano de cursinho, apesar de, novamente, ter iniciado com a rotina tão pesada quanto antes, conseguiu perceber que esse não era o caminho. Andreia, desde então, começou a abrir-se ao “mundo externo”. Começou a namorar, passar mais finais de semana com os amigos e com o namorado se divertindo. Além disso, iniciou as práticas de meditação e intensificou uma das atividades que já conservava durante os estudos, o hábito de escutar músicas. A estudante destacou que sua playlist era bem diversa, partia de clássicos até funk e pop. Suas tarefas diárias, antes gigantescas, diminuíram. Agora mais “checks” eram feitos em suas planilhas de organização de tempo.  “A gente não pode parar a vida pra tentar alcançar algo, mas sim colocar esse objetivo como parte da nossa vida e levar tudo junto. É muito importante fazer o que gosta, ter estímulos positivos e coisas que nos movem. É mais fácil lembrar das nossas motivações quando estamos em contato com elas, ao invés de nos isolarmos da vida.”, diz Andreia.

Andreia ouvindo música enquanto estuda, estimulando a sensação de prazer. Imagem: Reprodução

Andreia ouvindo música enquanto estuda, estimulando a sensação de prazer. Imagem: Reprodução.

Assim como Copérnico retirou a Terra do centro para inserir o Sol, esse modo de ação retira o futuro do foco para inserir o presente e nossa condição.

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