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A disputa do espaço a partir da arquitetura
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01 fev 2021 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br)

As relações de poder se evidenciam pela ocupação do espaço. Uma abordagem contemplativa da arquitetura não atenta para observar as relações simbólicas intrínsecas presentes em um único projeto. Assim como não se deve conceber os projetos arquitetônicos fora do contexto da cidade, pois estão contidos em um conjunto de uso social e de vivência urbana.

Os exemplos englobam a arquitetura neoclássica, o Minha Casa Minha Vida, o pós-modernismo de Medellín e a Casa Bandeirante na Faria Lima.

 

A fissura pelo neoclássico

Há uma certa fixação pela arquitetura clássica — referente aos templos da Grécia Antiga e às grandes construções do Império Romano — proveniente de um desejo de demonstração de poder. A utilização de colunas gregas na arquitetura atual, por exemplo, transmite uma mensagem clara para a professora de arquitetura da Belas Artes e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Aline Nassaralla. Ela comenta sobre os prédios existentes na Faria Lima, em que as empresas do novo centro financeiro necessitam passar uma mensagem de solidez e de poder para os seus clientes, e como isso está associado à adoção da linguagem clássica nos projetos e um “apelo contemplativo” do espaço.

O Museu do Ipiranga é uma construção neoclássica, o Theatro Municipal é eclético e o Mercado Municipal tem uma série de elementos clássicos, destaca Aline. A professora complementa que o Teatro Municipal de São Paulo é uma cópia do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que por sua vez é cópia da Ópera de Paris: “Isso vem da necessidade de mostrar o poder econômico e social.” 

 

Comparacao entre Theatro Municipal do Rio de Janeiro e Ópera de Paris: ocupação do espaço lado a lado

Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a Ópera de Paris, respectivamente [Imagem: Reprodução/Creative Commons]


O pesquisador Raphael Grazziano, do grupo de Pensamento Crítico e Cidade Contemporânea (PC3) da FAU-USP, diz que o neoclassicismo está, em geral, vinculado a determinadas concepções de espaço, encontrado em condomínios isolados da cidade, com pequenos clubes e outros tipos de espaço privado. Além disso, o estilo parece ignorar a mediação entre técnica, cultura e função: “Essa questão do classicismo revela um ‘fundo falso’ de uma cultura que nós não tivemos e é utilizada de forma decorativa, vinculada a uma construção histórica”. 

O arquiteto comenta sobre estudos que mostram uma certa “preferência psicológica” pela cultura clássica na pintura em detrimento da pintura moderna. Para ele, esse aspecto tem relação com uma suposta facilidade de leitura dessa arte que, na verdade, não é lida corretamente. 

No entanto, na visão do pesquisador, essa tendência já esteve mais em alta na cidade de São Paulo do que atualmente: “A demolição da Daslu, por exemplo, não gerou nenhum tipo de comoção”. Ele cita o recente destaque dado aos espaços gourmet, além de gostos mais americanizados e europeizados de edifícios de vidro — planejados para uma lógica de clima temperado, mas aplicados no Brasil, de climas predominantemente tropicais. Esses edifícios constituem estilos que não estão de acordo com a realidade brasileira. 

 

Projeto “Make Federal Buildings Beautiful Again’’

Um recente projeto estadunidense previa que todas as novas construções públicas fossem concebidas em estilo clássico. A escolha do título do esboço, levado à corte em fevereiro de 2020, faz uma clara menção à frase da campanha eleitoral de Donald Trump em 2016 — Make America Great Again  — Make America Great Again ou Fazer a América Grande Novamente. Apesar de não ter sido aprovada, a medida apresentou considerável aceitação de políticos republicanos e democratas.

O esboço do projeto conflita com o Guiding Principles for Federal Architecture e seria traduzido para: “O estilo arquitetônico clássico deve ser o estilo preferido e padrão para edifícios federais novos e atualizados.” O ganhador do Pulitzer e crítico arquitetônico Paul Goldberger pontuou que a mudança ia contra os princípios de uma democracia liberal por seu caráter mandatório de um estilo arquitetônico. 

