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Funcionários do ano: histórias de lealdade no futebol brasileiro
ARQUIBANCADA
20 dez 2019 | Por Júlia Carvalho (juliacarvalho2602@usp.br)

A permanência de um funcionário por muito anos – ou, até, uma vida toda – em uma mesma empresa era algo bastante comum antigamente. As pessoas tinham o sonho de entrar em uma boa empresa e fazer carreira nela, começando, às vezes, no cargo mais simples e chegando aos mais altos postos da companhia. A estabilidade e a lealdade eram duas qualidades valorizadas em um funcionário.

Com o passar do tempo, essas virtudes, antes consideradas essenciais para que se pudesse assumir cargos de grande responsabilidade, perderam importância. Hoje, as organizações buscam pessoas com as mais diversas experiências e que já tenham passado por outras empresas. Os funcionários, por sua vez, não veem mais sentido em se dedicar a apenas uma mesma companhia se o mercado busca profissionais com outro perfil – aqueles que sabem identificar uma melhor oportunidade e trocar de emprego.

No futebol, o mesmo acontece. Antigamente, vários jogadores queriam fazer carreira em um só time, aquele com que se identificasse mais. Era comum que atletas ficassem 20 anos defendendo o mesmo clube. Hoje, esses jogadores estão cada vez mais escassos. Há uma grande procura por atuar em times de maior expressão e por oportunidades de jogar no exterior – algo que tira os atletas muito cedo do Brasil. São poucos aqueles preferem se manter em uma equipe e defendê-la durante vários anos, buscando trazer vitórias e alegrias ao torcedor.

Talvez por isso aqueles que, atualmente, fazem essa opção são tão adorados por suas torcidas, apesar dos altos e baixos. Ainda hoje, é a lealdade aos clubes que fortalece o surgimento dos grandes ídolos do futebol.

 

Ídolos das duas maiores torcidas

Nos anos 1970, a lealdade dos jogadores a suas equipes era algo ainda bastante comum – e ocorria em quase todos os grandes times do Brasil. Dois nomes que se destacaram nessa época, tanto por seu futebol excepcional como por defenderem um mesmo clube por longos anos, foram Wladimir e Zico.

Wladimir, lateral esquerdo, iniciou sua carreira nas divisões de base do Corinthians. Em 1972, com apenas 18 anos, começou a atuar pela equipe principal e se firmou como titular já ano seguinte. A partir desse momento, não saiu mais do time e era difícil vê-lo fora de um jogo da equipe – defendeu o clube por 14 anos. Wladimir se tornou um dos principais jogadores do elenco corintiano e fez história: é o atleta que mais atuou em jogos pelo Corinthians, com 805 partidas. 

Além de ter contribuído para quebrar o jejum de títulos do time, que durava desde 1954, vencendo o Campeonato Paulista de 1977 – bem como os de 1979, 1982 e 1983 –, o lateral foi fundamental, também, para vitórias fora dos campos. O atleta, juntamente com Casagrande e Sócrates, foi uma das lideranças da Democracia Corinthiana. O movimento ocorrido entre os anos de 1982 e 1984 pretendia lutar pela maior participação dos atletas nas decisões do clube, assim como expor a manifestação dos jogadores de oposição à Ditadura Militar instalada no Brasil na época. A Democracia Corinthiana contribuiu para o fim da ditadura brasileira e é considerada o maior movimento ideológico do futebol brasileiro.

Wladimir em jogo pelo Corinthians e o ex-lateral junto com seus companheiros de time Sócrates e Casagrande [Imagem: Divulgação]

Assim como Wladimir foi fundamental à equipe corinthiana, Zico foi essencial ao Flamengo. Torcedor flamenguista desde pequeno, o meio campista começou a jogar pelo time profissional do Flamengo em 1971. O atleta, também conhecido como Galinho de Quintino, defendeu o clube por 16 anos – de 1971 a 1983 e de 1985 a 1989 – e acumulou títulos e recordes pelo clube.

Maior artilheiro da história da equipe, Zico se tornou um dos grandes ídolos do Flamengo. Conquistou 13 títulos, incluindo a Libertadores de 1981 e o Mundial de Clubes, e foi o único atleta rubro-negro a participar de três Copas do Mundo – 1978, 1982 e 1986. Apesar do sucesso incontestável no clube carioca, o Galinho não teve a mesma sorte na seleção e não pôde trazer a alegria de um título mundial ao torcedor brasileiro.

O meio campista foi o segundo jogador que mais atuou pelo time, atrás, apenas, de Júnior, outro grande ídolo do Flamengo. Além de fazer história no clube brasileiro, Zico fez muito sucesso no Japão. Depois de sua saída do time do coração, o jogador foi defender a equipe japonesa Kashima Antlers e despertou verdadeira adoração nos torcedores. Há duas estátuas em homenagem a ele no país – assim como existem duas delas no Brasil.

