Home Guardarroupa Moda Russa: do Clássico ao Contemporâneo
Moda Russa: do Clássico ao Contemporâneo
Guardarroupa
03 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Fernanda Pinotti/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Esse texto faz parte do Especial da Rússia da Jornalismo Júnior. Para mais textos, clique aqui

“Moda” e “Rússia” podem parecer, para muitos, não combinar na mesma frase. O frio congelante e seu povo fechado aos olhos ocidentais muitas vezes dão a entender que, para o russo, qualquer vestuário que esquenta, serve. Mas isso não é verdade. Com uma moda que se entrelaça a um rico contexto histórico, a Rússia traz consigo não apenas o luxo e o glamour dos casacos de pele dos aristocratas, mas também o duro cotidiano do proletariado e suas lutas em cada lenço, luva, e roupas com três listras.

O Sala33 reuniu as principais épocas da moda russa e seus respectivos momentos históricos para quebrar este paradigma e mostrar um pouco mais da cultura têxtil deste país.

 
BELLE ÉPOQUE

No final do século XIX e começo do XX, reinava o ideal da “mulher-flor”. Com espartilhos que alongavam a silhueta e estofamentos nos seios e nos ombros, as russas precisavam se encaixar em manequins de até 45 centímetros. Aparentando o formato de uma flor, suas longas saias em formato de sino terminavam em caudas suntuosas.

Chapéus pesados e cores pastéis demonstravam uma tentativa de se agarrar ao antigo, e muitas vezes seus enfeites chamavam mais atenção que os da moda ocidental.

Esquerda: retrato de russa no final do século XIX, com vestido semelhante ao contorno de uma flor. Direita: foto de jovem com espartilho revela a difícil tarefa de manter uma cintura tão fina neste momento da moda.
(Foto: Getty Images)

 

PRIMEIRA GUERRA

Já no século XX, a Rússia começou a aparecer no cenário mundial da moda. Com a fama dos Ballets Russes em Paris, surge o chamado “Ocidental à russa”, em que a veste tradicional da Rússia avança pela Europa com variantes de seu corte diagonal, bordado ornamental e chapéus inspirados pelo modelo “kokochnik” (chapéu tradicional feminino russo).
Algumas aristocratas russas em exílio na Europa tornam-se as principais modelos para estilistas famosos da época, como Coco Chanel e Jeanne Lanvin.

Olga Baclanova, atriz russa em Hollywood, usando um kokochnik

Na década de 1910, os carros fazem com que as saias encurtem e os chapéus diminuam, dadas as dificuldades de se entrar e sair deles com a moda antes presente. O guarda-roupa masculino começa a apresentar camisas coloridas, calças bombacha, chapéus Panamá e quepes.

Com o avanço da Guerra, mudanças mais drásticas aconteceram. Espartilhos foram deixados de lado, as saias tornaram-se ainda mais curtas, assim como os cortes de cabelo femininos, e a simplicidade no modo de se vestir tornou-se tendência. O patriotismo levou a elite a comprar roupas produzidas no próprio país. As roupas das mulheres começaram a se assimilar às vestimentas militares e às usadas por professores e estudantes.

Estudantes russas em São Petesburgo com roupas típicas do momento, 1913. (Foto: Ria Nôvosti)

REVOLUÇÃO RUSSA

Em 1917, a Revolução Russa passa a exercer sua influência sobre a moda. Ideologia e dificuldades econômicas fazem o guarda roupa civil russo ser preenchido por casacos de couro e roupas passam a ter corte reto e são feitas principalmente de lona, linho ou tecidos militares.

O feminismo também marca presença na moda russa. Lutando por ideais de igualdade, as soviéticas tornam o lenço que usavam debaixo do queixo em símbolo da emancipação feminina, e passam a usá-lo na parte de trás da cabeça.
Além disso, surge também outro gesto que demonstraria todo o apelo por igualdade entre homens e mulheres. O inverno russo exige que as mãos sejam cobertas por luvas, mas ao cumprimentar alguém, se faz necessário retirar a luva da mão direita como sinal de respeito. Antigamente, esta regra se aplicava somente aos homens, uma vez que a luva em mulheres era vista como uma continuação do traje feminino. Com a União Soviética, as mulheres passam também a retirar suas luvas, alegando: “Eu não sou uma mulher, eu sou uma camarada”.

Assim, a moda feminina começa a se aliar com a masculina, tentando dissuadir a diferença entre homem e mulher. Camisas e jaquetas militares e outras vestes masculinas passam a fazer parte do guarda roupa feminino. É nesta época que surgem os primeiros gêneros de imprensa feminina na União Soviética. As revistas passam a incluir editorias como “educação política” e “produção industrial” a “economia doméstica” e “pedagogia”, que passam a ocupar menor número de páginas.

O governo soviético começa a perceber a relevância da moda na manutenção ideológica do regime e nisso tem importante participação a estilista Nadejda Lamanova com sua proposta de criar um ateliê de moda contemporânea. Desenvolveu então, a partir de lenços e toalhas de mesa, a moda para camponeses e trabalhadores, o que lhe rendeu o Grande Prêmio na Exposição Internacional de Paris em 1925.

Esquerda: Atriz Alexandra Hohlova usando modelito de Lamanova inspirado nos povos do norte russo. Direita: Lilichka Brik e Elsa Triolet em vestidos inspirados nos povos russos, desenhados por Lamanova

 

LOUCOS ANOS 20

Assim foi chamado o período de abundância que se deu após a implementação da Nova Política Econômica. A importação de roupas europeias começou a surgir e a moda soviética passou a adotar algumas tendências ocidentais: ternos Marengo, botas de feltro, calças Oxford, vestidos de cintura baixa, entre outros. Os mais fervorosos passaram a copiar o estilo das estrelas de cinema.
Também foi fundada a escola de Vkhutemas, estúdio de arte do Estado que viria a implementar a futura tendência russa: o design industrial soviético. A partir de 1932, o estilo russo passou a ser conhecido como “multidão cinza”.

