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O Brasil nos principais festivais de cinema do mundo: Cannes, Berlim e Veneza
CINÉFILOS
24 jan 2020 | Por Maria Luísa Bassan (malugomesdesa@hotmail.com)

Na 72ª edição do Festival de Cannes, em maio de 2019, o Brasil conquistou dois prêmios inéditos: Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ganhou o Prêmio do Júri, e A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2019) foi o vencedor do prêmio principal da mostra Um Certo Olhar. Mesmo sendo conquistas relevantes, que reforçam o crescente aprimoramento do cinema brasileiro, pouco se comentou sobre os vencedores fora do ambiente especializado em cinema. Além de contribuir para a ideia elitista dessas premiações, o distanciamento do público comum também impede que a produção audiovisual do país, premiada nesses festivais, chegue a mais espectadores.

Além de Cannes, outros aclamados festivais de cinema já indicaram e premiaram filmes brasileiros, mas a falta da proximidade desses eventos com os espectadores comuns e a escassa exibição dos vencedores tornam tais conquistas pouco reconhecidas. Com o intuito de valorizar o cinema brasileiro, aqui estão selecionadas as conquistas do Brasil nos três principais festivais do mundo: o Festival de Cannes, Berlim e Veneza.


Festival de Cannes

O Festival de Cannes, chamado até 2002 de Festival international du film, ocorre anualmente no mês de maio, no Palais des Festivals, em Cannes, na França. Criado em 1946 por Jean Zay, então ministro francês da Instrução Pública e das Belas Artes, o festival surgiu como protesto ao Festival de Veneza que, sob influência fascista, havia premiado um filme alemão e um italiano, ao invés do favorito francês, no final dos anos 1930.

Com o intuito de exibir e promover produções cinematográficas do mundo todo o festival, nos dias de hoje, conta com três mostras principais: Competitiva, Un Certain Regard (Um Certo Olhar) e Cinéfondation (Cine-fundação). A primeira conta com os filmes que irão disputar o principal prêmio – a Palma de Ouro. Além desse, outros prêmios são entregues na mostra: Grande Prêmio, Prêmio do Júri, prêmio por interpretação feminina, por interpretação masculina, pela melhor direção e pelo melhor roteiro. Na Competitiva, também há a entrega do Caméra d’Or, prêmio para diretores estreantes.

Na mostra Un Certain Regard, são premiados os filmes de linguagem experimental, com estilos que não se encaixam completamente na seleção principal do festival. Além do prêmio principal, a mostra conta com o prêmio do júri, o prêmio especial do júri, o de melhor performance, o de melhor direção e o Coup de Coeur. Tanto essa mostra como a Competitiva possuem menções honrosas.

A Cinéfondation tem o objetivo de incentivar os novos cineastas internacionais, premiando curtas e média-metragens de estudantes da área.

Cena do filme O Pagador de Promessas [Copyright Embrafilme]

A participação do Brasil no Festival de Cannes já é de longa data. O primeiro filme a ser indicado à Palma de Ouro foi Sertão (1949), de João G. Martin, logo na terceira edição do evento. O primeiro prêmio conquistado pelo país foi na extinta categoria de melhor filme de aventura com O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto. O longa também recebeu menção honrosa pela trilha sonora.

Em 1962, O Pagador de Promessas (1962) fez história ao conquistar a primeira – e única – Palma de Ouro do país. O filme de Anselmo Duarte também concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro e conquistou o prêmio especial do júri no Festival de Cartagena.

Quatro diretores brasileiros já disputaram três vezes cada a Palma de Ouro. São eles: Glauber Rocha, Cacá Diegues, Hector Babenco e Walter Salles. O primeiro concorreu pelos filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). Terra em Transe recebeu o prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema (FIPRESCI, sigla em francês) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro rendeu ao diretor o prêmio de melhor direção.

O diretor Cacá Diegues concorreu com Bye Bye Brasil (1979), Quilombo (1984) e Um Trem para as Estrelas (1987). Já Hector Babenco marcou presença no festival com os filmes O Beijo da Mulher-Aranha (Kiss of the Spider Woman, 1985), Coração Iluminado (Corazón Iluminado, 1998) e Carandiru (2003).

