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Curadoria: um espaço de exercício de poder
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29 set 2019 | Por Letícia Flávia (leticiaflavia@usp.br)

Exposições de arte em museus são inúmeras e diversas. Apesar disso, todas possuem algo em comum: as obras e seus artistas, em um ambiente onde tudo é pensado. 

Ao visitar uma exposição, você já se questionou como ela é feita? Quais são os critérios para a seleção de artistas e obras? Quem está por trás da montagem? Nesta reportagem, falaremos sobre o processo de curadoria, abordando o que é, quem a integra, e o fato de que ela é, antes de tudo, um lugar de exercício de poder. 

Desconhecida por muitos, a curadoria refere-se ao processo de formação e produção da exposição artística. Segundo Hélio Menezes, curador, antropólogo e pesquisador, um dos primeiros passos para fazer uma exposição é pensá-la conceitualmente. Assim, é necessário refletir sobre o tema que será abordado, bem como sobre o enfoque geral da narrativa a ser trazida.

Em seguida, é realizada a pesquisa de acervo, isto é, a busca de obras e artistas para integrar a exposição, de acordo com o conceito previamente definido. Dessa forma, cabe ao curador se deslocar: ir às galerias, ver publicações e catálogos de outras exposições e entrar em contato com artistas. É importante que o curador vá aos ateliês, a fim de ouvir, direto da fonte, como foi a elaboração e o processo criativo da produção, bem como o conceito e contexto das obras. 

É necessário ressaltar, de acordo com Hélio, que não há uma ordem específica no processo curatorial. O conceito e a pesquisa podem tanto ser trabalhados simultaneamente, quanto não. Isso depende da dinâmica do curador. Contudo, para fins didáticos, escolhemos dividir o processo em etapas.   

Depois da pesquisa de acervo, há a organização das obras no espaço. Neste momento, a disposição delas é pensada de maneira a construir narrativas. Assim, as obras selecionadas dialogam umas com as outras, seja reforçando o tema de uma, contradizendo a visão de outra ou destacando as impressões de cor, forma ou conteúdo. Tudo é pensado. Dessa forma, percebe-se que o curador ressignifica a série de obras que serão expostas: elas deixam de ser meros objetos espalhados pelo ambiente, e passam a formar uma narrativa que promoverá o diálogo de sensações, ideias e experiências ao público.

Sabendo o papel do curador no processo de montagem de exposições, podemos questionar, agora, quais são os critérios de seleção de obras e artistas que entram no museu. Ao visitar exposições, você já reparou quantas obras são feitas por artistas mulheres? Quantos daqueles artistas presentes são negros? Em quantas obras está presente a figura negra? Ela assume um papel de subserviência ou empoderamento? E a figura feminina? 

Obra das Guerrilla Girls adaptada para a exposição do grupo no MASP, em 2017. [Imagem: Guerrilla Girls]

Para iniciar a discussão, partimos da obra do Guerrilla Girls, coletivo de artistas feministas que refletem sobre o tradicional exercício da curadoria no Brasil e no mundo: predominantemente elitista, masculina e branca. A entrada em espaços de prestígio de artistas mulheres e negros, quando comparados aos  artistas homens e brancos, é discrepante. Uma explicação possível é que os segundos, dada uma combinação de fatores sociais, geralmente já têm carreiras melhor consolidadas ou mais contatos no meio curatorial. Assim, percebemos que existe um critério comum na curadoria, que, segundo Hélio Menezes, “não é explícito, mas é óbvio.” Este critério mantém uma narrativa hegemônica, hierarquizante e historicamente consolidada, que privilegia o ponto de vista daqueles que sempre estiveram socialmente no poder.  

“A curadoria de artes é um lugar muito fechado: muito elitista, muito masculino, muito rico, muito branco, muito sudestino”, afirma Hélio. “A curadoria é um lugar de exercício de poder”. Afinal, há a disputa de narrativas por meio da arte. A escolha de determinada obra  para integrar um ambiente expositivo consagrado confere visibilidade a ela, ao mesmo tempo em que invisibiliza outras obras e artistas que poderiam ocupar aquele espaço. O fato de haver exposições pouco representativas diz, portanto, muito sobre quem está por trás delas.

Obra das Guerrilla Girls. Tradução: “A definição de hipócrita pelas Guerrilla Girls. Um colecionador de arte que compra arte branca masculina em prol de causas liberais, mas nunca compra arte de mulheres ou de artistas negros.” [Imagem: Guerrilla Girls]

De acordo com Hélio, hoje podemos ver mudanças no contexto da curadoria, como uma resposta à forte pressão social e artística por produções novas. Temas que não eram abordados estão sendo colocados em pauta, como o feminismo, a sexualidade e a negritude, e a busca por representatividade se torna cada vez mais evidente nos museus. Vemos isso com o sucesso de exposições como Costuras da Memória, de Rosana Paulino, a primeira artista mulher negra a ter uma exposição individual em uma instituição de arte tão antiga quanto a Pinacoteca – fundada em 1905. Outros exemplos que explicitam essa mudança são o sucesso da exposição Histórias Afro-Atlânticas, e o tema do MASP para 2019 – Histórias de mulheres, Histórias feministas.  

Exposição Histórias Afro-Atlânticas. [Créditos: Paulo Freitas]

A curadoria ainda é um meio fechado. Apesar disso, ela lida cada dia mais com a pressão da sociedade por pluralidade nos museus: novas estéticas, novos nomes e novas narrativas para disputar contra as narrativas hegemônicas presentes. Isso leva à transformação gradual do exercício de poder da curadoria, que passa a se alinhar às demandas artísticas e sociais e, portanto, se torna cada vez mais representativa.

Exposição Rosana Paulino: A costura da memória. [Créditos: Andrei Reina]

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