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História, cultura e arte do teatro
Em Cena
09 set 2020 | Por Natane Cavalcante (natanecp13@usp.br)

O que seria da vida sem a arte? Eu me pergunto, será que valeria a pena? Viver em um mundo destituído de todas as maneiras mais fascinantes e necessárias de expressão. O ser humano precisa da arte, porque ele é feito de arte. Nós inspiramos e expiramos o mundo, e através da arte colocamos para fora o mais profundo dos sentimentos. Ouso dizer que sem ela seríamos incompletos.

Das mais diversas maneiras de se fazer arte, venho falar do teatro. Por mais que gostaria de trazer cada minuciosidade dessa cultura, não caberia tudo aqui. Diante disso, vamos dar um breve salto em sua história e voltar no tempo.

Quando o assunto é teatro, se tornou comum associar sua origem à Grécia Antiga. No entanto, as manifestações teatrais estavam presentes na humanidade em períodos bem anteriores aos gregos. Seu surgimento está relacionado com as sociedades primitivas do intitulado período pré-histórico, no qual se utilizava a imitação como uma das maneiras de se comunicar. Esses movimentos simulavam os animais e eram usados para encenar como havia sido as caçadas, transmitindo assim o ocorrido aos demais. Esses povos também possuíam danças cerimoniais destinadas aos deuses da caça e da colheita. Assim, a origem do teatro tem uma natureza ritualística, e ele é considerado uma das expressões artísticas mais antigas da humanidade.

Mas, ao contrário do pensamento largamente disseminado sobre as origens do teatro no território grego, ele já se manifestava em diversas outras culturas espalhadas pelo globo. Antes mesmo de se desenvolver na Grécia já se fazia presente entre as civilizações egípcias. No Egito, o teatro surgiu aproximadamente em 3000 a.C., e suas representações eram de origem religiosa. Nelas se enalteciam suas divindades, como Osíris, Ísis e Hórus. A peça mais antiga que se conhece é de origem egípcia na qual se encena a história do deus Osíris, sendo  um drama mitológico que era apresentado anualmente. Através do Egito, o teatro foi transportado para o solo grego, onde teve seu desenvolvimento impulsionado.

Foi por volta do século V a.C. que o teatro chegou na Grécia antiga, e sua primeira característica foram as festas dionisíacas, realizadas em homenagem ao deus Dionísio, que é a divindade mitológica referente ao vinho, à fertilidade e às festividades. Nessas festas as pessoas bebiam, dançavam e atuavam, o que era considerado um ritual sagrado para celebrar a chegada da primavera. Sua cerimônia era composta de procissões, recitais e concursos teatrais que duravam dias consecutivos. As festas também contribuíam para conciliar os aspectos políticos da pólis, e ajudavam a atenuar os conflitos.

Ao contrário do que se imagina, o teatro grego nesse período não possuía atores, as histórias eram narradas por um coro através de canções e danças. O ofício de ator surgiu quando um dos participantes da cerimônia vestiu uma máscara humana e disse: “Eu sou Dionísio!”.  Assim, passou-se a interpretar um deus, o que antes não acontecia. Este participante se chamava Téspis, e ele é considerado o primeiro ator da história do teatro ocidental.

As apresentações eram realizadas ao ar livre, em construções erguidas sobre as encostas montanhosas, chamadas de teatro arena. Nelas era possível que todo o público tivesse uma ampla visão das cenas apresentadas, e seu formato de meia-lua facilitava a acústica.

Teatro de Dionísio, Atenas. [Foto: Marcelo B./TripAdvisor]

Teatro de Dionísio, Atenas. [Foto: Marcelo B./TripAdvisor]

Na Grécia surgiram dois grandes gêneros de teatro, a tragédia e comédia. Nas peças trágicas se encenavam as histórias ligadas ao destino, e elas possuíam algumas características em comum, como a tensão, o medo e um final trágico. Esse gênero teatral despertava no espectador sentimentos como temor e piedade, e os levava à “catarse”, que segundo Aristóteles se manifestava no público no decorrer do espetáculo, e gerava um efeito de purificação dos sentimentos. Já a comédia grega tinha o intuito de provocar o riso e o divertimento, e representava de forma satírica as questões da sociedade, baseando sua crítica através do ridículo e do exagero.

As máscaras da tragédia e da comédia se tornaram o símbolo do teatro e das artes cênicas. Elas eram um objeto muito utilizado, pois com elas era possível conferir ao ator traços expressivos que auxiliavam o público a identificar as intenções do personagem. Elas também possuíam uma espécie de cone embutido, que permitia que a voz tivesse uma ampla propagação.