Walter Salles foi indicado pelos filmes Diários de Motocicleta (2004), Linha de Passe (2008) e Na Estrada (2012). Diários de Motocicleta levou os prêmios François Chalais e Grande Prêmio Técnico, e o filme Linha de Passe rendeu o prêmio de melhor interpretação feminina para a atriz Sandra Corveloni. Além dela, a atriz Fernanda Torres também conquistou o prêmio por melhor interpretação feminina, com seu papel no longa Eu Sei Que Vou Te Amar (1987).

O Brasil também conta com prêmios fora da mostra Competitiva do Festival. Em 1984, o filme Memórias do Cárcere (1984) conquistou o prêmio da FIPRESCI; Rodrigo Santoro foi premiado como melhor revelação masculina por sua interpretação em Carandiru e o longa Cinema Novo (2016) conquistou o Olho de Ouro, destinado ao melhor documentário. Dois curtas brasileiros já receberam o Prêmio do Júri: Di Cavalcanti (1977) e Meow (1982).

Em 2019, a exibição de Bacurau, além de render o Prêmio do Júri, foi marcada por sete minutos de aplauso. Esse foi a segunda indicação de Kleber Mendonça Filho, que concorreu à Palma de Ouro com Aquarius (2016), há três anos.


Festival de Berlim

O Festival Internacional de Cinema de Berlim, conhecido também como Berlinale, surgiu em 1951 a partir do interesse dos Estados Unidos, que ocupava a cidade alemã após a Segunda Guerra Mundial e a via como “vitrine de um mundo livre”. Desde sua criação, o evento de caráter anual carrega viés político marcante, que foi se desenvolvendo e abrindo espaço para debates sobre temas diversos relacionados ao contexto da época.

O festival parte da premissa de atuar como um espelho do cinema internacional. Até 1978, ocorria no mês de junho, porém, para não ficar em segundo plano devido à proximidade com o Festival de Cannes, sua data de execução foi mudada e, até os dias de hoje, o Berlinale acontece no mês de fevereiro.

Seu prêmio principal é o Urso de Ouro, destinado ao melhor filme. Além dele, é entregue o Urso de Prata, que premia os melhores nas seguintes categorias: ator, atriz, diretor, roteiro, contribuição artística, documentário, curta-metragem e Prêmio Especial do Júri. Outro destaque do festival é a existência, desde 1987, do Teddy Award, direcionado a documentários, longas e curta-metragens de temática LGBTQ+.

Cena do filme Central do Brasil [Copyright Europa Filmes]

O Brasil coleciona alguns dos principais prêmios do Berlinale ao longo de sua relevante participação. O Urso de Ouro já foi entregue para produções nacionais duas vezes, por Central do Brasil (1998), de Walter Salles, e Tropa de Elite (2008), de José Padilha. O primeiro filme brasileiro a ser indicado ao prêmio foi Sinhá Moça (1953), que levou um Urso de Prata por menção honrosa.

O diretor Ruy Guerra coleciona dois Ursos de Prata pelo Prêmio Especial do Júri, com seus filmes Os Fuzis (1964) e A Queda (1976), sendo o último uma parceria com Nelson Xavier. Ambas as produções foram indicadas ao Urso de Ouro, e outros filmes de sua autoria, como Os Cafajestes (1962) e Os Deuses e os Mortos (1970) também concorreram ao prêmio principal. Além dele, o diretor Arnaldo Jabor também foi premiado, conquistando um Urso de Prata por melhor direção com o longa Toda Nudez Será Castigada (1973).

Três atrizes brasileiras já conquistaram o Urso de Prata por suas interpretações. Marcélia Cartaxo por seu papel em A Hora da Estrela (1985), Ana Beatriz Nogueira foi premiada em Vera (1987) por sua personagem homônima e Fernanda Montenegro levou o prêmio ao interpretar Dora em Central do Brasil.

Além dos prêmios principais, o Brasil também possui vitórias em outras categorias. O longa Pra Frente, Brasil (1982) recebeu o CICAE Art Cinema Award – prêmio da Confederação Internacional de Cinemas de Arte – e o Prêmio OCIC (Organização Católica Internacional do Cinema, sigla em francês) – conferido pela Igreja Católica. Ilha das Flores (1989) levou o Urso de Prata por melhor curta-metragem.

O Teddy Award já foi entregue para três produções brasileiras. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) e Tinta Bruta (2018) foram premiados pela temática LGBTQ+, além de vencerem outros prêmios – o primeiro ganhou como melhor filme da mostra Panorama, e o segundo recebeu o prêmio CICAE Art Cinema Award. Já o filme Bixa Travesty (2018) levou o Teddy como melhor documentário.

