Home Eu Fui Miss Brasil 2019: a fraqueza de um discurso vazio
Miss Brasil 2019: a fraqueza de um discurso vazio
Eu Fui
11 mar 2019 | Por Jornalismo Júnior

 

Na noite de sábado do dia nove de março, ocorreu, no São Paulo Expo, o concurso de escolha da Miss Brasil 2019. A disputa das 27 mulheres pela coroa vem inovando com a ideia de que a escolhida seja uma porta-voz de todas as mulheres brasileiras, uma Miss que vai lutar contra a desigualdade de gênero, feminicídio e padronização feminina. Além de temáticas essenciais de discussão na sociedade contemporânea, como questionar a força e o papel da mulher, questiona-se, também, a ineficácia desta pauta em concursos de beleza.

A maior patrocinadora do concurso é a Polishop. Com a nova linha de cosméticos,  Be Emotion, a marca faz, há cinco anos, grandes investimentos na competição. Também  tenta “trazer o glamour de volta do concurso”, como disse o criador e CEO da marca, João Appolinário, ao Sala33. Com a intensa presença da Polishop, o concurso, além de agora receber o nome de Miss Brasil Be Emotion, reitera a importância da parceria por meio de grandes stands no local, vendendo desde produtos domésticos até a linha de maquiagem.

A importância da Polishop no evento mostrou-se evidente ao atravessar as fileiras de cadeiras pelo salão. A grande maioria das cadeiras estava reservada para consultores e membros da própria empresa, e apenas uma pequena parte era destinada à imprensa e área vip, onde havia parentes, amigos e misses de anos anteriores e outras franquias. Não houve venda de ingressos, o que fez com que o público da Miss Brasil 2019 fosse composto, primordialmente, por membros da Polishop. Estabelece-se um questionamento: o evento ainda lucra e é consumido pela sociedade? Se a venda de ingressos fosse aberta, aquele salão estaria ocupado? Considerando que este tipo de concurso tem sido, cada vez mais, questionado e problematizado em função dos novos valores da sociedade, é provável que não.

 

Os discursos

Primeira sessão de perguntas e respostas da noite. Este momento envolveu as 15 classificadas, que tinha menos de 30 segundos para responder questões, muitas vezes, complexas. Foto: Laura Scofield/ Jornalismo Júnior

O evento clamou pela representatividade da mulher. Abordou-se feminicídio, desigualdade de gênero, o papel de uma Miss na sociedade e desvinculação da ideia da Miss apenas como um rosto e corpo bonitos. Os discursos da diversidade e da sororidade – união entre mulheres – foram um dos pilares da noite. Eficientes? Provavelmente não. Com a maioria das meninas sendo brancas, magras e de cabelos lisos ou encaracolados, o discurso, se analisado, é vago. Dentre as cinco finalistas, todas eram brancas de cabelo escuro e liso. Mulheres fora do padrão do corpo magro nem ao menos tem lugar no concurso. Não se fala disso. A partir de um olhar profundo, a ideia cai em si mesma: o discurso é bonito, mas a diversidade, inexistente.

O padrão ainda é a supremacia.

Top 5 do Miss Brasil 2019. Na ordem, as representantes do Ceará, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio Grande do Norte e Minas Gerais. Foto: Laura Scofield/ Jornalismo Júnior

Enquanto lemas como “Lute como uma Miss” são ovacionados pela produção e família Polishop –  como a maioria do público era identificado – , as temáticas trazidas são reiteradas como essenciais em uma nova era de concursos de beleza, em que prerrogativas e discursos feministas e de direitos iguais ascendem na sociedade. A mulher, pelo evento, seria capaz de enaltecer tal força feminina.

As perguntas às candidatas foram elaboradas de forma a confirmar essa nova visão da mulher que o concurso está tentando trazer. No entanto, com menos de 30 segundos para a resposta, a imagem de mulheres fúteis em programas de beleza é intensificada. Como dar uma resposta sobre meios para combater a desigualdade de gênero em segundos? Ou debater feminicídio e enaltecer a força das mulheres? É possível propor uma resolução que melhore o país em meio minuto? Não. Assim, respostas banais são ditas e tornam-se motivos de vergonha alheia e comédia, enaltecendo a imagem de apenas um rosto bonito. A ideia de fortalecer o conhecimento e empatia não passa de um teatro, de uma tentativa ineficiente de trazer conteúdo a um concurso que se baseia na ideia de fazer mulheres competirem entre si pela afirmação de beleza.

