Home Descobrir Cinema Fantasia: um dos maiores riscos já corridos pela Disney
Fantasia: um dos maiores riscos já corridos pela Disney
CINÉFILOS
11 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior

Arte abstrata, orquestra e terror. Provavelmente essas serão as últimas palavras que virão a sua mente quando falamos de Disney. Esses são, porém, alguns dos elementos que caracterizam um dos filmes mais clássicos dos estúdios: Fantasia. Lançado em 1940, esse é o terceiro longa-metragem da Disney, e estreou depois de A Branca de Neve e os Sete Anões e Pinóquio.

Muitos conhecem o filme através de referências, mas poucos realmente assistiram-no do inicio ao fim. O segmento “Aprendiz de Feiticeiro” mostra o Mickey com o chapéu de feiticeiro dando vida às vassouras e ordenando-as que transportem baldes de água de um poço a outro. Só de lembrar já conseguimos visualizar a cena clássica e alguns podem até ouvir a trilha sonora. Dentre todos os segmentos de Fantasia, esse é o mais parecido com a ideia da Disney que temos atualmente, porém o menos inovador de todos eles.

Todo o longa é composto por segmentos de animações diferentes e sem nenhuma relação entre si. Cada um deles ilustra uma peça de música instrumental em moldes bem distintos do que o estúdio havia feito em seus dois últimos longas e continuou a fazer em seus filmes de maior sucesso posteriormente.

A parceria inusitada

A música é o personagem principal do filme. Ela é a inspiração para as animações e foi para Walt Disney quando ele decidiu criar seu primeiro filme-concerto. Leopold Stokowski era um famoso maestro da época, conhecido até mesmo por quem não tinha interesse em música clássica. Ele foi o responsável por aproximar esse estilo musical do público geral nas décadas de 1910 até 1960.

Fantasia

[Reprodução]

Foi em um jantar entre Stokowski e Disney que surgiu o embrião de Fantasia. Disney disse que estava trabalhando em uma animação inspirada na música “O Aprendiz de Feiticeiro”, composta por Paul Dukas, e Stokowski afirmou que adoraria conduzi-la. Foi dessa conversa que aos poucos a ideia do longa foi surgindo.

A parceria contribuiu muito para o marketing do filme posteriormente. Os cartazes estampavam o nome de Stokowski em letras grandes e atraíram muitas pessoas pelo fato de ser uma figura popular. O regente conduziria a Orquestra Sinfônica da Filadélfia durante todas as 8 peças de música escolhidas.

Fantasia

[Walt Disney]

Fantasound

A maior contribuição que Fantasia trouxe para o cinema foi em termos técnicos de som. Todo o conceito de Fantasia girava em torno da música clássica. Walt Disney e Leopold Stokowski queriam transmitir a sensação ao espectador de estar realmente em um concerto. Foi a partir disso que os engenheiros da Disney começaram a projetar o Fantasound: um novo sistema de som que seria instalado dentro das salas de cinema que iriam reproduzir o filme.

A acústica de um concerto ao vivo faz com que o público ouça os instrumentos vindo de diferentes direções e em diferentes intensidades, dependendo de onde estão localizados. O objetivo do Fantasound era esse: fazer com que o público ouvisse alguns sons mais a direita, outros mais a esquerda, mais ao fundo da sala ou mais a frente dentro da sala de cinema. Esse conceito nos parece familiar pois é exatamente o que faz o sistema surround nos cinemas atualmente.

Fantasia

[Reprodução]

Esse foi um avanço que estava muito além de seu tempo. Em 1940, Fantasia estava sendo exibido da mesma forma que os mais bem produzidos filmes atualmente. A tecnologia e investimentos empregados do desenvolvimento desse sistema foram gigantescos. A distribuidora RKO Radio Pictures, responsável por levar as obras da Disney às salas de cinema, não quis arcar com a instalação desse sistema dos cinemas do país. Os estúdios tiveram que planejar a própria distribuição e contratar uma equipe para a instalar e supervisionar toda a experiência que estava sendo proposta para torná-la possível.

Fantasia

[Reprodução]

Mesmo com os esforços dos estúdios, ainda seria inviável financeiramente levar esse sistema a todos os cinemas em que o filme fosse ser exibido. Apenas 12 salas de cinema nos Estados Unidos foram planejadas e exibiram o filme dessa forma.

