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Milton, 72 anos de travessia
Escuta Aí
26 out 2014 | Por Jornalismo Júnior

Milton Nascimento é mineiro de coração nascido nos cantos cariocas de Vila Isabel, de onde veio o samba de Noel Rosa e Martinho da Vila. Mineiro já de batismo: a junção das primeiras sílabas do seu nome completo, como bem percebeu o amigo Rúbio Veiga, dá em “Minas”, que acabou intitulando seu álbum de 1975, dedicado a Rúbio. Mas além desse nome tão grande na música brasileira, assim como é Chico Buarque ou Caetano Veloso, existe um Bituca sensível, forte, que tem como grande prazer na vida conhecer as pessoas.

 

“Sou do mundo
sou Minas Gerais”

Ainda bebê ele foi adotado por Lília e Josino, já que nem a mãe e nem a avó biológicas tinham condições de criá-lo, e passou a viver em Três Pontas, cidade do sul de Minas Gerais. Era um ambiente de muita música e muito amor: “minha infância, minha família, eu devo tudo à minha família”, contou numa entrevista ao jornalista e amigo de longa data Márcio Borges. Desde os primeiros anos de vida, Milton mostrou seu lado musical, cantando, batucando no piano, tocando – ao mesmo tempo – a gaita e a sanfona, inventando músicas para os personagens de desenho que via. É dessa época também o apelido Bituca, dado por Lilia em “homenagem” ao bico que ele fazia quando contrariado.

 

“Todo artista tem de ir
aonde o povo está”

Na mesma rua morava Wagner Tiso, futuro pianista e arranjador, que cedo se tornou amigo de Bituca e companheiro em vários grupos musicais ao longo do tempo: o Luar de Prata, os W’s Boys, o Berimbau Trio, o Som Imaginário e o mais famoso, o Clube da Esquina. Juntos, na adolescência, já engataram numa carreira musical profissional, rodando numa Kombi por estradas e palcos para cantar e tocar tudo que era tipo de música.

 

“Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos”

Em Belo Horizonte, morando em pensão e trabalhando com datilografia, Milton se aproximou da família dos vizinhos Salomão, Marilton, Márcio e Lô Borges. Márcio conta que em 1964 assistiu com Milton ao filme Jules e Jim, de François Truffaut, e foi um marco: surgiu o desejo de não só cantar os outros, mas criar o seu próprio som. Juntos em casa, na mesma noite, terminaram com Novena, Gira girou e Crença prontas. A partir daí, tanto Milton passou a desenvolver seu lado compositor como se aprofundaram as parcerias que seriam a semente do Clube da Esquina.

 

“Invento o cais
e sei a vez de me lançar”

Em 1966, a música Canção do sal foi gravada por Elis Regina, por quem Milton tinha um carinho enorme. Participou do Festival Berimbau de Ouro no mesmo ano com uma canção de Baden Powell e Lula Freire e, em 1967, ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção por Travessia, feita com Fernando Brant. A música deu nome a seu primeiro disco, lançado no mesmo ano, que ainda tinha uma sonoridade e instrumentação que lembravam a bossa nova.

 

“Coração americano
um sabor de vidro e corte”

No ano da separação dos Beatles, 1970, Para Lennon e McCartney abria o disco “Milton” e chamava atenção para a nova música feita pelo grupo mineiro: própria e autêntica, agora com colaboração do Som Imaginário, Lô Borges e Toninho Horta. O álbum vinha da recente experiência de Milton com trilhas sonoras e tinha como uma das faixas Clube da esquina, antecipando o que viria em 1972.

 

“E a vida se cansa na esquina 
fugindo, fugindo 
pra outro lugar”

Clube da Esquina, grupo musical surgido da amizade entre Milton e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô).

O “clube” surgiu na esquina entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis, em BH, onde se reuniam Milton, Márcio, Lô, Wagner, Toninho, Beto Guedes, Fernando Brant, Flávio Venturini e outros para cantar e tocar violão. Quando finalmente gravaram, em 1972, fizeram um dos maiores – senão o maior – álbuns da música brasileira, diferente de tudo que tinha vindo antes. Os experimentalismos e inovações na quantidade de ritmos, de tons, na voz como instrumento, no violão harmônico-percussivo, na ambiência deram densidade às músicas que não eram nem bossa nova, nem rock, nem psicodelia, nem latino, nem jazz, nem regional, mas uma síntese de tudo isso. Unido às letras poéticas, o resultado é um som tão único e bonito que nem vale a pena falar demais.

 

“Tenha fé no nosso povo
que ele resiste”

Em 1973, no governo Médici, Milton teve censuradas quase todas as letras do disco “Milagre dos peixes”, que foram então substituídas somente por vocalização. E mesmo a voz e os sons experimentais incomodaram a censura. Essa era uma das características marcantes de Milton, desde quando tocava sanfona na infância ou contrabaixo no Berimbau: usar a voz como instrumento e os falsetes como opção de timbre – o que influenciou por exemplo Maurice White, da banda norte-americana Earth, Wind & Fire.

 

“Nada a fazer
senão esquecer o medo”

“Minas” (1975) continua com experimentações próprias, como o coro de quatro meninos que permeia todas as músicas, e letras com temáticas políticas que não ficaram datadas, ou resgatando memória como em Ponta de areia e Saudade dos aviões da Panair. “Geraes” (1976) abre com o mesmo acorde que fecha “Minas” e tem sonoridade menos densa, mais acústica. Permanece em ligação com a América Latina que sofria com ditaduras, tendo participação de Chico Buarque, Mercedes Sosa e do grupo chileno Agua.

https://www.youtube.com/watch?v=q0RjFhymjho

 

“Preciso aprender os mistérios do rio
pra te navegar”

O Clube da Esquina teve retorno em 1978, com “Clube da esquina 2”, do qual participaram também Francis Hime, Elis Regina, Gonzaguinha, Chico Buarque e muitos outros. Dali saiu o sucesso Maria Maria, escrito com Fernando Brant. Mas com “Caçador de mim”, a partir dos anos 1980, Milton foi deixando de lado o som “sujo”, experimental, sem que perdesse o prestígio de antes. Coração de estudante tornou-se hino das Diretas Já e, em 1994, Canção da América, do eterno verso “amigo é coisa pra guardar debaixo de sete chaves”, foi tocada no funeral de Ayrton Senna. No mesmo ano lançou o álbum “Angelus”, que ele considera seu preferido e que tem participações de Herbie Hancock, Pat Metheny, Naná Vasconcelos e James Taylor. Mundo afora Milton faz sucesso há muito tempo, tendo na bagagem quatro premios Grammy e shows com gente como Sarah Vaughan, Paul Simon, Quincy Jones e Sting.

 

“Cantando me desfaço
e não me canso de viver
nem de cantar”

Depois de mais de trinta álbuns, trabalhos para cinema e teatro, Milton não parou e, recentemente, tem feito shows com Criolo e Lô Borges, companheiro do Clube. Se ele receava, com a loucura da fama, não poder mostrar seu lado Bituca porque Milton Nascimento é grande demais, um alívio é saber que a música de Milton Nascimento é o Bituca entregue: caçador de si, com sensibilidade, coragem, independência. Ainda tímido, mas não calado; ainda misterioso, mas não turvo. É uma voz “de bronze” quente inconfundível e uma devoção à música que colocam Milton num espaço próprio de Minas, do Brasil e do mundo todo.

Por Barbara Monfrinato
bmfmonfrinato@gmail.com

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