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Holi: cores no cinza de São Paulo
Eu Fui
05 nov 2014 | Por Jornalismo Júnior

No último sábado, dia 24, o Ibirapuera, mais importante espaço verde da cidade de São Paulo, encontrou-se azul, amarelo, vermelho, roxo… enfim, o parque foi pintado de colorido pelas pessoas que foram até o local participar do segundo Holi Festival São Paulo.

O Holi, também conhecido como Festival das Cores, é um festejo de origem hindu, surgido de duas lendas. Segundo a primeira delas, o Rei dos demônios, Jirania Kashipú, pediu para que sua filha Hólika matasse seu outro filho, Prajald, pois esse venerava o deus Vishnu e não a Jirania. Hólika era imune ao fogo e, seguindo às ordens do pai, entrou com Prajald numa fogueira. No entanto, ao fazer isso, ela perdeu seus poderes e morreu queimada. Prajald, ao contrário, foi protegido pelo deus Vishnu e sobreviveu. Desse modo, o Holi Festival comemora a vitória do bem sobre o mal. É também por conta dessa lenda que, em países hindu, um dia antes do Festival das Cores, costuma ocorrer o Hólika Dahan, no qual fogueiras são acesas para celebrar a vitória de Prajald e morte de Hólika. A segunda lenda faz menção ao deus Krishna que, por conta de seu eterno amor por Radha, lançou cores no rosto da amada, para que a pele dela, mais clara, escurecesse. Assim, as diferenças sociais seriam amenizadas e os dois poderiam ficar juntos. Krishna, assim, teria dado início ao Festival das Cores e à tradição de jogarem tinta colorida em pó nos participantes, além de unir toda a Índia e suas castas num único festejo. A tinta é biodegradável e, nos países hindu, é comum que as crianças iniciem o lançamento das cores, jogando nos pais, até que todos estejam completamente coloridos.

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Holi Festival na Índia. Foto: Reprodução.

Além de tudo isso, o Holi também comemora a chegada da primavera no hemisfério norte. Apesar da maior e mais famosa celebração acontecer na Índia, elas também são realizadas no Suriname, Guiana, Trindade, Reino Unido, Ilhas Fiji, Salvador, Aracaju, Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis e, claro, São Paulo, além de outros.

Esse ano foi o segundo ano do Festival das Cores em São Paulo. Ano passado, ele aconteceu no Parque Villa Lobos, que, apesar de maior, atraiu um menor número de pessoas.

A programação do Holi Festival 2014 de SP preocupou-se em se manter fiel às suas origens hinduístas: começou com uma sessão de yoga, meditação e dança clássica indiana e continuou com a apresentação de cânticos hindu, conhecidos como bhajans and kirtans. Mais tarde, ocorreu uma apresentação, no mínimo, diferente: a banda titiksava karunika and nam rock tocou e cantou mantras com ritmo de rock e fez o público dançar. Ao fim, a cultura brasileira tomou conta: foram músicas regionais e Djs nacionais.

Parte do público, no entanto, não parecia entender a origem ou o significado do Festival. Embora muitas pessoas, especialmente jovens e famílias, tenham comparecido, muitos pareciam estar lá para beber com os amigos e tirar fotos no bonito cenário colorido. Talvez por isso o Festival de São Paulo tenha me parecido tão diferente e até um pouco decepcionante em relação ao Holi da Índia ou outros países hindu: nesses lugares, a comemoração tem um significado real. Seja esse significado a vitória do bem sobre o mal, a chegada da primavera ou o fato de que, cobertos de tinta, os cidadãos passam a ter aparências semelhantes, afastando as diferenças e se unindo, são todos sentidos importantes. Assim, recheada de significação e sentimento, a festa passa a ser mais animada, única e, por isso, mais bonita.

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Evento realizado no Parque do Ibirapuera. Foto: Isabela Augusto.

Em outros países, especialmente os de cultura ocidental, essas origens e os valores vão se perdendo no meio das festividades. Desse modo, o Holi passa a ser apenas mais um festival de música para adolescentes ou apenas outra glow party, atualmente muito popular entre jovens, na qual tinta fluorescente é usada para pintar a pele e roupas que, no ambiente escuro da balada, passam a brilhar.

Ainda assim, o Holi não deixa de ser uma opção divertida para um sábado livre e uma grande e bacana oportunidade para se aproximar da rica e interessante cultura hinduísta.

Por Isabela Augusto
isabelacaugusto@gmail.com

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