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Menstruação: sobre a vergonha de sangrar

“A gente tem que ser uma Barbie plastificada, esconder nossa natureza interna e externa, porque somos objetos sexuais”

JPRESS
24 dez 2019 | Por Ramana Duarte

Ocidentalidades e tabus

Depois de vários e-mails enviados e algumas negativas (já que na maioria das vezes era lidar com a caixa de entrada vazia), recebo a seguinte resposta: “Tema interessante. Mas talvez você vá ficar decepcionada ao perceber que a opressão às mulheres não é apanágio das culturas judaico-cristãs, infelizmente”. O e-mail era da Dra. Ivete de Almeida, docente do Instituto de História da federal de Uberlândia, para um pedido de entrevista a respeito da visão de alguns povos africanos sobre a menstruação. Em uma enquete online, feita com 251 mulheres, mais de 50% delas responderam que se sentem sujas durante o seu período menstrual. E, a maioria das moças entrevistadas acredita que vai se sentir aliviada quando a menopausa chegar.

Por outro lado, Anair Zamignan, aposentada de 76 anos, diz que, logo após o fim, sentiu falta de menstruar. “É uma coisa de mulher” explica ela, “a gente se sentia ainda jovem, fértil, podia ainda servir para o mundo”. Apesar desse sentimento nostálgico em relação ao ciclo menstrual, Anair lembra também das dificuldades de conciliar as primeiras menstruações com as brincadeiras: “tinha só que ficar escondida em casa. A gente não saia”. Além disso, ela diz que, por conta do conhecimento da época, as mulheres não podiam lavar o cabelo ou pegar chuva, já que era de crença geral que isso as deixaria “meia loucas”.

Apesar dessas ideias parecerem absurdas hoje, ainda diversas atividades são deixadas de lado durante o período menstrual, sem muito embasamento científico. A socióloga, professora da PUC de São Paulo e autora do livro História do feminismo, Carla Cristina Garcia diz: “a questão é o tabu cultural mesmo. A gente deixa de fazer as coisas porque tem, sim, tabu”. Na mesma enquete, das 251 entrevistadas, 146 afirmaram não transar durante essa visita mensal, o que equivale a 58,2%. Isso perde somente para usar roupas justas ou brancas, que são deixadas de lado por 66,9% das pessoas durante a menstruação.

“Fiquei com vergonha de mim mesma, de que os outros ficassem sabendo, enxergassem que eu perdia sangue, que usava pano”, revela Anair ainda sobre o sentimento que prevaleceu ao ter visto as roupas sujas de sangue pela primeira vez. Sua mãe a instruiu a manter isso escondido, longe das vistas dos irmãos e do pai. A mesma instrução Anair passou para as filhas mais tarde, explicando que deveriam ter cuidado e não se expor. Carla chama atenção para esse tipo de disfarce na mídia, como as propagandas de absorventes, as quais mostram o sangue em azul ou outras cores neutras ao invés da natural.

A exposição dos corpos femininos, que entra em questão nesse sentido, é de caráter contraditório: quando exibido de modo sexualizado, objetificado ele alcança grandes espaços e repercussão, no entanto se tratando de sua natureza e fisiologia mais vale escondê-lo do que entendê-lo. Isso a socióloga Carla Cristina explica da seguinte maneira: “A gente tem que ser uma Barbie plastificada, esconder nossa natureza interna e externa, porque somos objetos sexuais”. Para ela, o corpo feminino vive uma constante repressão, no qual ele não pode manifestar a sua condição de corpo em um controle de fora para dentro, ou seja, não biológico, mas sim cultural. 

Em críticas a ginecologia atual, a socióloga defende que essa área médica não conecta a mulher a sua vagina. Isso porque o médico não relata ao paciente o que ele está vendo. Segundo Carla, quanto mais a mulher está ligada a seus processos biológicos mais fácil é para lidar com eles e realizar suas atividades tranquilamente. A TPM (Tensão Pré-Menstrual), um dos maiores alvos de reclamações, é tratada como distúrbio de humor pela medicina; e a cólica, que talvez seja o grande vencedor nos aspectos indesejáveis da menstruação, “é uma coisa que dói, você toma chá e remédios porque é uma contração”. 