“Lute como uma Miss” foi o slogan que guiou a intervenção no Miss Brasil 2019 contra a violência contra a mulher. Foto: Laura Scofield/ Jornalismo Júnior

O programa falha em superar o preconceito contra as mulheres ou os estereótipos que a sociedade ainda carrega. “O que você escolheria: um livro, um chocolate ou uma jóia?” foi a pergunta que o apresentador Cássio Reis fez à candidata do Espírito Santo, que foi tomada como parâmetro para decidir uma Miss Brasil e trazer empoderamento feminino para além da beleza e futilidade. Thainá Castro, a Miss Espírito Santo 2019, respondeu “livro”, como esperado por toda a plateia. A tentativa de fugir do estereótipo da mulher superficial e passar inteligência pareceu forçada, e a culpa, como na maior parte dos casos, não foi da mulher. Existiria outra maneira de responder àquela pergunta sem colocar uma carreira em jogo? Certamente, não.

Além de tudo isso, vale considerar que concursos deste tipo são antigos e surgiram em outro momento, no qual as prioridades e valores eram diferentes. O discurso muda, mas tal mudança não é suficiente para repensar as raízes da competição. Um dos momentos emblemáticos é o confinamento, que é quando as competidoras ficam em um espaço isolado com rotina de ensaios e atividades bastante regrada. A duração é de 10 dias. Vale lembrar que esta etapa da competição sempre desperta rumores sobre restrições alimentares e grande pressão às participantes. Porém, quando entrevistada pelo Sala33, Sayonara Moura, a Miss Acre 2019, afirmou que, mesmo que a rotina de ensaios tenha sido bastante pesada, elas foram sempre muito bem cuidadas.   

Outra questão que preocupa é a grande aclamação das evoluções do concurso e pouco reconhecimento do que ainda pode ser superado. O fato de duas das últimas vencedoras serem negras é realmente uma evolução, mas, ainda assim, é um passo dentre os muitos que ainda devem ser percorridos. Ademais, não é como se elas tivessem ganhado em função de políticas afirmativas. Eram mulheres qualificadas e, sim, muito bonitas. A própria afirmação de tais acontecimentos como grandes fatos já mostra a falta de organicidade dessas pautas no concurso.

Porém, nem tudo são críticas. O Miss Brasil 2019 aconteceu no dia seguinte ao Dia Internacional da Mulher, oito de março, no qual as ruas de grande parte das cidades do mundo foram ocupadas por mulheres que clamavam pelos seus direitos. A produção do evento não ignorou a data. Pouco depois da metade do concurso, o clima ficou mais sério e tenso, e todas as mulheres – as misses, classificadas ou não, e as apresentadoras – foram ao palco para falar sobre a violência contra a mulher. O lema “Lute como uma Miss” apareceu no telão e foram feitas falas alarmantes sobre feminicídio e abuso.

Houve acerto também por parte do patrocínio da Polishop. O Miss Brasil, diferentemente do Miss Universo, oferece apoio considerável às participantes. No Miss Universo, por exemplo, cada uma é encarregada de seu vestido e outros utensílios, enquanto, na competição brasileira, tudo isso é bancado pela Polishop. João Appolinário conta que esta é uma característica importante para garantir a democratização e maior inclusão do concurso. “É um concurso de beleza, não um concurso de quem tem mais condições de ter um vestido ou sapato bonitos”, ele disse ao Sala33.

Muitas das misses participantes, da edição de 2019 ou anteriores, também demonstraram criticidade a respeito de pautas sociais. Em entrevista ao Sala33, Raissa Santana, Miss Brasil 2016 e Top 13 no Miss Universo, a primeira Miss Brasil negra depois de Deise Nunes, que foi coroada em 1986, afirma que sua vitória no concurso foi um marco. Porém, nem tudo foi comemoração: “também foi triste perceber que o país demorou 30 anos para eleger uma Miss negra, sendo que a metade da nossa população é negra.”

Quando questionada se ainda existem obstáculos a serem superados pelo concurso, Raissa respondeu afirmativamente e completou ao dizer que sua vitória é apenas “uma ponta do iceberg”. “É uma coisa pequena perto do tanto de diversidade que temos e de meninas diferentes que podem ganhar e nos representar.” Ela citou o caso do Miss Universo 2018, que trouxe a primeira miss transgênero na franquia universo, Angela Ponce, representando a Espanha. Para Raissa, este é apenas o começo, “tem muita coisa por aí.”