Fantasia

[Reprodução]

Os segmentos de música clássica

O filme se inicia mostrando um pouco da orquestra. As sombras de violinos, trompetes e diversos instrumentos são projetadas em diferentes cores. Após breves introduções sobre as músicas e imagens que se seguirão, as animações tomam conta da tela.

Tocata e Fuga em Ré Menor, BWV 565

O primeiro segmento já se inicia da forma mais exótica possível para os estúdios: com arte abstrata. Segundo a própria introdução da animação, aquelas são “imagens que poderiam passar por sua cabeça ao ouvir a composição”. Assim se segue durante seis minutos. Não à toa, esse é provavelmente o segmento menos conhecido de todo o filme, mas com certeza é o mais experimental.

https://www.youtube.com/watch?v=a1z12_Ps-gk

Suíte Quebra Nozes

Até mesmo em uma das composições mais famosas e clássicas da história, a Disney resolveu fugir do óbvio. A história contada pelo balé “O Quebra-Nozes”, de Tchaikovsky, seria a escolha evidente para ser representada por uma animação. Indo contra essa tendência, os estúdios optaram por reproduzir a passagem das quatro estações do ano por meio da personificação de elementos da natureza.

https://www.youtube.com/watch?v=LxBJYSU3RJ8

O Aprendiz de Feiticeiro

A mais memorável cena e música do filme devem crédito ao Mickey. Como mencionado anteriormente, ela é aquilo que esperamos da Disney, mas ainda assim consegue guardar elementos revolucionários. O principal deles está na  aparência do camundongo que conhecemos até hoje.Tudo nasceu com a ideia deste segmento. Por incrível que pareça, a popularidade do Mickey estava em baixa na época, enquanto o Pato Donald ganhava cada vez mais destaque e era adorado pelo público. Como estratégia para reviver o mascote principal da Disney, Walt colocou Mickey como personagem de “O Aprendiz de Feiticeiro” e tornou-o parte de Fantasia.

Para estrear em uma animação um pouco mais complexa para os padrões da época, o visual do personagem precisaria passar por transformações: seriam necessárias maiores expressões faciais. Foi entre 1939 e 1940 que Mickey recebeu olhos com fundo branco mais delimitado, enquanto antes as pupilas se misturavam com a face. Essa foi uma grande mudança em seu desenho como um todo e marca a imagem que temos dele atualmente.

Fantasia

[Walt Disney]

https://www.youtube.com/watch?v=kDutMoLXgYo

Sagração da Primavera

A inovação presente nesse segmento está principalmente nos efeitos especiais. A animação tem como tema a origem da vida na Terra, de acordo com as teorias mais aceitas na época. O desenho passa desde o resfriamento da Terra, mostrando as formas de vida mais primitivas, até a extinção dos dinossauros.

Os efeitos que formaram os padrões de fumaça e a lava que saia dos vulcões foram revolucionários. Além disso, Walt Disney optou por tornar a cena o mais realista possível, com a aparência dos dinossauros a mais próxima da realidade, deixando de lado a humanização que os animais da Disney tipicamente tinham. Esse segmento se apresentava de forma tão educativa que era comum que os professores de ciências mostrassem a animação a seus alunos como forma de exemplificar a matéria dada em sala de aula em escolas de todos os Estados Unidos.

https://www.youtube.com/watch?v=OTXvScoE_Uk

Sinfonia Pastoral

Em conjunto com “O Aprendiz de Feiticeiro”, “Sinfonia Pastoral” é um segmento que tem mais a cara da Disney. Se trata de uma animação que fala de amor e natureza utilizando seres e deuses da mitologia grega. O interessante desta parte é que os cartunistas nunca haviam desenhado seres mitológicos para a Disney antes – como híbridos entre humanos e cavalos, no caso dos centauros – e não sabiam até que ponto os detalhes do corpo deveriam ser mostrados. Neste sentido, havia uma série de instruções sobre o que deveria ser desenhado em planos mais abertos e o que poderia ser mostrado em closes dos personagens.

https://www.youtube.com/watch?v=iqK9I0W5TSY

Dança das Horas

“Dança das Horas” é uma espécie de paródia, em que animais como avestruzes, hipopótamos, elefantes e crocodilos se apresentam como bailarinos e fazem uma mistura entre o belo e o cômico. As imagens desta animação fazem parte do imaginário de muitos quando se pensa na era clássica da Disney, sendo o segundo segmento mais famoso de Fantasia.

