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Desafiando papéis de gênero
CINÉFILOS
31 dez 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Luiza Magalhães
abmluiza@gmail.com

Os filmes são reflexos da cultura em que estão inseridos e costumam influenciar significativamente o modo das pessoas enxergarem o mundo. Por vivermos em uma sociedade que estabelece papeis definidos para cada gênero, o cinema, de um modo geral, contribui com essa convenção reforçando estereótipos. Filmes românticos, por exemplo, são voltados para mulheres, enquanto filmes de ação são considerados masculinos. Mas não é só isso. O comportamento dos personagens e o enredo têm grande influência também. Desde pequenos assistimos filmes em que é norma a família “tradicional”, em que as mulheres são submissas e os homens são os chefes da casa, as mulheres cozinham e os homens jogam futebol. Isso aos poucos vai ajudando a formar uma imagem da sociedade que não é tão simples de ser mudada. No entanto, alguns filmes desafiam a regra e tratam justamente dessa mudança.  Ao contar histórias de pessoas que sofrem por estarem presas às limitações impostas a seu gênero, eles colaboram com a desconstrução dos rótulos e trazem importantes reflexões ao público acerca do tema.

O longa Billy Elliot (2000) se passa na Inglaterra durante a greve das minas de carvão nos anos 80. Billy, interpretado por Jamie Bell, é um menino de 11 anos, filho de um mineiro, que treina boxe mas não se dá muito bem com o esporte. Ao participar de uma aula de ballet com as meninas, seu talento para a dança é percebido por ele e pela professora, que o convida a se juntar a elas nas próximas aulas. A partir de então, ele desiste do boxe e passa a praticar ballet todos os dias, mas é repreendido fortemente quando seu pai e seu irmão descobrem. Apesar de alguns risinhos direcionados a ele de vez em quando, as meninas do grupo não demonstram problemas com a presença do menino; afinal, na época, mesmo que em menor número, já existiam dançarinos homens, inclusive alguns famosos. O maior preconceito que Billy sofre vem de sua própria família. Eles não aceitam que o menino faça uma atividade “de menina” e tentam a todo custo proibi-lo. Mas sua paixão pela dança e o apoio da professora, que o incentiva a fazer um teste para uma escola de dança em Londres, o motivam a continuar. Somente após vê-lo dançando o pai começa a mudar de opinião, e ele acaba deixando que o filho tente entrar na escola de dança, motivado pela possibilidade de uma vida melhor longe das minas de carvão.

Em Mulan (1998), a situação toma proporções maiores. A animação da Disney, inspirada na lenda chinesa de Hua Mulan, conta a história de uma jovem que se disfarça de homem para lutar na guerra contra os hunos. Logo no início do filme observamos a dificuldade de Mulan em se adequar ao que era esperado de uma mulher na época da China Imperial. A única maneira de uma moça trazer honra para sua família era se casando e tendo filhos. Portanto, Mulan é obrigada a se preparar para encontrar um marido, mas acaba causando uma má impressão na casamenteira por não se adequar ao padrão. Quando o imperador chinês convoca um homem de cada família para combater os hunos, que haviam invadido o império, Mulan resolve ir no lugar de seu pai por ele já estar muito velho para lutar. Ela então corta o cabelo, pega a armadura e a espada do pai e foge para se apresentar ao exército. Se descoberta, ela poderia ser punida com a morte. Entretanto, quando sua identidade é revelada, o capitão a perdoa por ela ter salvado sua vida. O filme aborda as expectativas de como um homem ou uma mulher devem ser, e Mulan, apesar de algumas dificuldades para se adaptar no exército, consegue superar todos os desafios que surgem e se tornar uma ótima guerreira, inclusive salvando a China.

Outro filme em que uma mulher se passa por homem é Shakespeare Apaixonado (1998). O filme foi vencedor de sete Oscars, incluindo o de Melhor Filme e Melhor Atriz para a interpretação de Gwyneth Paltrow. Nele, a jovem Viola de Lesseps se veste com roupas masculinas e faz um teste para atuar em uma peça de Shakespeare. No século XVI, mulheres ainda não podiam participar do teatro – todos os personagens, inclusive femininos, eram representados por homens. Após ela obter o papel de Romeu, Shakespeare descobre que o “ator” era na verdade a mulher por quem ele tinha se apaixonado. Eles mantêm o segredo e continuam ensaiando a peça, porém, quando a identidade de Viola é exposta, o teatro é fechado. Por fim, o grupo consegue outro lugar para apresentar a peça, com Shakespeare no papel de Romeu, mas o ator que interpreta Julieta desiste e Viola entra em seu lugar, chocando todos. Ela consegue escapar sem ser punida, pois a Rainha, que estava presente, o permite. Mesmo assim, ela tem que ir embora para a colônia junto ao homem com quem fora obrigada a se casar, e Shakespeare começa a escrever uma nova peça inspirado por ela. Essa peça, Noite de Reis, foi a inspiração para outro filme: em Ela é o Cara (2006), a protagonista Viola Hastings (Amanda Bynes) se passa por seu irmão para jogar futebol em seu lugar após o time feminino de sua escola ter sido cortado.

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O filme O Sorriso de Mona Lisa (2003), estrelado por Julia Roberts, Kirsten Dunst e Julia Stiles, aborda as limitações trazidas pelos papeis de gênero de um jeito diferente. Na história, que se passa nos anos 50,vemos personagens que se conformam com a vida que a sociedade espera que elas tenham. A maioria das alunas da Wellesley College, uma faculdade feminina conservadora, têm como única meta se casarem logo e se tornarem boas esposas para seus maridos. Com a chegada da professora de história da arte Katherine Watson, que tem um pensamento bem mais liberal, as coisas começam a mudar. Ela tenta abrir a mente das garotas tanto em relação à arte moderna quanto às suas perspectivas de vida e, apesar de no início as alunas não aceitarem e debocharem de seu método, ao longo do filme elas começam a ser influenciadas por seu pensamento. O maior impacto causado foi em Betty Warren, a mais conservadora entre as alunas. Betty se vangloria por já ter se casado e está sempre criticando Katherine por ela encorajá-las a seguir uma carreira ao invés de se tornarem donas de casa. Porém, após descobrir que seu marido tinha um caso com outra mulher, ela se divorcia, contrariando seus pais, e diz que está considerando estudar direito. No fim do filme, ela escreve no jornal da faculdade agradecendo a professora por fazê-las enxergar o mundo com novos olhos.

Grande parte dos filmes em que alguém faz alguma atividade “proibida” para seu gênero tem algo em comum: a pessoa passa a ser aceita quando descobrem que ela tem um talento excepcional pra tal atividade. Isso é algo que poderia ser mais explorado, pois nos faz questionar: e se Billy Elliot não fosse bom no ballet, sua paixão pela dança seria menos válida? Ainda há um longo caminho a ser percorrido, porém é indiscutível a importância desses filmes: eles geram reflexões sobre assuntos como preconceito e aceitação, além de poderem confortar pessoas que não se adequam aos papeis impostos e encorajá-las a ir além dos limites de seu gênero.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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