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Não deixa a EMESP morrer
Escuta Aí
22 out 2015 | Por Jornalismo Júnior

Na esquina da Sala São Paulo, o prédio da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) é ocultado pelo comércio da Rua Mauá. Conforme me aproximei da melodia de vozes e instrumentos do recital no andar térreo, o edifício de seis andares se agigantou no Largo General Osório. Atrasada, tentei entrar despercebidamente pelo canto da sala 211, enquanto o professor britânico Jon Thorne corrigia um jovem violista brasileiro, no entanto, fui simpaticamente acolhida com um “Welcome!” e a aula continuou normalmente escancarando maneirismos e se animando com trocadilhos em inglês por mais de três horas até o intervalo.

A master class, aula ministrada por profissionais estrangeiros com orientações individuais aos alunos, é uma das vias mais importantes de intercâmbio cultural na formação dos nossos músicos, que, apesar do descaso governamental e de não gozarem de grande fama no país, conquistam colocações privilegiadas nos conservatórios internacionais.

Guilherme Moraes

Guilherme e outros cinco alunos da Emesp partiram para a Europa no mês passado.(Foto: Reprodução)

 

Guilherme Moraes, violoncelista de 18 anos, viajou para a Áustria na última semana de setembro para estudar os quatro anos da graduação de Música no Mozarteum University of Salzburg. Ele cursou a Emesp durante 7 anos e, em 2013, entrou na Orquestra Jovem do Estado, uma das vertentes da escola. Em 2014, foi contemplado pelo Prêmio Ernani de Almeida Machado, na categoria “Bolsista de Destaque”.

No início do ano, foi aprovado em primeiro lugar no Instituto de Artes da Unesp e, através do Festival Ilumina, conseguiu o apoio do Instituto Elga Marte, criado para alavancar jovens no estudo da primeira arte, que bancará sua graduação. Após se formar, Guilherme pretende voltar ao Brasil e se dedicar ao ensino da música em projetos semelhantes, estendendo a oportunidade que teve para as gerações que, provavelmente, serão impactadas pelos cortes na cultura do estado.

 

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Campanha Salve a Emesp é uma forma de resistência criada por alunos (Foto: Grêmio Estudantil da Emesp)

 

A Emesp Tom Jobim

Fundada em 1989, no bairro da Luz, a Emesp visa tanto a formação quanto o aprimoramento de músicos profissionais. Considerando a idade, a habilidade e o conhecimento teórico, os musicistas são selecionados e divididos em 4 ciclos, que, ao todo, somam, no mínimo, uma década de aprendizado. Mais de 50 salas de estudo individual ou coletivo comportam dezenas de pianos, uma biblioteca com acervo de 20 mil livros e, infelizmente, 200 alunos a menos.

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Ato faz parte da articulação contra os cortes organizada pelo grêmio estudantil. (Foto: Grêmio Estudantil da Emesp)

 

Em fevereiro, o governador Geraldo Alckmin assinou um decreto que convocou a Secretaria da Cultura do Estado a cortar, ao menos, 5% de seu orçamento. Ao contrário do que o governante preconiza, a redução fragiliza inevitavelmente a prestação dos serviços culturais. No dia 22 de abril, funcionários, professores e alunos da Emesp foram surpreendidos pela demissão, corte de vagas e diminuição de bolsas na instituição, pois cerca de 2,6 milhões de reais foram cortados do investimento anual da escola, previsto em 23 milhões.

Segundo a aluna e representante do grêmio emespiano, Julia Simões, em 2016, ainda haverá mais uma redução de 3 milhões de reais, calculados no orçamento para o próximo ano, que será votado em dezembro de 2015.