Máscaras gregas. [Imagem: Reprodução/ Slide Player]

Máscaras gregas. [Imagem: Reprodução/ Slide Player]

Entretanto, é importante ressaltar que o uso das máscaras se estabeleceu também por conta da exclusão das mulheres. Na pólis elas não eram consideradas cidadãs, já que não possuíam direitos políticos, portanto, eram proibidas de atuar e tinham seu papel restrito aos afazeres domésticos e a procriação. Sendo assim, as máscaras serviam para representar personagens de ambos os sexos.

O teatro na Grécia foi muito relevante para o desenvolvimento da cultura grega, e teve uma vasta repercussão em todo o ocidente, influenciando e inspirando outros territórios.

 

Teatro Oriental

No outro lado do mundo, o teatro oriental surgiu aproximadamente em 2000 a.C, e era constituído de cerimônias religiosas. Na China, essa manifestação artística foi estabelecida durante a dinastia Hsia, mas além de celebrações de cunho religioso, também eram incluídos palhaços e acrobatas. Uma das vertentes teatrais mais estimadas é o teatro de sombras, que consiste na manipulação de marionetes entre uma luz e uma tela.

Representação do Teatro de Sombras. [Foto: Wang Gang/Xinhua]

Representação do Teatro de Sombras. [Foto: Wang Gang/Xinhua]

Já na Índia, acredita-se que o teatro tenha surgido com o deus Brama, e baseava-se nas histórias tiradas da épica hindu. Para os indianos, o palco é um lugar sagrado escolhido pelos deuses. A expressão artística teatral na Índia é muito ligada à dança, com destaque para o teatro Kathakali, conhecido como uma dança teatral. Uma característica muito essencial dessa vertente é a maquiagem do “ator-sacerdote”, que contém grande expressividade, e acentua com precisão suas feições. O teatro indiano, assim como o chinês, possui diversas riquezas e mistérios acerca da sua cultura, que vão muito além das informações citadas aqui. 

 

Teatro Brasileiro

No Brasil, já haviam manifestações teatrais através dos povos indígenas. Contudo, com a chegada dos jesuítas essa expressão artística foi reprimida e adaptada aos interesses do colonizador. O teatro passou a ser um instrumento pedagógico de educação religiosa com a finalidade de catequizar os índios. As peças eram escritas pelos jesuítas e apresentavam caráter religioso, didático e moralizante.

Com a vinda da família real, D. João IV assinou o decreto de 28 de maio de 1810. Ele tinha por finalidade a construção de teatros “apropriados” para o lazer da nobreza, cujas peças encenadas vinham da Europa, portanto não retratavam a cultura brasileira.

O teatro teve uma guinada nacionalista com o surgimento do romantismo. Em seguida, ele passou a desfrutar da experiência realista, e dar enfoque aos problemas sociais da época.

Em 1922 aconteceu a Semana de Arte Moderna, e diferente das outras expressões artísticas, o teatro não obteve nenhuma reforma. Foi só em 1943, com a estreia de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, que se iniciou o teatro moderno no Brasil.

Theatro Municipal de São Paulo [Imagem: Divulgação/Complexo Theatro Municipal]

Theatro Municipal de São Paulo [Imagem: Divulgação/Complexo Theatro Municipal]

Já em 1960, Augusto Boal criou a metodologia do Teatro do Oprimido (TO), que tem por objetivo trabalhar o lado artístico, social e político do público, visando estimular uma transformação social. Em 1964, com a implantação da ditadura militar, as expressões artísticas foram reprimidas através da censura. Mas, apesar de toda a repressão, o teatro teve um papel essencial na resistência cultural, e deu cada vez mais enfoque aos assuntos políticos e sociais. Nesse período surgiram diversos grupos engajados na luta contra a ditadura, entre eles o Teatro Arena e o Teatro Oficina.

Na década de 80, com a abertura política, o teatro pôde voltar a inspirar a liberdade de expressão sem as algemas da censura. Contudo, ele não se recuperou de imediato, e reuniu diversos grupos teatrais da época que visavam os mesmos objetivos. Essa organização coletiva ficou conhecida como teatro de grupo.

A história do teatro no Brasil vai muito além desta breve condensação. Hoje ele é exibido nas suas mais diversas vertentes para todo o tipo de público e finalidade. O teatro acompanhou de perto o desenvolvimento da humanidade, e passou e ainda passa por muitos altos e baixos. Ele enfrenta a cada período da sua história uma dificuldade e experimenta diferentes formas de se inserir na sociedade.

 

O teatro e a sociedade

Toda manifestação artística exerce uma função social que impulsiona a humanidade a refletir, questionar e mudar. O teatro faz isso por meio das suas múltiplas vertentes que se entrelaça com cada ser humano a sua maneira. Através da arte a sociedade é estimulada, tanto a exercer um olhar crítico e curioso, quanto a estreitar as relações coletivas. Segundo Matheus Cosmo, mestre em Artes Cênicas pela USP, “a arte deve ser pensada como um trabalho coletivo de construção de conhecimento, ela precisa ser vista como forma de vida, não como fuga do real, muito menos como reprodução imediata da realidade cotidiana”. 

