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Fraude Legítima – uma dose de mistério e feminismo
Na Estante
11 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

As primeiras palavras que surgem diante dos olhos ao folhear as páginas iniciais de Fraude Legítima (Seguinte, 2017) são da própria autora, E. Lockhart, numa dedicação à “todos aqueles que aprenderam que bom é sinônimo de pequeno e silencioso”. Extremamente coeso, o livro se desenvolve de forma a contradizer esse conceito, a partir da narrativa de Jule West Williams, a anti-heroína protagonista da história.

Jule é nova iorquina, terminou a escola há alguns anos e está tendo que lidar com o suicídio de sua melhor amiga Immie Sokoloff – herdeira de uma família milionária, que passou os últimos anos fugindo de suas responsabilidades em busca de autoconhecimento e liberdade. Immie se recusava a ser o que seus pais esperavam dela, Jule se recusava a ser quem foi no passado. Numa manhã em Martha’s Vineyard, as duas se reencontram e logo travam uma amizade intensa, que viria a se tornar perigosa e destrutiva.

A história da vida de Jule é contada de forma completamente não tradicional. Assim, a narrativa é montada de trás pra frente – o primeiro capítulo na verdade é o penúltimo. E não só isso: cada capítulo conta com separações simbolizadas por uma barra no topo superior da página, que indica um avanço temporal na história. Ou seja, cada capítulo retrocede cerca de um mês de 2017 para 2016, mas dentro deles a história é contada como do dia 1 ao dia 30. Além disso, o livro conta com algumas digressões e recordações da personagem principal.

Até por essa inversão narrativa, o livro continuamente desmente a si mesmo. O que inicialmente sabemos sobre a morte de Immie, a personalidade de Jule e a amizade das duas sofre inúmeras reviravoltas, o que pode tornar a leitura difícil e demandar atenção constante (e até algumas consultas a capítulos anteriores se tornam necessárias). A escritora busca estar sempre surpreendendo o leitor, e para isso mescla a verdade e a mentira o tempo todo, criando uma atmosfera de suspense. Essa é, talvez, a grande graça do livro – a constante renovação da história e o impecável trabalho de ocultar as informações que possibilitariam o total compreendimento da narrativa, postergando a revelação até os capítulos finais.

Com isso, o livro se torna extremamente coeso. Porém, para quem já está acostumado a narrativas de suspense, não é difícil fazer projeções acertadas sobre o desenrolar da história quando ainda no meio do livro, apesar da insistente tentativa da escritora de evitar que isso aconteça. Nesse momento, em que a morte de Immie se torna um quebra cabeça já resolvido em meados da página 100, é possível notar que a história não é original, e que já a vimos diversas outras vezes não só na literatura, mas também no cinema. Contudo, essas previsões não estragam o final do livro, que conta com um inesperado e muito bem-vindo plot twist.

Assim, o livro só pode ser estimado de fato se lido até o final. A experiência de se deixar surpreender pelos últimos dois capítulos é o que torna o livro agradável – e gostável, por assim dizer. Por isso, quanto mais se evitar spoilers, melhor: é do tipo que deve ser apreciado no escuro.

Além disso, deve-se saber que o livro possui uma forte conotação feminista. Jule é uma personagem muito inquietante, que brinca com padrões de gênero e faz o que muitas outras mulheres não têm chance, protagonizando sua própria história. Não apenas por ser ela quem a está vivendo, mas também por ser o centro da sua vida, ser sua própria super heroína, e viver de acordo com seus padrões, seus ideais e suas vontades. Jule é fisicamente forte e espiritualmente livre, e nos faz assistir à essa trajetória apenas como admiradores da sua capacidade de sobreviver a situações difíceis e de se adaptar a novos ambientes, caracterizado pelas diversas viagens que realiza, de Porto Rico à Londres.

Fraude Legítima é agradável àqueles que não gostam de moralismo e ortodoxia. O envolvente mistério, que se complica a cada capítulo avançado, a falta de total entendimento dos fatos, as inúmeras reviravoltas, a inversão da ordem cronológica e a narrativa excepcionalmente bem estruturada não são os únicos atrativos do livro, que ainda vai questionar os tradicionalismos de gênero, principalmente quanto à literatura ficcional e de aventura. Jule vai ao mesmo tempo se tornar uma mulher que se admira por sua coragem e força, mas ainda é, muitas vezes, insegura e problemática. Mortes e traições, mentiras e segredos, dinheiro e poder, inveja e amizades são alguns dos temas predominantes do livro que, ainda que comuns e não inovadores, podem render um bom entretenimento.

Por Giovanna Jarandilha
giovannajarandilha@gmail.com

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