Zico em jogo pelo Flamengo [Imagem: Arquivo ESPN]

Wladimir e Zico são apenas dois exemplos de grandes jogadores que, no passado, optaram por defender um time por muitos anos. Como os funcionários que buscavam crescer nas empresas de antigamente, esses atletas – e diversos outros naquelas época – aos poucos cresceram em seus respectivos clubes e entraram para a história do futebol. A permanência deles nas equipes foi, sem dúvida, um dos fatores que permitiu que se tornassem grandes ídolos.

 

O santo e o mito que marcaram território

Entre os anos 1990 e o início dos anos 2000, a quantidade de jogadores que optou por fazer carreira em um mesmo time diminuiu consideravelmente. Grande parte dos atletas de destaque que tiveram a oportunidade acabaram saindo do Brasil para ir jogar em clubes do exterior. As propostas multimilionárias, bem como a chance de ter visibilidade fora do país, superam mesmo a mais forte vontade de permanecer em uma só equipe por muitos anos.

Mas dois goleiros desse período optaram por fazer carreira em clubes nacionais e se tornaram verdadeiras lendas. É quase impossível não pensar em nomes como Rogério Ceni e Marcos quando o assunto é lealdade no futebol. Ambos defenderam seus respectivos times por cerca de duas décadas e são ídolos incontestáveis.

Marcos e Rogério em clássico entre Palmeiras e São Paulo [Imagem: Rubens Chiri/São Paulo FC]

Apesar de ser apenas o sétimo jogador com mais partidas disputadas pelo Palmeiras, Marcos é um dos maiores ídolos do clube. O goleiro começou a defender a equipe paulista em 1992 e permaneceu até sua aposentadoria, 20 anos depois, em 2012. Simpático e humilde, o atleta conquistou o carinho da torcida palmeirense com suas importantes defesas e seu jeito brincalhão.

O maior símbolo da admiração que o jogador despertava é o apelido “São Marcos” dado a ele pelos torcedores. A brincadeira surgiu na Libertadores de 1999, quando o goleiro fez defesas brilhantes e inesquecíveis. A principal delas foi no confronto com o Corinthians nas quartas de final, quando Marcos defendeu o pênalti de Marcelinho Carioca e se consagrou para a torcida alviverde como santo: o São Marcos.

É dele o recorde de goleiro com mais defesas em disputas por pênaltis na Libertadores, sendo essencial na vitória do campeonato do Palmeiras em 1999. Além do campeonato continental, o jogador conquistou mais dez títulos com o clube, sendo fundamental como líder dentro e fora do campo.

Marcos defendendo o pênalti de Marcelinho Carioca na Libertadores de 1999 [Imagem: Agência Estado]

Rogério Ceni, assim como Marcos, é outro símbolo de amor e lealdade a um clube. Goleiro do São Paulo por 25 anos – de 1990 a 2015 – o jogador é um dos maiores recordistas do clube. Com 1237 jogos pelo tricolor, o atleta é o que mais atuou pela equipe paulista – e o que mais jogou por um mesmo time no futebol mundial. Além das defesas memoráveis, Rogério marcou a história do São Paulo pelos mais de cem gols que marcou pelo time, em suas inúmeras cobranças de faltas e de pênaltis.

Considerado um dos maiores ídolos da clube paulista, o goleiro conseguiu uma vaga definitiva para integrar o time principal depois de uma tragédia. Isso porque, em 1991, Rogério era terceiro goleiro da equipe profissional, atrás do titular, Zetti, e do segundo goleiro, Alexandre. No ano seguinte, Alexandre vinha ganhando certo espaço após uma suspensão de Zetti, mas sofreu um grave acidente de carro que tirou sua vida. 

No livro Maioridade penal: 18 anos de histórias inéditas da marca de cal, Ceni relata que o falecimento do companheiro de equipe mudou tudo: “Minha carreira, com certeza, seria completamente diferente caso Alexandre não tivesse partido. Ele era apenas um ano mais velho que eu. Ocuparia sua posição por muito tempo pela capacidade e potencial que demonstrava”. Na semana seguinte à tragédia, o goleiro começou a integrar definitivamente o elenco profissional, no qual passou sua carreira toda.

Apelidado de “Mito” pela torcida tricolor, o goleiro conquistou 17 títulos oficiais pela equipe, incluindo duas Libertadores e dois Mundial de Clubes. Ceni tinha um comprometimento muito grande com o clube e era figura essencial de liderança dentro e fora de campo. Para Rogério Barolo – jornalista, produtor do SBT e dono do canal Barolo Vídeos (canal no YouTube dedicado a avaliações do time do São Paulo) – o goleiro era fundamental para a equipe. “Além de líder, ele cobrava os acomodados. A postura dele como profissional fazia com que os outros jogadores se doassem mais. Com a sua saída essa figura passou a não existir mais”.