Coco Chanel com o dançarino russo Serge Lifar em 1937. (Foto: Jean Moral)

 

ADIDAS NA RÚSSIA

A grife esportiva alemã possui uma presença um pouco mais que marcante na Rússia, sendo não apenas popular, mas parte da própria cultura do país. O artigo de maior prestígio no estilo urbano russo é sem dúvida a famosa tracksuit, peça mais emblemática da marca na região. A Adidas, no entanto, não está apenas nas roupas dos russos. A grife se tornou parte tão profunda da estilística popular que todo objeto está sujeito a uma customização especial com as famosas três listras (característica que já se tornou música no país!).

Foto: Russia Beyond

Mas como a marca se tornou tão prestigiada, não apenas na Rússia, mas também por boa parte do leste europeu? A história de amor entre os russos e a Adidas se inicia durante o período soviético, mais precisamente em 1980, quando as Olimpíadas foram sediadas em Moscou, na época capital da URSS. Nesta edição do evento, a Adidas foi a fornecedora dos uniformes para o time soviético, com algumas alterações feitas para dissociá-los dos times ocidentais: ao contrário das famosas três listras, o time levava em seu uniforme apenas duas.

Time de handball feminino soviético, nas Olimpíadas de 1980. (Foto: Weird Russia)

Apesar da popularidade, obter um item original da grife, assim como a maioria dos produtos ocidentais, era custoso e trabalhoso. Isso levava a peças falsas serem importadas para a URSS, além daquelas que já eram produzidas dentro do país. Tendo em vista o acesso limitado a esses produtos, mesmo com fábricas de calçados da marca instaladas na URSS, se recorria às versões chinesas ou tchecas disponíveis no mercado soviético. Devido à dificuldade de obtenção e altos preços, a grife logo se tornou um marco da alta sociedade na Rússia Soviética, deixando um legado que dura até hoje.

A popularidade das roupas e calçados Adidas cresceu ainda mais quando, nos anos 90, emerge na Rússia uma “sub-cultura” criminal: os chamados “Gopniks”. Se chamam de gopnik aqueles que têm (ou querem parecer que têm) afiliação com gângsteres e criminalidade. Esse grupo adotou a tracksuit Adidas devido a diferentes motivos. As peças eram usadas por presidiários russos e havia um desejo de imitá-los. Existe também o fato de muitos criminosos contratarem ex-atletas – que possuíam e usavam as roupas – como seus guarda-costas. O surgimento e popularização da “estética” gopnik levou à associação direta do estilo russo com a marca Adidas, sendo a origem de diversos memes que retratam os russos (além de outros povos eslavos) como aficionados pela marca.

 

Os gopniks são conhecidos por ter envolvimento com o crime na Rússia, e ajudaram a propagar o sucesso da Adidas no país. (Foto: Medium)

Atualmente a Adidas, como parte integrante da moda e cultura russa pós-soviética, continua sendo influente no estilo do país. Porém, devido à abertura da cortina de ferro, a grife se misturou às centenas de outras marcas ocidentais, se encontrando em um cenário muito parecido com o Ocidente no quesito popularidade e preço. Apesar de imensamente mais popular que outras marcas esportivas, a Adidas continua com altos preços, em uma situação muito parecida com países como o Brasil: a famosa tracksuit chega a custar 8000 rublos (cerca de 470 reais) e o calçado mais famoso da marca, o superstar, 6700 rublos (cerca de 400 reais).

A tendência do estilo russo, no entanto, vem se modificando com o consumo dos jovens russos da cultura ocidental, principalmente estadunidense. Gleb Zorin, jovem russo que conversou com o Sala33, comenta sobre o que faz sucesso em seu país hoje: “Aqui já passou a moda da Adidas, só tem os sapatos que todos gostam. Mas isso acontece no mundo todo.”, explica. “Depois da música Gucci Gang (canção do rapper Lil’ Pump), criaram muitas músicas na Rússia imitando esse estilo americano. Agora tem muita tendência da Gucci que os chineses já começaram a fazer bem barato”, comenta Gleb sobre a nova moda no país.

E PARA A COPA?

Além de ser a fornecedora oficial para o time russo, a Adidas, em uma tentativa de comemorar o país onde se fez tão popular, lançou uma nova linha de produtos esportivos com a estampa – não da Rússia – mas da União Soviética.

Uma das camisetas da polêmica linha lançada pela Adidas (Foto: Reprodução)

A linha lançada este ano atraiu diferentes olhares para a marca. Consumidores ucranianos não se agradaram com a estampa, ressaltando que o regime soviético trouxe sofrimento à região, relembrando os campos de trabalho forçado e presos políticos. Os artigos esportivos renderam críticas do Ministério de Comunicação Estratégica Estrangeira da Lituânia (ex-república soviética), que acusou a marca de “nostalgia imperialista”, recebendo de volta desaprovações do Ministério Estrangeiro da Rússia, que alegou que o país báltico havia esquecido do “sucesso heróico” dos atletas lituanos sob a bandeira soviética. A grife retirou a linha do mercado em resposta às reprimendas.

Por Marcus De Rosa e Lígia Andrade
mesderosa@usp.com | ligia.andradem@gmail.com

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*