O teatro também estimula o desenvolvimento de inúmeras habilidades, e pode atuar como uma ferramenta educacional. A linguagem teatral para crianças e jovens traz diversos benefícios para o seu desenvolvimento social e pessoal. Além de promover o trabalho em equipe e o convívio com as diferenças, ele estimula a concentração, a consciência corporal, a criatividade entre outros. Assim como trabalha o lado emocional, e ajuda a desenvolver confiança, autoconhecimento e autoestima. E por meio de uma aprendizagem mais lúdica, ele contribui para incutir uma consciência cultural. 

Contudo, o teatro enfrenta muitos obstáculos para se inserir no hábito cultural da sociedade. Existem diversas respostas para isso, como a mobilidade, o custo financeiro, os costumes, a desvalorização, a indústria cultural, entre outros. Dentre esses fatores está a falta de incentivo, que vem marginalizando cada vez mais essa expressão artística.

As políticas públicas de incentivo à cultura não possuem uma distribuição homogênea dos recursos, e isso faz com que ela fique concentrada, e por consequência gera uma grande distorção entre as regiões. O acesso ao teatro ainda é muito restrito para grande parte da população. Segundo dados de 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 23,4% dos municípios brasileiros possuem teatros ou salas de espetáculos. Um estudo realizado pelo Sesc e pela Fundação Perseu Abramo apontou que seis a cada dez brasileiros nunca assistiram a uma peça teatral. O estudo ouviu 2,4 mil entrevistados em 25 estados.  

“A dificuldade de penetração do teatro na sociedade não é um mero acaso. Mas é um programa de governo, historicamente estruturado, minuciosamente ativado, frente ao qual atualmente os artistas nacionais não possuem relevância necessária sequer a ponto de possuir um Ministério a chamar de seu”, afirma Matheus Cosmo.

A pesquisa “Viver em São Paulo: Cultura”, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência, mostrou que apenas 19% dos paulistanos frequentaram o teatro nos últimos 12 meses. Em sua grande maioria eram da classe alta, evidenciando as discrepâncias sociais.

Vale lembrar que o acesso à cultura é um direito fundamental do cidadão, previsto na Constituição Federal de 1988 no Art. 215: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”.

No entanto, quando posto na prática esse direito é levado a segundo plano, e as desigualdades ao acesso à cultura são gritantes. A valorização da cultura e o incentivo ao hábito cultural não são exercidos como deveriam, e o teatro, assim como todas as formas de manifestação artístico-cultural, é desvalorizado e prejudicado.Isso também acontece com a população, que tem seu acesso restrito e negligenciado.

Acerca disso, Matheus Cosmo ressalta: “A desvalorização do teatro não deve ser pensada como um fenômeno isolado, mas vista como parte de um processo de desmanche no qual as artes, a cultura e todos os âmbitos da área de Humanidades vêm perdendo lugar”.

A desvalorização da classe artística, junto com a falta de incentivo e o preconceito semeado tanto pelo Estado quanto por segmentos da sociedade também estão presentes. “Os artistas sofrem com toda essa desvalorização. Com a falta de auxílio para fazer arte nas escolas, e o mesmo vale para as produções amadoras de artistas independentes que tentam realizar seus sonhos”, comenta Daniel Belizário, ator e diretor de teatro. 

Contudo, os artistas resistem e lutam por respeito e reconhecimento em um cenário onde a arte é constantemente sufocada. “A grande falta de informação e divulgação das peças teatrais prejudica muito nosso trabalho. Se o público não vê, logo sua vontade de ir prestigiar não é fomentada”, declara Daniel “Mas apesar de tudo, eu acredito no teatro e tenho esperança, isso nunca me falta. Fazer arte é isso, lutar todos os dias por algo melhor, e todos os dias estou lutando”.

Ator Daniel Belizário. [Imagem: Divulgação/moaphotos&videos]

Ator Daniel Belizário. [Imagem: Divulgação/moaphotos&videos]

“Quando entramos no teatro como público, somos uma pessoa. Quando saímos após as cortinas estarem fechadas, somos outra. Acabamos entrando nessa magia que só o teatro tem, e ocorre uma transformação, na qual aquilo que eu era, eu jamais serei novamente. O teatro assim como a humanidade, está sempre em constante mutação”, discorre Daniel. 

O teatro é uma expressão artística riquíssima, que merece ser reconhecida e incentivada, e sua história e contribuição dizem isso por si só. Que sua importância venha ser compreendida e disseminada.

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