Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br)
A formação do El Niño foi confirmada na quinta-feira (11) pela agência estadunidense National Oceanic and Atmospheric Administration, NOAA. Integrante do ciclo climático conhecido como ENOS – El Niño-Oscilação Sul –, o fenômeno altera a circulação atmosférica e oceânica do Pacífico e pode afetar o regime de chuvas e temperaturas em diversas partes do mundo.
Meteorologistas já esperavam a confirmação do evento climático, a partir da observação de um aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial desde abril deste ano. O NOAA prevê uma probabilidade de 63% que as temperaturas da superfície marítima ultrapassem os 2°C, o que classificaria o esse El Niño como “muito forte”.

Entretanto, em entrevista à Jornalismo Júnior, Caio Coelho, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Atmosféricas (INPE), destacou que apesar de o fenômeno estar se configurando em direção a algo no mínimo “moderado”, não é possível dizer com certeza qual será sua intensidade. Segundo Coelho, a partir de agosto é possível fazer previsões mais certeiras a respeito da força do evento.
“Eu fico preocupado com esse alarde em torno de um “super” El Niño, nós da área científica não usamos esse termo. A preocupação é compreensível, mas não é hora de causar pânico.”
Caio Coelho, meteorologista do INPE
O que é o El Niño
O El Niño corresponde à fase quente do ENOS (El Niño–Oscilação Sul), um fenômeno natural de variabilidade climática associado às alterações anômalas da temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial, Central e Leste, próximo à costa da América do Sul. O sistema também inclui uma fase fria, a La Niña, e uma condição neutra, quando não há predominância de nenhuma das duas fases.
De acordo com Coelho, embora tenha origem no oceano, o El Niño resulta de uma interação entre o Pacífico Equatorial e a atmosfera. O aquecimento das águas nesta região altera a circulação dos ventos e modifica o comportamento da atmosfera.
Em condições normais, os ventos que sopram de Leste a Oeste concentram as águas mais quentes do Pacífico na região próxima à Austrália e à Indonésia. Com o desenvolvimento do El Niño há uma variação de pressão atmosférica: ela diminui sobre o Pacífico Central Sul e aumenta ao Norte da Austrália, reduzindo a intensidade dos ventos. Com isso, as águas que antes permaneciam acumuladas no oeste avançam em direção às porções central e leste do oceano, reforçando o aquecimento e provocando mudanças na circulação atmosférica.

Segundo o pesquisador, esse acoplamento entre oceano e atmosfera favorece a formação de grandes torres de nuvens sobre o Pacífico Equatorial. A partir daí, são geradas perturbações que se propagam para outras partes do mundo, alterando os padrões de chuva e temperatura. “É como se a atmosfera fosse um oceano de ar: você joga uma pedra, que é essa torre de nuvens, e as ondas se propagam até afetar a precipitação Brasil.”
As mudanças provocadas pelo ENOS também ocorrem em um cenário climático diferente daquele observado em décadas passadas. “Hoje, somado à variabilidade natural, a gente tem o efeito do aquecimento global”, afirma o pesquisador. Segundo ele, o aumento das concentrações de gases de efeito estufa tem contribuído para o aquecimento dos oceanos, que vêm apresentando temperaturas mais elevadas em diversas regiões do planeta.
Como o fenômeno é monitorado
A identificação do El Niño começa pelo monitoramento da temperatura da superfície do Pacífico Central. Os cientistas acompanham desvios de temperatura em relação à média histórica.
Coelho explica que quando a variação permanece entre 0°C e 0,5°C, a condição ainda é considerada neutra. Valores entre 0,5°C e 1°C caracterizam um El Niño fraco. Entre 1°C e 1,5°C, ele é classificado como moderado, de 1,5°C a 2°C, como forte. Já mudanças superiores a 2°C indicam um fenômeno muito forte.
Tal classificação complementa-se pelo monitoramento da atmosfera. Para isso, os meteorologistas utilizam o Índice de Oscilação Sul (SOI), calculado a partir da diferença de pressão atmosférica entre a ilha do Taiti, na Polinésia Francesa, localizada no Pacífico Central, e a cidade de Darwin, no norte da Austrália. Esses dois locais são usados como referência por representarem extremos da circulação atmosférica tropical do Pacífico, permitindo acompanhar alterações na chamada circulação de Walker, diretamente associada ao El Niño e à La Niña. Quando as temperaturas do oceano estão acima da média e o índice apresenta valores negativos, considera-se que há um acoplamento entre oceano e atmosfera, condição necessária para confirmar a vigência da fase quente do ENOS.
Outra forma de monitoramento da superfície marítima é o Índice Oceânico Niño Relativo (RONI) – adotado oficialmente pela NOAA em fevereiro de 2026. Enquanto o ONI utiliza um período de três meses de registros de temperaturas oceânicas para calcular os desvios da média, o RONI evolui mês a mês. No Brasil os dois índices são utilizados de forma complementar.
Quais efeitos sob o clima o Brasil pode esperar
Para o atual episódio de El Niño, os modelos climáticos indicam uma tendência de chuvas acima da média na Região Sul e condições de seca na Região Norte do país. Nas demais regiões, a expectativa é de precipitações próximas à média histórica. No entanto, em entrevista à Jornalismo Júnior, Maria Dias – Doutora em Ciências Atmosféricas e professora Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP) – ressalta que essas projeções se referem a médias mensais e nem sempre captam a ocorrência de eventos extremos em períodos mais curtos.
A preocupação com os possíveis impactos do fenômeno levou o governo federal e instituições de pesquisa a coordenarem ações de monitoramento e resposta a possíveis desastres climáticos. Para a pesquisadora, além de acompanhar as previsões, é fundamental investir em preparação e adaptação diante de eventos extremos cada vez mais frequentes.
“A pergunta que deve nos nortear é: estamos preparados para ocorrências semelhantes às que já ocorreram no passado recente?”
Maria Dias, Professora do IAG/USP