O Guiding, documento escrito em 1962, define que “a arquitetura deve refletir o seu tempo” e que “um estilo oficial deve ser evitado”. Dentre as preocupações determinadas pelo senador Daniel Patrick Moynihan estão a não padronização da arquitetura da cidade. Esse princípio colabora para a construção de uma cidade “mais útil e bela”, na visão do redator do Guiding.

Além de uma associação à frase da campanha eleitoral, o esboço levado à Corte também está de acordo com os ideários conservadores do governo de Trump. Uma das justificativas do documento era a de “restabelecer os princípios nacionais do país”, a partir da imposição de um estilo arquitetônico dominante no século 18 que expressava a glória da democracia ateniense e do Império Romano. Sendo a arquitetura pública vista como um dos maiores pontos de proximidade e diálogo entre um governo e a sua população, padronizar um estilo que glorifica antigos impérios transmite uma mensagem. 

 

 

O “Minha Casa Minha Vida”

O Minha Casa Minha Vida foi um programa de habitação social criado em 2009 durante o governo Lula e teve sua aplicação feita em grande escala, a partir de uma demanda por políticas públicas de moradia. Embora grandioso, não possuía características importantes no que diz respeito a uma política de relação com a cidade. As localizações longínquas das moradias, às vezes chegando às áreas rurais, ficavam afastadas de serviços básicos como hospitais, escolas, serviços e postos de empregos. 

Do próprio ponto de vista arquitetônico, o projeto não propunha uma heterogeneidade do espaço, mas enfatizava uma padronização das relações espaciais: “A lógica de projeto urbano de repetição de unidades é equivocada”, diz Raphael Grazziano, concebidas em uma tipologia produtiva, o que desconsidera seu valor de uso.

A professora Aline pontua a contradição na justificativa escolhida para a localidade das moradias do Minha Casa, Minha Vida: ‘‘O raciocínio era colocar as pessoas de menor poder aquisitivo para morar longe do centro. A desculpa era que o valor da terra era mais barata. Contudo, nota-se uma incongruência nesse discurso, já que preciso dotar aquela área distante de uma infraestrutura de água, luz, mercado, transporte. Então um terreno lá passa a ser tão caro quanto o central. Os que têm mais dinheiro moram na centralidade e as pessoas com menor poder aquisitivo moram nas periferias’’.

 

O exemplo de Medellín

A cidade de Medellín protagoniza uma outra abordagem no que se diz respeito às políticas urbanas. A capital colombiana é estudada por suas reformas urbanas nas últimas décadas e pela ressignificação de seus espaços urbanos públicos. O histórico de Medellín passa pela crise do narcotráfico e pelo estado de guerra da cidade nos anos 1990. No entanto, não se deve centrar a discussão apenas nessa questão, pois o histórico de metropolização e expansão da cidade são marcados pela ausência do Estado em áreas mais precarizadas, com menor qualidade de vida. 

A também pesquisadora do PC3 da FAU-USP, Mariana Martinez Wilderon Chagas, diz que o narcotráfico acentuou esse processo de metropolização e as particularidades do Estado colombiano, radicalizando problemas vividos por diversas cidades latino-americanas que sofreram um intenso processo de expansão. Mariana pontua em sua tese de pesquisa que o caso de Medellín serve como um “laboratório radicalizado”, no qual se estuda possíveis soluções para as questões urbanas.  

Os metrocables constituem um meio de transporte com funcionamento semelhante ao de um teleférico, que liga os bairros mais longínquos da cidade, extremamente segregados, à malha de metrô de alta capacidade, de acordo com Mariana, o que diminuiu o tempo de viagem de parcela significativa da população.

A localização dos metrocables serviram de base diagnóstica para que o governo investisse em mais intervenções urbanas em seus entornos. Elas vêm ocorrendo desde 2003, na gestão de Sergio Fajardo, e um dos destaques da pesquisadora foi a construção dos Parques Biblioteca, notórios na cidade. 

Os projetos são atrativos para a ocupação do espaço público. Além disso, passou-se a ter uma ressignificação cultural desses bairros mais integrados. Eles começaram a atrair públicos de bairros de maior renda e se tornaram pontos turísticos. No entanto, esse processo acarreta questões negativas, como processos de gentrificação nesses bairros, a partir do aumento no valor dos imóveis e expulsão da parcela mais pobre, que antes ocupava aquele espaços.

