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No elitismo do cinema, o streaming prospera
CINÉFILOS
29 jun 2019 | Por Thaislane Xavier (thaislanexavier@usp.br)

A apresentação feita pelos irmãos Auguste e Louis Lumiére em 1895, no Grand Café, foi considerada a primeira exibição cinematográfica. Na mostra de Paris, na França, os irmãos exibiram 10 filmes com duração entre 40 e 50 segundos cada. Os curtas eram documentários feitos de forma simples, quase caseira.

Aquilo mostrado pelos irmãos Lumiére foi desenvolvido e se tornou o cinema que conhecemos hoje, com grandes salas espalhadas por todo o mundo que exibem filmes com durações cada vez maiores e cheios de técnicas cada vez mais avançadas.

O cinema se tornou mais que uma atividade apenas de lazer, se tornou algo cultural. As pessoas começaram a enxergar o cinema como um lugar para ir com quem se gosta e discutir as questões abordadas nas sessões.

Com o surgimento dos streamings, no entanto, o futuro do cinema se tornou incerto. As plataformas de exibição de vídeos trouxeram praticidade para o hobby de assistir filmes. Elas podem ser acessadas de qualquer lugar, de computadores à celulares, basta ter acesso à internet. 

O ato de separar um tempo do seu dia para se arrumar e se deslocar até o cinema se tornou, para muitos, algo desnecessário. “A questão dos streamings é que se escolhe o que e quando se quer assistir no conforto de casa, do seu jeito. Se tem mais autonomia”, explica a jornalista, com tese de pós-graduação em cinema, Vanessa Dias Magalhães.

Isso pode ser considerado um ponto positivo para muitos, já que nos tempos de hoje, não há tempo a ser perdido. Mas quando se vai ao cinema, se tem uma troca muito maior de percepção e sensações com as pessoas que estão na mesma sala. Isso é algo que não ocorre em casa assistindo filmes pelas plataformas online.

Para ir ao cinema, as pessoas costumam planejar, se arrumar, sair de casa e estar em contato com as pessoas. A jornalista conta que acompanhou a exibição de um filme em uma escola de periferia, quando uma das pessoas com que  conversou contou sobre ela e a filha terem se arrumado para irem até ali. “Ir ao cinema, então, é se sentir parte da sociedade, é ocupar espaços ainda muito elitizados”, diz Vanessa.

Esse seria um grande problema do cinema. Apesar de promover grandes trocas culturais, ele ainda é uma atividade de elite. “O custo para ir no cinema é alto. Tem-se os gastos com ingresso, com pipoca e com deslocamento”, continua Vanessa. Mesmo sendo uma atividade de maior intercâmbio cultural, o cinema não é acessível a todos, diferentemente das plataformas online.

A maioria das salas está localizada em grandes centros urbanos, longe das periferias e com preços altos. Então, com o dinheiro que uma família gastaria para ir em uma sessão, ela consegue pagar pelos streamings e assistir a quantos filmes quiser, sem a necessidade de se gastos adicionais.

O cinema tem um papel muito importante de representação social e de socialização, mas fica difícil cumprir esse papel quando nem todos conseguem frequentá-lo. Um documentário ou um filme baseado na realidade de periferias brasileiras representam muito mais que os filmes lançados pela Netiflix, por exemplo. 

Mas essas pessoas só conseguem assistir a filmes quando há projetos que os levam até elas. Vanessa conta da exibição de um documentário na Cracolândia, em São Paulo. “Na reprodução do filme Sabotage: Maestro do Canão (2015) várias pessoas com quem conversamos falaram que se sentiam representados e que poderiam ter eles ali naquelas cenas.”

“Nossa, eu achei tão legal ver aquela tela grande, nunca tinha visto uma história ser contada assim”, foi uma frase escutada pela jornalista em outra situação. Isso mostra o interesse das pessoas em assistir filmes no cinema.O problema ainda é a falta de acesso. “Esse tipo de experiência não é algo que se tem em casa pela tela de um celular ou de um computador”, afirma Vanessa.

Os streamings não representam, então, um problema para os cinemas. Eles continuarão existindo e sendo frequentados por aqueles que possuem maior acesso aos grandes centros urbanos. 

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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