Segundo ela, o El Niño é apenas um dos diversos fenômenos que influenciam o clima brasileiro e seus efeitos dependem da interação com outros sistemas atmosféricos e oceânicos. Foi o caso das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Embora tenha coincidido com um episódio de El Niño, o fenômeno já estava decaindo. Dias afirma que o evento resultou da combinação de diversos fatores: aquecimento das águas do Atlântico, bloqueios atmosféricos e perturbações originadas no Oceano Índico. Portanto, atribuir a um único fenômeno a responsabilidade por eventos extremos pode ser um equívoco.
Impactos sobre o agronegócio brasileiro
Atualmente, o Brasil é o maior exportador de commodities agropecuárias do mundo. O clima favorável e a disponibilidade de água colocam o país em uma posição confortável para a produção de grãos. Entretanto, a confirmação do El Niño tem preocupado pequenos e grandes produtores rurais.
Em entrevista à Jornalismo Júnior, Bruna Peron, meteorologista da Rural Clima, afirmou que o principal perigo para a safra de grãos do Brasil é a irregularidade das chuvas associada às altas temperaturas, provocadas pelo fenômeno. “Em um período de, por exemplo, 10 dias sem chuva com temperaturas superiores a 35 °C, o solo perde umidade rapidamente, levando a planta ao estresse hídrico.”
Segundo Peron, os primeiros impactos devem aparecer ainda no inverno, com riscos à colheita do algodão no Centro-Oeste. Há um maior risco de chuva durante a colheita. Já as culturas de inverno no sul do país como trigo, aveia e cevada, são inicialmente favorecidas pela ausência de frio extremo. O problema surge na primavera– entre setembro e novembro –, quando o excesso de chuva pode dificultar a colheita e comprometer a qualidade dos grãos.
Durante esse período, a situação se inverte na região central. A estação é marcada por períodos de estiagem, o que pode prejudicar a implantação das lavouras de soja e milho e prejudicar seu desenvolvimento.
Já o Nordeste pode sofrer diferentes impactos dependendo da proximidade do local com o litoral. No Oeste, próximo à fronteira agrícola do Matopiba – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia –, o risco de veranicos entre o verão e o outono de 2027 torna-se maior. Já na faixa Leste, será possível observar um aumento das precipitações.
Segundo a meteorologista, a produção de café no Sudeste também está suscetível aos impactos do El Niño. Além de possíveis interrupções na colheita em razão das chuvas, a safra seguinte pode ser afetada pela combinação de calor intenso e secas durante as primeiras floradas. “Os frutos se formam de maneira desigual, comprometendo a uniformidade e a produtividade da safra.”
Peron destaca que um manejo de solo bem-feito é essencial para o período de El Niño. Nas regiões mais secas, uma alternativa é cultivar sementes mais resistentes ao calor e a baixa umidade. No Sul, por sua vez, o monitoramento das previsões climáticas pode ajudar os produtores a aproveitarem as janelas entre as chuvas. Ela, também, reforça que, apesar dos efeitos previstos, é importante ter cautela e analisar o cenário com base em dados científicos. “Houve algumas projeções extremamente alarmistas. Eu pensei: não consigo nem achar na literatura algo que represente um fenômeno dessa magnitude… Nós ainda não podemos afirmar a força desse evento.”
La Niña: o antagonista
El Niño e La Niña são fases opostas do ENOS. Segundo Coelho, a La Niña ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial apresentam temperaturas abaixo da média histórica.

As diferenças entre os dois fenômenos vão além da temperatura do oceano. Na La Niña, os ventos que sopram do Leste para o oeste sobre o Pacífico se fortalecem, intensificando o resfriamento da região. As mudanças na pressão atmosférica também seguem padrões contrários. A circulação normal da atmosfera sobre o oceano é reforçada, isto é, a pressão aumenta no Pacífico Central e diminui na região da Austrália.
“A La Niña reforça as características climatológicas normais do Pacífico Equatorial, enquanto o El Niño as enfraquece e altera.”
Caio Coelho, meteorologista do INPE
Como consequência, os impactos climáticos também costumam ser opostos, mas nem sempre uma região afetada pelo El Niño apresenta impactos significativos no tempo e clima devido à La Niña. Ambos têm frequência variável entre 2 e 7 anos, todavia, nas últimas décadas o último tem ocorrido em menor quantidade.
*Imagem da capa: Juan Moccagatta/Pexels