Salve a Emesp

 

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Sessão de fotos busca viralizar a crise da escola (Foto: Grêmio Estudantil da Emesp)

 

A proximidade entre os alunos e professores no meio musical é notável, alguns se tornam tutores na carreira dos aprendizes, e, em razão disso, ambos lutam lado a lado contra o sucateamento da instituição, dividindo as ações entre as entidades. O grêmio movimenta as redes sociais e, mesmo sendo um movimento apartidário, procura o apoio de deputados que defendam os direitos dos artistas. Ao passo que a Associação de Professores e Colaboradores estimula a articulação estudantil e se desdobra para suprir os vácuos na grade curricular. Com a leva de demissões, as turmas inflaram ou tiveram os docentes trocados, o que, por vezes, acarretou no descompasso da matéria. Além disso, os cursos de fagote, correpetição e a Camerata Aberta, um dos principais braços da Emesp, foram fechados.

A integração harmônica do movimento transcende o espaço físico do prédio. A Associação de Pais e Amigos reivindica o direito às bolsas e vagas cortadas. O benefício concedido aos músicos da Orquestra Jovem do Estado foi reduzido em 4,6% e o da Banda Jovem do Estado, em 17%. Mesmo após selecionados, duzentos dos mil e quinhentos jovens aprovados na instituição não puderam concluir a matrícula por causa do trancamento e diminuição dos cursos.

Além das recentes perdas, o relatório de 2014 da Emesp já constava que 35,4% dos alunos demandavam a melhora na infraestrutura e que 20,7% estavam insatisfeitos com a localização do prédio. Recentemente, a construção foi pintada e, ao que se sabe, a verba era destinada estritamente para essa função e seria reavida pelo governo caso não fosse utilizada.

 

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“Quando você vai escolher as notas, você também tem que escolher as cores e a doçura delas” Thorne dá dicas ao emespiano. (Foto: Larissa Lopes)

 

O grau de satisfação com o corpo docente, em contrapartida, cativa 99% dos estudantes. “[A Emesp] Foi muito essencial para o meu amadurecimento musical e conhecimento técnico. Eu cresci como músico por causa da Emesp e pelos meus professores de lá. Foi fundamental, sem dúvida. Eu não sei o que dizer, sou grato dentro do meu coração”, contou o violoncelista Guilherme.

“A EMESP não é só uma escola de música pra alunos ou profissionais da área. É um ponto de contato. Por aqui temos oportunidades de, por exemplo, conseguir bolsa de estudos no exterior, em lugares como o Conservatório de Paris, Amsterdam etc”, ressalta Júlia. “Todo ano temos contato com profissionais estrangeiros, tanto em festivais como aqui mesmo na escola, em master classes”.

Na entrada do edifício, fumando e ouvindo o Tico-tico no fubá do recital, o professor da Royal Academic of Music, Jon Thorne, – que, aliás, tem uma aluna de violino brasileira – disse que o músico brasileiro é muito aberto ao aprendizado e isso torna o ensino muito mais prazeroso. Ademais, ele acredita que a influência de outras visões e culturas é essencial à escola, “o que já está sendo feito, pois eu estou aqui [risos]”.

 

Campanha Salve a Emesp (Foto: Grêmio Estudantil da Emesp)

Campanha Salve a Emesp (Foto: Grêmio Estudantil da Emesp)

 

Entre anedotas e correção de vícios musicais, os alunos seguem à risca a reflexão do britânico: “A coisa mais importante é a atitude, se você tem atitude, a possibilidade de crescer é muito grande”. Aja em prol da valorização da música brasileira, assine e acompanhe a campanha Salve a Emesp.

Por Larissa Lopes
larissaflopesjor@gmail.com

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COMENTÁRIOS
Ludmilla Freitas
Obrigada pela matéria! :) Nossa escola precisa aparecer e mostrar o quanto a música é importante! É um abuso que, com qualquer crise que acontece no Brasil, os primeiros que sofrem são a educação e a cultura. Menos grana para projetos vultuosos e eleitoreiros e mais cultura no país!
30 out 2015
 
SILVIO SANTANA DE SOUZA
"A gente não quer só comida", a gente quer comida, trabalho, diversão e arte.
29 out 2015
 
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