Normalmente, as próprias propagandas de absorvente mostram um líquido azul como sangue. Mas em 2017, o vídeo “Blood Normal” da campanha de publicidade traz, pela primeira vez no mercado britânico a representação vermelha do sangue. [Imagem: delas.ig]

Gabriela Giacomini, auxiliar administrativa de 32 anos, disse que sua primeira menstruação foi tranquila, mas não foi motivo de bons sentimentos. Isso devido a impressão que a mãe passou desse período como algo incômodo em uma explicação “bem superficial”. Ela declara que hoje leva a menstruação como um momento de introspecção e sensibilidade, em que prefere não se expor muito por se sentir mais vulnerável. Como se fosse uma “limpeza energética” trazida pela reiniciação do ciclo. Mesmo que sua mãe tenha tido problemas com a menopausa, Gabriela acredita que não irá passar pelo mesmo por possuir uma relação melhor com seu corpo.

De qualquer modo, mulheres como Tamiris Risnik, taróloga, artesã e estudante de 30 anos, mudam muita coisa em seu dia a dia por conta das dores desse período: “às vezes, cancelo até minha agenda de compromissos pela intensidade de sintomas e mal humor”. Ela tem fibromialgia, uma síndrome que causa dores em diversas partes do corpo, dentre outros sintomas e, durante a menstruação, esses sintomas são intensificados. Também Jiula Campos, estudante de psicologia, declara que “deixa de viver” e tem de ficar de cama por conta da cólica. 

Outro problema enfrentado pelas mulheres é a falta de informação sobre isso. Devido aos tabus que circundam a menstruação nem sempre esse assunto é trazido à tona dentro do ambiente familiar. Resultado disso é o desconhecimento feminino sobre o próprio corpo e, muitas vezes, sobre a menarca.

Anair, quando esse momento ocorreu aos seus 14 anos, já sabia o que significava aquele sangue que manchava suas roupas. Foi sua irmã mais velha, Adelina, que a mando da mãe, explicou à caçula sobre isso. Ela lembra que estava ajoelhada rezando quando a irmã lhe contou a respeito da menstruação: “eu não tinha nem ideia disso, mas eu fiquei tão impressionada, fiquei pensando, pensando naquilo e custei para dormir de tanto que fiquei preocupada, pensando como é que podia ser”. Da mesma maneira, foi pela mediação da irmã que a mãe ficou sabendo da menarca de Anair.

Para aqueles que acreditam que isso são exclusividades de uma época a muito já ida, Tamiris Risnik menstruou aos nove anos sem noção do que estava acontecendo. Sua mãe também nunca havia conversado sobre isso com ela. Por não entender a razão do sangramento, ela acreditava que o motivo era uma patologia grave e a principal culpada era ela mesma. Também não contou a ninguém sobre sua menarca e, tampouco, usava quaisquer métodos para conter o fluxo de sangue. “Até que um dia minha mãe achou e perguntou o que estava acontecendo. E eu perguntei de volta, chorando, que eu que não sabia.”

 

Os hupdah e a menarca

Povo hupdah recebe visitas de missionários, está em contato com centros urbanos e ainda mantém seus rituais em relação à menarca [Imagem: Michel Pellander]

Para esse povo indígena, a menarca tem uma forte importância simbólica. Os hupdah ocupam uma região de alto relevo e interfluvial no estado da Amazônia entre o rio Papuri e o rio Tiquié. Eles constituem uma população de 2000 pessoas espalhadas em 35 aldeias.

De acordo com o conhecimento dos hupdah, a partir da primeira menstruação a mulher já é considerada apta para o casamento, “já são consideradas fortes o suficiente”, declara o antropólogo da  Universidade Federal de Pernambuco, Renato Athias, que trabalha com essa etnia há 3 décadas. Com a menarca, acontecem celebrações por toda aldeia e a mulher, pela primeira vez, corta os cabelos bem curtos que é para deixar claro à comunidade que já está pronta para casar. 