Dentro de suas funções de requalificação urbana têm-se as inúmeras atividades culturais para os moradores, proporcionando espaços de encontro.

Mariana destaca a atuação de empresas públicas atuantes nessas reformas, e comenta sobre a empresa pública de capital misto chamada EPM, financiadora de diversas intervenções, além de fazer serviços variados como água, luz e esgoto.

 

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Comparação dos parques Pés Descalços e Los Deceos: ocupação do espaço lado a lado

Parque dos Pés Descalços e Parque de los Deceos, projetos anteriores, feitos em parceria com as universidades [Imagens: Reprodução/Tripadvisor]


A linguagem arquitetônica dos projetos de Medellín é extremamente variada. Isso se deve a uma gama de referências de uma geração que viajou o mundo, principalmente nos anos mais duros da ditadura colombiana. Mariana relata que essa geração traz influências pós-modernas que contrastam com a tradição moderna existente no Brasil.

A experimentação de Medellín tenta fugir da abordagem do concreto armado, marcada por grandes vãos e megaestruturas, muito comum no Brasil, e utiliza-se de materiais mais variados. Inclusive, em sua arquitetura moderna, os colombianos já se diferenciavam muito do Brasil, trabalhando mais o tijolo, uma vez que o concreto era um material muito caro. O histórico colonial pouco ligado ao modernismo permite maior flexibilidade, de acordo com as demandas de uso.

Mariana comenta que essa liberdade de experimentação vai além de um aspecto visual. Para a pesquisa de seu doutorado, entrevistou a equipe de Giancarlo Mazzanti, arquiteto responsável pelo Parque del España e pela Biblioteca La Ladera. Embora notórias, também apresentaram problemas construtivos em sua execução, como queda de revestimentos e deterioração da estrutura. 

A linguagem colombiana preza por associações generativas geométricas como as encontradas, por exemplo, no Orquideorama e também nas bibliotecas, quebradas em três blocos. A pesquisadora comenta que essa associação em três partes funciona muito bem dentro de um terreno íngreme como o da topografia colombiana, além de serem característicos das regiões de ocupação informal. Assim, a lógica projetual desses módulos facilita a acoplagem em terrenos complicados — o que faz com que o projeto não pareça incompleto, caso não seja finalizado. Essa preocupação é válida, já que as construções são em sua maioria financiadas por empresas públicas. 

 

Orquideorama: forma de ocupação do espaço que abriga várias plantas

Orquideorama [Imagem: Reprodução/CreativeCommons]

 

A intensidade das disputas pelo espaço e a expressão cultural

A disputa pelo espaço é mediada pelos projetos governamentais e a relação que buscam estabelecer com ele. A professora de estética Aline Nassaralla relembra a história política do Edifício Anchieta. Além de edifício residencial, no andar térreo, onde é atualmente o Bar Riviera, tinha-se antigamente o Bar dos arquitetos. O edifício Anchieta era considerado uma habitação de interesse social, chamada de habitação operária.

 

Edifício Anchieta: prédio de cor clara com várias janelas e pontos de táxi e comércio na fachada, em ocupação do espaço urbano

Edifício Anchieta, localizado na Avenida Paulista [Imagem: Reprodução/Creative Commons]

A professora de arquitetura fala sobre o impacto da existência de um projeto de país. Para ela, o ápice desse pensamento foi a construção de Brasília: “A gente pode fazer críticas a Brasília mas aquilo ali foi desenvolvido por arquitetos, geógrafos, sociólogos, antropólogos. Esses arquitetos tinham como premissa que a habitação é um direito e que devia-se acabar com um problema habitacional existente”. Aline complementa que esse planejamento arquitetônico de país foi interrompido pelo golpe de 1964.  