Na ordem, Mayra Dias (Miss Brasil 2018), Monalysa Alcântara (Miss Brasil 2017), Júlia Horta (Miss Brasil 2019), Raissa Santana (Miss Brasil 2016) e Marthina Brandt (Miss Brasil 2015). Foto: Laura Scofield/Jornalismo Júnior

Assim, é válido dizer que alguns avanços são importantes e devem ser aplaudidos. Porém, é inevitável questionar se é realmente possível transformar um concurso de beleza em algo saudável e inclusivo, afinal, este tipo de competição prega um padrão e o hierarquiza. Além disso, mesmo que o discurso dos organizadores e das próprias misses afirme que, atualmente, a beleza não seja o mais importante, a forma com a qual o evento é conduzido vai contra esta ideia. Pode-se dizer, sem forçar, que o concurso é hipócrita.

Se a empatia, carisma e conhecimento têm o mesmo peso que a beleza física, por que a incontestável predominância de desfiles em comparação às perguntas e falas? Enquanto grande parte da apresentação é feita com as meninas expondo seus corpos em passarelas, pequenos segundos são reservados à parte de perguntas e respostas. E quando as perguntas são feitas, elas mais ridicularizam do que elevam e demonstram o conhecimento das experientes mulheres ali presentes – grande parte delas tem curso superior, além de grande experiência de vida, por terem saído novas de casa para construir a própria carreira.

Portanto, pode-se concluir que, em geral o concurso continua reafirmando os preconceitos e estereótipos que acompanham o dia a dia das mulheres.Tentativas de mudar são feitas, sejam elas estruturais – no roteiro do evento – ou individuais – a partir do enfoque de cada participante, porém, nenhuma delas parece tão efetiva. Mesmo que, a todo momento, as expressões empoderamento, sororidade, força, atitude e opinião própria sejam ditas, na prática, a voz é silenciada e a corpo é exaltado.

Assistir o show é repensar pragmáticas da sociedade que ainda precisam ser superadas e questionar a eficácia dos discursos na transformação do pensamento. Misses têm responsabilidades em seus mandatos, mas os produtores do projeto dão aval para que tal poder de mudança seja realmente efetivo? A organização do evento possibilita que as competidoras se mostrem como as mulheres fortes e experientes que são? Depois de uma longa cobertura, seguida de processo de apuração e reflexão crítica, o Sala33 tem uma resposta e, infelizmente, ela é negativa.

A Miss Brasil Be Emotion 2019

A vencedora da noite foi Júlia Horta, nativa de Juiz de Fora e representante do estado de Minas Gerais. Não foi uma surpresa para ninguém. Ela vinha se mostrando como a favorita na competição em todos os desafios e também por parte jurados. Com um discurso de fazer transformações em seu reinado, ela foi a escolhida, tanto pelo voto popular –  na seleção das quinze finalistas – , tanto pelos jurados.

No primeiro vídeo após ganhar a coroa, Júlia reforçou o compromisso de ser uma representante para a mulheres brasileiras e lutar pela sororidade. Um discurso mais engajado e político também esteve presente em sua resposta na parte final de perguntas às misses. Ela afirmou que o Brasil vive uma situação complicada, ressaltando a importância do voto e da escolha consciente dos representantes. A Miss São Paulo, Bianca Lopes, também fez um discurso mais politizado em sua última resposta, o que a angariou grande  interação da plateia.

Júlia Horta, a Miss Brasil 2019 durante o desfile de gala. Foto: Laura Scofield/Jornalismo Júnior

 

Produção e imprensa

Após o final do concurso, foi permitido que os fotógrafos subissem ao palco. A grande estrela do momento era Júlia Horta, que se revezou para tirar fotos com as personalidades presentes. Alguns momentos foram de tensão, com alguns produtores agindo de forma mal educada com a imprensa e presentes. Conseguir uma entrevista com Júlia era quase impossível, o que foi intensificado pela falta de organização com filas, desrespeito com a ordem de chegada e pouco diálogo. Outros organizadores, porém, foram profissionais e respeitosos.

 

Por: Laura Scofield (lauradscofield@usp.br)

Sofia Aguiar (sofia.aguiar@usp.br)

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*