Hoje, com os muitos missionários pela região e o contato dos indígenas com a cidade, ocorreu uma certa ocidentalização nas crenças desse povo. Porém, o professor destaca que essa questão da menarca é ainda muito presente: “ela continua sendo um momento muito legal nas aldeias. Isso significa que logo haverá festa de casamento”.
O sangue, como uma substância que circula por todo o nosso corpo, no entendimento dessa etnia, ganha poderes de transportar tanto benefícios quanto malefícios e, até mesmo, feitiçarias. Ele também representa a “essência da vida”, é individual. Sendo assim, “qualquer tipo de sangue é escondido, as pessoas não podem ver o sangue do outro”. Mesmo o sangue das caças é retirado todo, eles não o ingerem, essa substância não é utilizada para coisa alguma.
O sangue menstrual, então, ganha ainda mais importância e poder. Durante esse período, as mulheres ficam mais isoladas e não podem fazer várias coisas, como tocar instrumentos, participar do cotidiano da aldeia ou olhar diretamente para coisas ou pessoas. O descarte desse sangue é facilitado por habitarem uma região repleta de rios e igarapés, de modo que a água fica encarregada de levá-lo para longe e com ele as ameaças que essa substância exposta significa para os hupdah.

 

Iorubas, igbos e métodos de contenção

Povo Ioruba [Imagem: civilizaçoesafricanas.blogspot]


Ambas etnias estão localizadas no atual território da Nigéria. Por estarem na África Ocidental, esses grupos fizeram parte da formação do povo americano e de sua cultura. Os igbos mais ao norte e os iorubas em Pernambuco e Salvador.
No caso dessas culturas, bem como na dos hupdah, a mulher também permanecia reclusa durante o período menstrual, como afirma a professora de história da UFU Ivete de Almeida. Por serem povos caçadores e viverem perto de animais, as mulheres representavam risco de atrair predadores pelo cheiro do sangue.

Especificamente entre os iorubas, que, inclusive, foram a base do candomblé no Brasil, “as mulheres não podiam participar das cerimônias ligadas ao deus supremo Obatalá e a outros orixás Funfun, que são aqueles de roupas brancas”. Isso porque a brancura de Obatalá representa a paz, a saúde e a pureza, e as mulheres, enquanto menstruadas, estão impuras e poderiam contaminar o ambiente. A razão da mácula desse sangue é justamente por ser rejeitado, expulso pelo próprio corpo, prova de que esse seria um sangue ruim. Desse modo, “ele teria de ser liberado para que a mulher voltasse a entrar no ciclo fértil”, conta Ivete. 

Entre eles, havia a constante preocupação sobre o que fazer com o pano sujo, pois caso não tratado corretamente poderia servir para feitiçarias. Não podia ser queimado, isso poderia causar danos físicos a dona da substância; tampouco enterrado, já que o sangue poderia ser encontrado por alguém com más intenções. Assim, o costume era lavar os panos em água corrente.

Atualmente, a Nigéria é um país fortemente muçulmano que já segue os padrões dos absorventes globais. Ainda assim, de acordo com Ivete de Almeida, uma pesquisa mostrou que na área rural, muitas mulheres dão preferência ao antigo pano de algodão, que era amarrado entre as pernas, feito lutadores de sumô, por não darem alergia ou corrimentos.

A historiadora explica ainda que o uso de panos entre a camada popular no Brasil está mais relacionado com uma origem africana do que europeia. As mulheres pobres medievais da Europa não usavam quaisquer métodos para a contenção do sangue, de maneira que elas apenas sujavam pernas e depois se lavavam. 

Pela enquete online, absorventes tradicionais e externos estão entre as formas mais empregadas na hora de impedir que o sangue suje as roupas, com 75,3% e 15,9% de prevalência, respectivamente. 

Das 251 mulheres, 189 usam absorventes tradicionais [Imagem: reprodução]


Mas não foi há muito tempo que os panos predominavam. Na família de Anair, pelo menos, usavam-se “uns lençóis velhos”. “E às vezes a gente não sabia bem e ele dava um cheiro”, diz. Depois de sujos, Anair ia até um tanque que ficava a 200 metros de sua casa para lavá-los escondida. Mais tarde, esses panos foram substituídos por outro muito utilizado para confeccionar casacos de inverno — chamado Pelúcia — que absorvia muito mais. Absorvente foi só depois de casada. A aposentada relata que, de primeiro, achou “bem esquisito”, pois, para ela, além de não absorverem tanto, eles não tinham alça e não ficavam muito firmes. Hoje, a maior parte das mulheres abandonou os panos, mas os tabus, ainda que com menos força, se mantém pelas gerações.

 

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