Rogério Ceni em seu jogo de despedida do São Paulo [Imagem: Getty Images]

Em 2015, o maior goleiro artilheiro do futebol mundial resolveu se aposentar e deixar o São Paulo. Apesar da grande festa na despedida do ídolo, Ceni passou apenas dois anos longe do clube. Retornou em 2017 como técnico, mas não teve uma passagem muito exitosa no antigo time. Segundo Barolo, “Rogério pulou etapas. Não estava preparado para ser treinador, nem do São Paulo nem de qualquer outro time. Agora sim, [no Fortaleza] está cumprindo as etapas. E com certeza voltará a treinar o São Paulo”. Ceni foi campeão da série B do Campeonato Brasileiro com o Fortaleza, em 2018, e conquistou a Copa do Nordeste de 2019.

Rogério Ceni e Marcos foram dois jogadores que marcaram a história de seus clubes e do futebol mundial. Como dois funcionários à moda antiga, ambos colocavam o amor a seus times acima de qualquer oportunidade que pudesse aparecer no caminho. E é difícil imaginar uma trajetória em que eles se tornassem ainda mais idolatrados do que são até hoje.

 

Espécie em extinção

Na primeira década dos anos 2000, o aparecimento de jogadores que priorizavam a longa permanência em um clube quase que cessou. Existiam, ainda, figuras como os já citados Rogério Ceni e Marcos, que atuaram por seus times por muito tempo. Mas, com as aposentadorias desses grandes ídolos, poucos representantes de atletas de um clube só restaram. Hoje, um dos únicos que está há muitos anos na mesma equipe é o também goleiro Fábio, do Cruzeiro.

Atualmente com 38 anos, joga pelo time mineiro desde 2005. Fábio teve uma breve passagem pela equipe em 2000, mas logo foi emprestado ao Vasco, retornando ao Cruzeiro cinco anos depois. O goleiro – terceiro de sua posição a gravar suas mãos na Calçada da Fama do Mineirão – se tornou um dos maiores ídolos do clube, sendo o jogador que mais vestiu a camisa da equipe.

Em sua história no Cruzeiro, Fábio conquistou 12 títulos, dentre eles o bicampeonato brasileiro em 2013 e 2014. Apesar dos ótimos desempenhos pelo time mineiro, o goleiro, como Zico, não teve a mesma sorte na seleção brasileira. O jogador conquistou a Copa América de 2004 pelo Brasil, mas nunca teve uma sequência de convocações que o permitissem repetir as mesmas boas atuações que diversas vezes apresentou em seu clube.

Fábio após vitória contra o Santos no Mineirão, em 2018 [Imagem: Vinnicius Silva/Cruzeiro/Divulgação]

Em setembro de 2019, Fábio bateu mais um recorde, que se soma a sua já extensa lista de conquistas. Na derrota de 4 a 1 para o Grêmio, ele se tornou o atleta que mais jogou o Campeonato Brasileiro. O goleiro superou Rogério Ceni, acumulando 576 partidas no campeonato. Apesar da má campanha do Cruzeiro, que resultou no seu primeiro rebaixamento da história no Brasileirão, Fábio acertou com a equipe até 2021, para ser o goleiro no centenário do clube. Mesmo já tendo planos para o período após sua aposentadoria – que se afastam um pouco do futebol e incluem investimentos nos ramos automotivo e alimentício –, deixar os campos parece um tanto distante para um jogador que continua vencendo títulos e quebrando recordes a cada ano.

 

Amor à camisa é coisa do passado

Fábio é, hoje, uma exceção dentro do futebol brasileiro. O esporte, como qualquer empresa atualmente, estimula mudança, a busca por uma melhor oportunidade. Ainda segundo Rogério Barolo, “o jogador brasileiro em geral é assim, desde pequeno os atletas são formados para jogar fora do país. O futebol virou um grande negócio. Não existe mais ‘amor’. Hoje o que vale é o lado profissional. Não acho errado, mas lamento. E o torcedor também percebe isso”.

Com a alta rotatividade de atletas nos times é difícil para o torcedor criar uma identidade com seu clube. Se antes era emocionante poder ver um grupo de jogadores repleto de ídolos que cada fanático tinha orgulho de chamar de seu, hoje faltam nomes para se gritar a cada partida de futebol. Cada vez menos surgem grandes atletas no esporte que querem fazer história em uma mesma equipe.

Todos estão à procura de mais visibilidade e de oportunidades melhores, mas quem perde é o futebol. Quem perde são as inúmeras crianças que começam a assistir seus times jogarem, mas nunca poderão ter o orgulho de falar que aquele grande jogador defende a camisa que ela também veste. Ídolos como Wladimir ou Zico, Marcos ou Rogério Ceni.

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