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“O Clube dos Oito”: os relatos de uma assassina adolescente
Na Estante
11 jan 2020 | Por Gabriela Caputo (gabrielacaputo@usp.br)

Flannery Culp cometeu um assassinato e quer contar sua versão da história. Descrita pela mídia como a líder de uma seita adolescente, Flannery, ou Flan, agora presa, passa a editar seu diário e deixa clara a intenção de, eventualmente, publicá-lo. A protagonista revisita as páginas que descrevem os eventos anteriores à noite do crime, com intromissão e muita ironia. O objetivo é claro: contar porque fez o que fez e provar que o material produzido por uma mídia sensacionalista não era apenas equivocado, mas profundamente mentiroso.

Lançado originalmente em 1999, O Clube dos Oito (The Basic Eight) foi publicado no Brasil em 2018 pelo selo Seguinte da Companhia das Letras. O livro foi o primeiro romance de Daniel Handler, que, por trás do pseudônimo Lemony Snicket, é também autor da famosa série infanto-juvenil Desventuras em Série.

O cenário do livro é um clássico do gênero jovem adulto (young-adult): adolescentes de classe média alta atravessando a turbulência que somente o último ano escolar é capaz de gerar. As pressões vêm de todas as direções e o medo do fracasso é uma constante, enquanto o agito marca a vida social — intrigas, fofocas, descobertas, amores, decepções.

Dos momentos compartilhados no colégio aos jantares sofisticados e festas singulares, o Clube dos Oito é, ao mesmo tempo, entediante e intrigante. A obstinação é marca do grupo de amigos de Flannery, formado por Kate, Lily, Douglas, V., Jennifer Rose Milton, Gabriel e Natasha, a ousada e perfeita melhor amiga de Flan, que recebe bastante destaque. Além dos oito personagens do dito “clube”, outros nomes também aparecem como satélites, sobretudo Adam, garoto-modelo por quem Flannery desenvolve sentimentos.

A grande quantidade de personagens, a princípio, pode confundir o leitor. No entanto, a ótima construção dessas personalidades e da dinâmica entre elas permite rapidamente adentrar as interações do grupo. É como se o leitor estivesse ali, presente na roda entre os oito. 

Essa ótima construção também pode, porém, levar à certa insatisfação com o desfecho, quando os tão interessantes personagens — mais até que a própria protagonista — parecem esquecidos, não recebendo a atenção esperada. Flannery é uma protagonista ambígua: desperta identificação e pesar no leitor por conta de suas inseguranças, mas, na maior parte do tempo, beira ao tédio. Não é cativante, e são os personagens secundários, como Natasha, que cumprem esse papel, dando suporte à narrativa.

Apesar do assassinato ser o mistério principal da trama, a narrativa também prende o leitor por outros motivos. As minúcias, fragmentos das vidas de cada personagem e acontecimentos comuns da vivência adolescente tornam-se, pela escrita de Daniel Handler e através do tom sarcástico de Flannery, interessantes.

A narração é destaque em O Clube dos Oito, sendo Flannery uma clássica narradora não confiável. Como tudo é narrado pela perspectiva dela, somente uma  versão é apresentada, o que desperta dúvidas nos leitores mesmo após o desfecho. Ao revisitar o diário, ela faz intromissões constantes, brinca com o leitor, subestima-o, e pede para que preste atenção a momentos sutis.

Há vantagens nessa narração em primeira pessoa: é possível acompanhar a evolução do estado mental de Flannery, através do fluxo de consciência que dá ritmo à escrita.  Em alguns momentos, a narrativa se torna propositalmente confusa e repetitiva, mas nunca cansativa ou menos intrigante. 

O tom do livro é de ironia e deboche, o que é divertido, mas, por outro lado, não ajuda no desenvolvimento de empatia pela assassina, o que geralmente acontece em thrillers clássicos.

É também com muito deboche que Flannery apresenta a cobertura da mídia sobre sua história, dando destaque aos programas de auditório, que traziam especialistas com discursos prontos sobre a “juventude perdida” e afastada dos ditos bons costumes. Para eles, o Clube dos Oito era uma seita ligada ao ocultismo, da qual Flan seria a líder. A partir disso, é interessante a forma como o livro tece uma crítica à mídia sensacionalista e à grupos mais conservadores, ligados fortemente aos valores de família e religião.

Outro ponto positivo, considerando que o romance foi escrito há mais de vinte anos, é a naturalidade com que o autor trata de questões relacionadas à descoberta da sexualidade na juventude, que ainda são tabus, mas eram ainda mais na época. 

Por outro lado, alguns assuntos são tratados de forma irresponsável. Episódios relacionados a assédio, que demandariam discussão e punições, são facilmente esquecidos — aqui, se encaixa a expressão “passação de pano”. Também é incômoda a forte presença de gordofobia e rivalidade feminina na obra. Certamente, deve-se considerar que foi escrita por um homem, em 1999, quando tais questões não eram discutidas com a intensidade que são hoje. Ainda assim, problematizar é pertinente.

O Clube dos Oito remete a um drama teatral de tragédia, no qual Flannery seria a protagonista — referência construída pela própria garota. Daniel Handler entrega uma história muito envolvente, com bom ritmo, apesar do final um pouco brusco. A reviravolta final pode parecer uma saída comum para quem está acostumado à thrillers, mas pode surpreender um jovem leitor que busca se iniciar no gênero. 

* Aviso de gatilho: cenas de violência e abuso sexual.

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