A estética, combinada com a localização e a ocupação do espaço, contribui para a segregação, segundo a professora. Na Avenida Faria Lima, localizada em São Paulo, o edifício Pátio Victor Malzoni, apelidado de “prédio do Google” — por abrigar escritórios do Google em alguns de seus andares — tem um buraco entre duas torres. Nesse espaço há uma casa bandeirante do século 18, tombada como patrimônio histórico

 

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Edifício Victor Malzoni e Casa Bandeirante [Imagem: Reprodução/Flickr]

O edifício do Google foi feito da forma como foi devido à existência daquela casa. Contudo, há uma disputa entre espaço público e privado em questão, pois a casa tombada e seu gramado, públicos, estão cercados pelo prédio, propriedade privada. Aline fala justamente sobre a cultura do local e a ocupação desse espaço: “O prédio está em plena Faria Lima, as pessoas não vão se sentir à vontade para sentar na grama no meio da Faria Lima porque aqui não há lugar para isso”. Em torno dos espaços é criado um imaginário, no caso da Faria Lima fica subentendido que é um lugar de alto padrão, de trabalho, e de uma suposta “seriedade”, embora isso “não esteja escrito em nenhum papel”, comentou Aline.

O piso térreo do edifício é público e a professora de arquitetura comenta sobre as proporções “agigantadas” nas plantas e decorações. Isso, para ela, provoca um desconforto, tornando o espaço extremamente opressor. Na situação está presente um jogo de mensagens, tanto do prédio quanto da casa tombada. Isso porque, no século 18, a casa bandeirante foi construída com o mesmo intuito que o prédio do Google: o de transmitir poder, ainda que esteticamente elas sejam opostas, com o prédio Pátio Victor Malzoni e sua fachada de vidro contrapondo-se à construção colonial da casa.

Certamente havia outras maneiras de o prédio ser projetado, mas todo o custo em construí-lo dessa forma serve para enfatizar sua imponência na engenharia e na arquitetura. Nesse caso, há uma sobreposição do novo sobre o velho, quase literalmente. O ponto importante levantado por Aline é o de não olhar a arquitetura de forma contemplativa, mas sim combativa. Como no exemplo da Faria Lima, notar que aquele gramado público raramente tem gente.

De acordo com a Constituição Federal, o Estatuto da Cidade é uma lei que estabelece o uso da propriedade urbana em prol do bem coletivo. O Estatuto tem aspectos avançados, mas não foi suficiente para lidar com os problemas da cidade. O arquiteto Raphael Grazziano tem visto recentemente uma busca maior em utilizar a lei de forma mais eficiente, configurando mecanismos urbanísticos que tornem a cidade um ambiente mais heterogêneo.

O último Plano Diretor, de 2014, incentiva as fachadas ativas, com a utilização do andar térreo para o comércio. Esse tipo de dinâmica proporciona uma maior variação de bairros, para que não sejam considerados como monofuncionais. Além disso, ainda quanto às fachadas, há um movimento para aproximá-las da calçada do edifício, das atividades da rua, e colaborar para uma vivacidade da cidade.

Helena Rizzatti, doutora em Geografia pela Unicamp e professora no curso de Arquitetura na Universidade Ribeirão Preto (Unerp), ressalta a existência da disputa do espaço entre forças desiguais. Ela diz, de acordo com uma leitura corporativista proposta por Milton Santos, que o Estado tem a propriedade para interferir no espaço urbano, podendo atender para mais ou para menos as necessidades das corporações. Esse processo resulta em constantes tensionamentos entre a localização da população no espaço urbano e onde há interesses corporativos.

A geógrafa detalha sobre a efervescência cultural presente na periferia — ela diz que se deve considerar não apenas periferia como a região longe do centro da cidade, mas principalmente no que se diz respeito a um menor acesso a serviços formais. Ela aponta a geração de circuitos culturais que ocorrem nas ocupações do centro de São Paulo, como a Nove de Julho e a Mauá. Em um evento promovido pelo LabCidade FAU-USP com as lideranças da Nove de Julho, Carmen e Preta, elas relatam a importância das festas da comunidade no reconhecimento e na autoestima que sentiam em morar nesses lugares.

 

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Carmen Silva e Preta Ferreira no programa ‘Pela CIdade #8’ [Imagem: Reprodução/Youtube]

“As manifestações culturais brasileiras acontecem à despeito dos espaços públicos”. Para Raphael, a lógica cultural brasileira está muito vinculada à ocupação das ruas, como no Carnaval e cotidiano, como no caso da Paulista Aberta. A efervescência da cultura brasileira ocorre apesar da falta de qualquer infraestrutura urbana formal que a impulsione.

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COMENTÁRIOS
Noé
Muito bem escrito o texto e prazeroso de se ler! Parabéns!
02 fev 2021
 
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