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Dolittle: entre narrativas confusas e chances desperdiçadas
CINÉFILOS
19 fev 2020 | Por Maria Eduarda Nogueira (mariaeduardanogueira@usp.br) 

O novo filme das aventuras do extraordinário médico Dr. John Dolittle (Robert Downey Jr.) poderia ser promissor. Um ator de peso, técnicas avançadas de CGI (imagens geradas pelo computador) e uma proposta interessante, em um mercado que já não mais estranha animais falantes. Mas não é. Dolittle (2020) é uma produção que não estranharíamos se víssemos passando na sessão da tarde, mas estranhamos quando vemos nas grandes telas.

O longa conta a história do famoso médico capaz de conversar com animais. Mas quem pensa no filme original, estrelado por Ed Murphy em 1998, logo se surpreende. O reboot é baseado na série original de livros infantis criada pelo britânico Hugh Lofting, e, portanto, conta com o aspecto fantasia presente. Ponto promissor, mas que é desperdiçado.

Na trama, que parece se passar em meados dos anos 1900, Dolittle é um médico devastado pela perda de sua companheira Lily (Kasia Smutniak) e que agora se comunica exclusivamente com os animais que vivem em sua grande propriedade. Um dia, duas crianças, Stubbins (Harry Collett) e Lady Rose (Carmel Laniado), aparecem em sua casa. Stubbins vem como um desejo de ser aprendiz do renomado médico e Rose vem a pedido da Rainha (Jessie Buckley), que sofre com uma enfermidade e precisa ser tratada pelo médico dotado. 

A dinâmica infantil poderia servir como aproximação com o público mais jovem, mas, nesse ponto, os animais desempenham um papel mais atrativo. No roteiro, a existência das crianças parece ser apenas uma etapa para cumprimento da jornada do herói, já que Collet e Laniado poderiam facilmente ter sido retirados, sem perdas significativas para a história.

O vilão, Dr. Blair Müdfly (Michael Sheen), que desde o início já sabemos que é o vilão, é também uma caricatura digna de sessão da tarde. A fórmula serve para atrair o público infantil, mas entedia os adultos. Com pequenas alterações no roteiro, a trama poderia seguir um caminho sem explorar o antagonista, que até tenta, mas falha em ser cativante (ou engraçado).

Dolittle e o gorila Chi-Chi, dublado por Rami Malek. [Imagem: Reprodução/Universal Studios]

A dublagem dos personagens, feita por atores como Emma Thompson (que é também a narradora, contribuindo para o tom fantástico da obra), Tom Holland e Rami Malek, é um ponto forte. Mas as outras confusões da narrativa fazem com que a magia se perca. Em suma, é como se estivéssemos vendo um filme tentando achar seu lugar ao sol. E falhando.

As técnicas aprimoradas de CGI permitem que os animais tenham mais expressão. No entanto, a voz dos dubladores continua sendo a forma mais interessante de mostrar a personalidade de cada um. A atuação de Downey Jr. deixa a desejar, já que seu sotaque britânico forçado é difícil de compreender, ultrapassando a barreira do médico exótico acostumado a se comunicar apenas com animais e se tornando apenas balbucios.   

Dolittle peca em explorar a parte mais interessante da história, que é, justamente, a fraternidade que nasce entre o médico exótico e os animais. Falha também nos momentos em que tenta incluir um discurso de preservação ambiental, que mais parece uma lição de moral sem embasamento. Outro ponto desperdiçado. 

Ao invés disso, o enredo investe em uma oposição entre os antagonistas que querem tomar o poder e um médico, acompanhado de seu aprendiz, que salva o dia com a ajuda de animais. Novamente: até legal para ver durante a sessão da tarde, mas definitivamente um filme fora do escopo das grandes telas.

O longa tem data de estreia prevista para 20 de fevereiro no Brasil. Confira o trailer:

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