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La La Land e o complexo de Branco Salvador
CINÉFILOS
08 fev 2020 | Por Catarina Barbosa (catarinavbarbosa@usp.br)

Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Nina Simone, Miles Davis e Kenny Clarke são alguns dos artistas negros que marcaram a história do jazz com suas canções e performances. Os dois últimos, inclusive, são citados no longa La La Land: Cantando Estações (La La Land, 2016) como ídolos de Sebastian (Ryan Gosling). A trama principal do filme gira em torno da crença do protagonista em ser um dos últimos entusiastas do jazz tradicional e que, por causa disso, o ritmo musical depende dele — e de seu sonhado clube de jazz — para continuar existindo.

Ao longa da trama, é possível identificar em Sebastian o chamado complexo do branco salvador, white savior em inglês, que é quando uma pessoa branca acredita ser o único capaz de ajudar ou entender da maneira certa pessoas e culturas de outras etnias, atitude herdada do eurocentrismo. Essa seria então a principal problemática do filme: uma vez que o jazz é um ritmo de raízes negras, é no mínimo contraditória a visão passada pela história de La La Land de que o protagonista branco seria o guardião da essência do gênero musical.

Criado nos Estados Unidos na virada do século XIX para o século XX, o jazz é — originalmente — um ritmo musical negro. Isso porque, as primeiras influências para a formação do gênero vem dos cantos religiosos, os chamados spirituals, trazidos para os EUA pelos negros escravizados, e que foram misturados ao ragtime e ao blues para formar o jazz que conhecemos hoje. Os work songs e hollers (músicas de trabalho e músicas de grito, respectivamente), cantadas pelos escravizados, podem ser considerados músicas precursoras do jazz, indicando que o ritmo musical nasceu como forma de protesto.

Por volta de 1920, o ritmo deixou de concentrar-se no estado da Louisiana e foi para o estado de Nova York, época em que passou a ser consumido pela população branca e foi incorporado à cultura desta.

Sebastian e Mia no bar de jazz que frequentam em La La Land. [Imagem: Summit Entreteniment]

A paixão de Sebastian pelo gênero musical é o que encanta Mia (Emma Stone) no início da história. Em meio as coreografias e músicas do filme, ele assume a responsabilidade de mostrar o “verdadeiro” jazz para a protagonista, que por sua vez passa a encorajar o personagem a abrir seu clube, reforçando a ideia de que ele realmente seria o maior conhecedor do assunto. Enquanto isso, os personagens negros aparecem como figurantes no bar de jazz que o casal frequenta, sendo Keith (John Legend) o único negro a ter nome e de alguma maneira movimentar a trama.

Keith até exalta o talento de Sebastian, mas também é quem o questiona sobre sua obsessão em manter tudo tão tradicional. Para o personagem de Legend, fazer música é ter liberdade para criar e expressar-se da maneira como achar melhor, não importando se para isso a “essência” do jazz seria alterada. Depois disso, Sebastian entra para a banda de jazz moderno de Keith, porém, é nítido o desconforto do personagem por estar naquela posição. No fim, o protagonista abandona a banda e termina com Mia, mas finalmente consegue abrir seu clube para tocar as músicas do jeito que sempre quis, encerrando o filme como um músico bem sucedido e salvador do jazz clássico.

Keith é o único personagem negro identificado no filme. [Imagem: Dale Robinette]

A cineasta negra Sabrina Fidalgo enxerga no personagem as atitudes de um white savior: “O homem branco é o sistema de onde tudo parte, inclusive a legitimação do outro que não é branco”. Ela ainda completa: “A mensagem é essa: mais uma vez foi o homem branco quem salvou todo rolê e toda questão do jazz, sem se importar de fato com os reais protagonistas da história do jazz americano, que são os negros”.

O que incomoda no jazz retratado em La La Land é o apagamento quase total de figuras negras em uma narrativa que depende delas para existir. Após o lançamento, o longa foi amado e odiado pela crítica: veículos como MTV News e The New York Times criticaram o complexo de white savior do personagem de Ryan Gosling, pontuando como negativo o embranquecimento do jazz na história. O responsável por essa visão é o diretor e roteirista — branco — do longa, Damien Chazelle, que antes de iniciar a carreira no cinema era baterista de jazz.

Chazelle (ao lado de Emma Stone), parte do elenco e da produção de La La Land. John Legend é o único negro da foto. [Imagem: Robyn Beck/AFP]

Mesmo com tantos movimentos recentes em Hollywood a favor de filmes mais representativos, o cenário geral ainda é reduzido às visões de brancos sobre as minorias. Sabrina acredita que, no caso de La La Land, o apagamento da cultura negra da história é fruto do racismo estrutural: “A branquitude diz estar importando-se com as questões de negros, mulheres e LGBTQs, quando na verdade não está dando voz para essas pessoas e essa é a grande questão do racismo estrutural: ele não dá voz. Ele legitima a partir do ponto de vista da branquitude, mas não deixa que os reais protagonistas ocupem esses espaços”.

Mas, ainda que seja pela visão dos brancos, atores negros têm ganhado chances em papéis de destaques nas produções hollywoodianas de grande orçamento — e também como reflexo do racismo estrutural, têm sua competência questionada antes mesmo de atuar. Halle Bailey, escolhida para viver Ariel no live-action de A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989), é o exemplo mais recente. A atriz foi escalada para o papel por conta de sua atuação na série Grown-ish (2018) e por sua carreira musical. Porém, foram muitas as críticas dirigidas à atriz com a desculpa de que “seria impossível gostar de uma pequena sereia negra”.

A ilustração da pequena sereia negra foi postada por Halle após ser anunciada oficialmente para o papel. [Imagem: Reprodução/People]

Então, uma vez que as histórias negras não são contadas por seus devidos protagonistas e ainda sim são muito premiadas, como foi o caso de La La Land, é preciso então naturalizar — e premiar também — a presença de negros em papéis que seriam de brancos, como é o caso de Halle e a Pequena Sereia. Sabrina Fidalgo pontua: “historicamente, atores negros não ocupam espaços de poder no cinema, ou seja, não são protagonistas de suas próprias histórias e às vezes nem das histórias dos outros. É uma questão de fazermos um exercício de olhar e mudar essa forma de entender. Na verdade, tudo é possível. Se pessoas brancas podem fazer tudo, pessoas negras também. É um exercício pessoal de cada um tentar descolonizar o seu próprio olhar em relação a isso”.

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