Em 2019, o documentário Espero Tua (Re)volta (2019) levou o prêmio Anistia Internacional, dedicado a filmes que abordam questões relacionadas aos Direitos Humanos, e o Prêmio da Paz, que destaca produções que carregam mensagens de paz unidas à execução estética habilidosa.


Festival de Veneza

O Festival Internacional de Cinema de Veneza é o festival de cinema mais antigo do mundo e acontece anualmente desde 1932 na cidade de Veneza, na Itália. Ele faz parte da Bienal de Veneza – uma das exposições de arte mais conceituadas do mundo, que engloba as áreas de arquitetura, dança, cinema, teatro, artes visuais e música –, e foi idealizado por Giuseppe Volpi di Misurata, Antonio Maraini, e Luciano De Feo. O festival ocorre no Palazzo del Cinema entre os meses de agosto e setembro.

O principal prêmio é o Leão de Ouro, destinado ao melhor filme. O festival conta ainda com o Leão de Prata, que premia o melhor realizador/diretor e é entregue também ao vencedor do Grande Prêmio do Júri; o Coppa Volpi, prêmio para o melhor ator e atriz; o Prêmio Especial do Júri, dedicado a longas que se destacaram pela originalidade e o Osella, entregue ao melhor roteiro e melhor contribuição técnica. Além deles, há o Queer Lion, criado em 2007 e destinado a filmes de temática LGBTQ+

No festival, além da mostra competitiva, há a Orizzonti (Horizontes), dedicada a filmes que representam as tendências estéticas e expressivas do cinema internacional. São premiados os melhores nas categorias filme, diretor, ator, atriz, roteiro, curta-metragem e Prêmio do Júri.

Cena do filme Boi Neon [Copyright IMOVISION]

Em comparação aos outros festivais, a participação do Brasil no Festival de Veneza é menor. O país nunca venceu o Leão de Ouro. Os maiores destaques são a conquista do Leão de Bronze (menção honrosa) com o filme Sinhá Moça e os Prêmios Especial do Júri e Melhor Filme Pela Crítica, ganhos pelo longa Eles Não Usam Black-Tie (1981). O diretor Lima Barreto venceu um prêmio pelo curta Santuário (1951).

A atriz Ruth de Souza foi a primeira brasileira a ser indicada ao prêmio de melhor atriz por sua atuação em Sinhá Moça. Poucos filmes brasileiros chegaram a concorrer na mostra competitiva do Festival de Veneza. Entre eles, estão Dedé Mamata (1987), A Ostra e o Vento (1997) e Abril Despedaçado (2001).

Nos últimos anos, o país vem crescendo com indicações e vitórias. Em 2015, Boi Neon (2015) levou o Prêmio Especial do Júri na mostra Orizzonti e o longa Mate-me Por Favor (2015) recebeu o Bisatto d’Oro, prêmio paralelo entregue pela crítica independente.

Em 2018, três filmes brasileiros foram selecionados para mostras diversas. Deslembro (2018), de Flavia Castro, fez parte da mostra Orizzonti; Domingo (2018), de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, esteve na Venice Days e Humberto Mauro (2018), de André di Mauro, marcou a Venice Classic Documentary.

Quando se analisa o desempenho do Brasil nos festivais citados e em outros de destaque mundial – como o de Toronto e o de Sundance –, fica claro que as obras nacionais apresentam o mesmo nível de qualidade de grandes países reconhecidos por suas produções cinematográficas. São levantados, então, os questionamentos: por que muitos não conhecem a maioria dos filmes premiados? Por que, ao chegarem aos cinemas brasileiros, ocupam pouquíssimas salas, muitas vezes apenas em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro? Falta interesse no público, ou ele não é estimulado a valorizar as produções nacionais? A cobertura segmentada da mídia também não contribui, já que, muitas vezes, pouco se fala dos filmes e dos festivais fora dos veículos especializados. O público não é convidado a conhecer mais do cinema brasileiro, pois o mesmo não parece ser acessível.

Mesmo com esses e outros impasses – entre eles o corte de patrocínio de projetos culturais – o cinema brasileiro tem muito do que se orgulhar. Através das telonas, o público brasileiro se conecta com emoções comuns ao compartilharem a história e a língua e as leva para outro países nos diversos festivais do mundo. Essa é a maior conquista do cinema brasileiro: a capacidade de encantar, não importa em qual país esteja.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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