Por Ana Carolina Mattos (a.carolinamattosn@usp.br)
Chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (18) a comédia-romântica brasileira Quinze Dias. Baseado no fenômeno da literatura infanto-juvenil brasileira, Quinze Dias (Alt, 2017), acompanha a história de Felipe (Miguel Lallo), um adolescente retraído que vê seus planos para as férias frustrados pela estadia inesperada de Caio (Diego Lira), seu vizinho e amigo de infância com quem não convive há anos, em sua casa por 15 dias.
Extremamente fiel ao livro, Quinze Dias é, antes de qualquer coisa, uma típica comédia romântica em estrutura. Isso não é um problema, mas sim um dos pontos mais fortes do filme, que desde o primeiro momento se assume como uma produção de tom leve, cômico e amigável, característica oposta de boa parte das produções que lidam com temática LGBTQ+ e que faz isso muito bem.
Baseado no livro de Vitor Martins, que assina o roteiro com Ray Tavares e Vitor Brandt, a adaptação foi dirigida por Daniel Lieff em um estilo contido porém cativante. A direção é competente mas pouco se arrisca, reproduzindo os clássicos de comédias românticas estadunidenses. Apesar de saber e abusar dos clichês do gênero para construir a narrativa, Quinze Dias se perde ao tentar criar uma identidade própria ao mesmo tempo em que se apossa de conexões e estruturas anteriores, uma narrativa indecisa entre criar algo novo e manter o padrão.
Esse problema fica ainda mais visível quando a estrutura “americanizada” passa a incomodar. Com cenas de bullying e diálogos que se assemelham a filmes adolescentes americanos dos anos 2000, a produção também parece não se decidir entre abraçar a estética e costumes brasileiros ou seguir a lógica clichê de filmes de romance adolescentes dos Estados Unidos.

Com um roteiro que não parece ter grandes pretensões, Quinze Dias nunca mergulha de fato nas inseguranças e nuances dos personagens, o que, do ponto de vista de uma comédia romântica adolescente, não é um grave problema, mas, pensando no tom dramático que o filme se propõe a enquadrar em determinado momento, distancia o espectador da trama proposta. Como resultado, os personagens, apesar de interessantes, se tornam rasos.
Apesar de ser constantemente destacado para a audiência a difícil relação que o protagonista tem com seu peso, formas mais sutis e visuais de representar isso são raras, causando um estranho cansaço pelas falas e ações tão recorrentes, ao mesmo tempo em que cria uma sensação de que não se vê aquilo o suficiente.
O tom também é indeciso em alguns momentos. Construído como uma comédia e um filme que não se leva a sério, Quinze Dias peca quando decide se arriscar em momentos mais dramáticos.

Os maiores destaques estão no elenco e edição, que se encaixam bem na proposta do filme e conduzem a história com leveza. Miguel Lallo, em seu primeiro papel no cinema, traz nuances ao protagonista com uma atuação que flui muito bem entre a forma de agir retraída dos personagens e os momentos em que ele se mostra mais alegre e aberto ao mundo.
Além dele, Débora Falabella, que interpreta a mãe de Felipe, e Mariana Santos, atriz da mãe de Caio, são a adição mais preciosa do filme. Ambas as atrizes elevam suas personagens para além do roteiro com atuações que transitam bem entre o alívio cômico e a pura devastação e drama.
É com Mariana Santos que, na maior parte do tempo, Quinze Dias supre o vazio emocional deixado por seu roteiro superficial. Em primeiro momento, isso vem como um grande destaque na trama mas, na verdade, aumenta a fome por informações e construções de personagens do longa.
Mesmo com problemas estruturais relevantes, Quinze Dias ainda consegue se estabelecer como um filme divertido e uma sensação de “sessão da tarde”. Apesar de dificuldades para construir uma identidade própria, a produção consegue reter a atenção do espectador com um elenco cativante e se consolidar como uma comédia romântica das mais clichês de uma forma estranhamente positiva.

Quinze Dias já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de Capa: [Reprodução/Youtube/Manequim Filmes]