Poucas representações do balé haviam sido feitas no campo da animação até o momento. Bailarinos profissionais foram convidados a irem aos estúdios Disney para que os ilustradores pudessem estudar seus movimentos e tornar sua obra o mais realista possível em termos de dança. Cada um dos animais representa um momento do dia: os avestruzes dançam ao amanhecer, os hipopótamos estão presentes ao meio dia, os elefantes caracterizam o fim da tarde e os crocodilos fazem sua aparição ao cair da noite.

https://www.youtube.com/watch?v=tOBp7H8RN4M

Uma noite no Monte Calvo

Se os segmentos de animações anteriores poderiam ser considerados inusitados para a Disney, esse seria inimaginável se considerarmos o público alvo como sendo o infantil. “Uma noite no Monte Calvo” é a animação mais assustadora já produzida pelos estúdios. Ela mostra Chernabog, um demônio que vive em no Monte Calvo, acordando na noite e invocando espíritos e criaturas diabólicas.

Chernabog é considerado um dos maiores vilões da Disney, mesmo não estando inserido em nenhum contexto de batalha entre o bem e o mal ou não tendo realizado nenhuma maldade em si. É a sua grandiosidade, poder e o fato de ser a encarnação do inferno que provocou tanto pavor na maioria das crianças que assistiu ao filme, sendo uma das cenas mais adultas já produzidas pela Disney.

O segmento tem como tema o contraste entre o profano e o sagrado. A cena de Chernabog envolve uma dança satânica, demônios e até mesmo nu frontal feminino de bestas e criaturas do submundo, algo quase impensável nos dias de hoje para o estúdio. Já a segunda parte da cena inicia-se no início da manhã com o som de sinos de igreja, fazendo Chernabog voltar a seu sono. Essa parte tem como trilha sonora “Ave Maria” e mostra um grupo de pessoas em procissão rumo a uma catedral, finalizando a última peça do filme com o nascer do sol.

https://www.youtube.com/watch?v=Hg4cHCf0hds

“Sucesso artístico, fracasso financeiro”

A ideia era tornar a ida ao cinema em um evento. Os espectadores comprariam os ingressos com antecedência e receberiam um programa ao entrar na sala, como acontece em peças de teatro e concertos. Haveriam duas sessões ao dia e seria uma experiência muito diferente do que apenas ir ao cinema ver qualquer outro filme.

Essa experiência foi proporcionada principalmente em cidades grandes, a exemplo de Nova Iorque e Los Angeles, onde o filme ficou em cartaz por um ano com sessões lotadas todos os dias. Já nas cidades menores, o público não via a experiência com entusiasmo, o que tornou a recepção geral do público indiferente ao filme, sendo consequentemente um fracasso de bilheteria, principalmente ao considerar todo o investimento empregado na obra e em sua exibição.

A crítica também ficou dividida na época. Muitos críticos de cinema de grandes veículos perceberam o caráter inovador do filme e escreveram excelentes críticas, enquanto os críticos musicais se mantinham mais conservadores.

Walt colocou toda a sua dedicação nessa obra, sendo uma de suas grandes paixões. Ele esperava que o longa ficasse em cartaz por muitos anos, mas sempre se renovando. Um ou dois segmentos seriam adicionados ao filme de tempos em tempos, para que o público pudesse voltar ao cinema todos os anos e ter uma nova experiência. A arte desses novos segmentos já estava sendo produzida, mas com o fracasso do lançamento, esses planos nunca puderam se concretizar.

Não ver Fantasia se tornar o sucesso que se tornou posteriormente foi uma das maiores frustrações de Walt Disney. O filme foi relançado diversas vezes posteriormente e recebeu o reconhecimento que merece e o carinho do público, que após algumas décadas passou a enxergá-lo como um clássico dos estúdios. 60 anos depois, uma espécie de continuação foi lançada, sob o nome de Fantasia 2000, com novas peças de música e novas animações, homenageando o filme original. Atualmente, Fantasia é visto de uma forma diferente, que sua época de lançamento não foi capaz de  enxergar, sendo considerado uma grande contribuição para o cinema.

por Maria Clara Rossini
mariaclararossini@usp.br

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*