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O estilo chavoso como manifestação cultural nas periferias
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05 out 2020 | Por Giovanna Preto (giovpreto@usp.br)

O conceito de estilo é muito amplo: pode ser visto como arte, preferência, tendência ou maneira de viver. No entanto, é ao mesmo tempo muito significativo para cada indivíduo. Diversas vezes referenciado como roupas, cortes de cabelo e aspectos visuais, o estilo é a forma mais externalizada de as pessoas expressarem sua individualidade, autenticidade e, além de tudo, sua cultura e raiz. A escolha do modo de se vestir é algo de muita importância na maior parte da sociedade em que vivemos, e está sempre em constante transformação, já que reflete aspectos sociais, culturais, de necessidade ou mesmo identificação.

Símbolo do funk nas periferias, o estilo chavoso nasceu da expressão “chave de cadeia”, que se refere a uma pessoa propensa a causar problemas. O termo foi readaptado de forma que representasse os “moleques chave”, nome para aqueles considerados os mais estilosos e que se destacam dentro de um grupo. A gíria tem uma definição difusa mesmo dentro de um círculo social de faixa etária próxima: “É aquele moleque que usa roupa de funkeiro”, “É estilo de vida”, dentre diversas outras definições. Os entrevistados são moradores do mesmo bairro de São Paulo – o Campo Limpo – e afirmam se identificar com o estilo.

Campo Limpo, bairro da periferia de São Paulo. [Imagem: Giovanna Preto]

Campo Limpo, bairro da periferia de São Paulo. [Imagem: Giovanna Preto]

Porém, embora haja divergências sobre o conceito, algo foi dito em comum: chamar a atenção e a fugir do que é muito comum. Renato Barreiros, ex-subprefeito do distrito paulistano de Cidade Tiradentes e documentarista responsável por No Fluxo e Funk Ostentação aponta que “chave” é aquilo que é legal e está na moda, ou seja, pode ser um substantivo, mas também um adjetivo para elogiar alguém que está bem vestido na sua concepção.

“Ser chavoso não é só a pessoa ter o estilo de ‘funkeirinho’, que é o que as pessoas pensam: camiseta larga, óculos Juliet, calças caindo. Na verdade ser chavoso é ter um estilo que as pessoas olham acham legal, e se vestir da forma que se adequa a ela e se sente bem”, afirma Tiago, um desses moradores, de 18 anos. Com o discurso, é evidente a importância cultural carregada pelas roupas coloridas e o cabelo na régua: expressão e formação de identidade.

Barreiros afirma que, durante as gravações de No Fluxo, percebeu um padrão muito forte de roupas nos bailes de São Paulo, e de desenhos nos cabelos e marcas como Oakley e Quiksilver. Segundo ele, o público predominante do funk de rua é mais novo, logo, sempre quer fazer parte de um grupo; cada geração tem um padrão de roupa. 

No entanto, é importante se atentar à estereotipação do que é “chave”, pois embora exista uma tendência sobre vestimenta, o significado e sentido é próprio e carrega muita personalidade de cada seguidor da vertente. 

O estilo chavoso está intrinsecamente relacionado ao funk: o termo ganhou força com MC Naldinho, e sua música Ui! Chavoso Meia na Canela, em meados de 2013, um período que o funk ostentação – que visa a exibição do luxo – perdia sua força devido ao início de uma crise econômica no Brasil. O gênero musical teve o pico de sua fama por um longo tempo, durante a ascensão financeira da classe C, que possibilitou um maior poder aquisitivo entre aqueles de situação menos favorecida. Deste modo, as referências às marcas caras eram cada vez mais crescentes entre as letras de funk: MC Guimê se destaca na vertente com os versos: “Se for pra chorar que seja numa mansão com vista pro mar” e “Mais de cem mil no bolso, eu de Armani, ela de Prada”. Mas as marcas cantadas se tornaram muito caras em um comparativo com o padrão de renda brasileiro, e, por isso, as letras se afastaram da realidade da favela. Assim, “chavoso” se tornou a ostentação da periferia, criou-se a ideia de uma “ostentação acessível”. 

Videoclipe da música Plaque de 100, do funkeiro MC Guimê. Os itens de ouro, as notas de dinheiro e os carros caros no vídeo mostram os símbolos de ostentação do período. [Imagem: Reprodução]

Videoclipe da música Plaque de 100, do funkeiro MC Guimê. Os itens de ouro, as notas de dinheiro e os carros caros no vídeo mostram os símbolos de ostentação do período. [Imagem: Reprodução]

No período de funk ostentação, os camarotes e os bailes de salão eram a forma de lazer nas periferias. No entanto, a queda da economia levou os jovens a formarem os fluxos de rua. Não apenas nos “bailes de favela”, o estilo nas festas sempre foi fator de preocupação entre adolescentes. O “chavoso” é forma não só de expressão cultural, mas também fator de atração física e de muita influência na vida daqueles que se identificam.

Por isso, as tendências permanecem ditando a forma de se vestir e se portar. Embora com a mudança do perfil socioeconômico, os jovens afirmam ainda ter preferência pelas marcas: “O pessoal sempre vai ver os famosos com roupas de marca e vai querer ter algo igual. Eu acho muito difícil isso perder a força. A pessoa ostenta da forma que pode, compra uma coisa cara e parcela em trinta vezes”, diz Ítalo, de 19 anos. Um ponto essencial na fala do garoto é a influência de pessoas conhecidas na mídia como forma de introdução do que é visto como “da moda” em tal período. Quando observam um funkeiro de sucesso, vindo da periferia, e que teve oportunidade de ascensão social, ele se torna um ícone em que o jovem pobre tenta se espelhar e demonstrar inspiração. Eles copiam as roupas, cortes de cabelo e até mesmo modo de falar, de forma que representa um desejo de subir na vida, sem abandonar as origens da periferia. Deste modo, o uso das marcas se torna um símbolo da vontade de mudança social.

Embora carregados de cultura e símbolos do desejo de ascensão social, o estilo chavoso e o funk ainda são bombardeados de preconceito. Com discursos de ódio e argumentos de imoralidade, o funk é atingido com a ideia de que contém versos de apologia ao crime, drogas e conotação sexual, o que o remete a algo ruim sem antes analisar as raízes disso. Ao nascer em bairros periféricos, o jovem se percebe em um ambiente marginalizado, o que faz os MCs cantarem sobre a realidade de seu cotidiano. O índice de 2017 da Secretaria de Estado da Segurança Pública de São Paulo evidencia essa marginalização e convivência com o crime: os maiores números de roubos e tráfico de drogas estão nos bairros das periferias. Porém, assim como no funk e no estilo chavoso, a obscenidade e os versos vistos como imorais por um grupo da sociedade também estão presentes em diversos outros estilos sem julgamento, de modo que causam o questionamento sobre a real motivação das críticas.

Além do preconceito com o funk, as roupas muitas vezes são também julgadas pela ideia de referência à favela. Mesmo com princípios de ostentação e roupas caras, Ewerton, de 19 anos, afirma que, embora tenha um emprego fixo e alguns itens de status social, já sofreu preconceito diversas vezes: “Uma vez eu entrei na Etec e uma menina da minha sala achou que eu ia roubar ela, disse que eu tinha cara de trombadinha. Muitas vezes eu vou em um lugar mais chique ou em um bairro mais nobre e o pessoal fica me olhando meio esquisito, torto”.

Ítalo e Max, também de 19 anos de idade, exemplificaram com uma situação muito parecida: foram seguidos pelo segurança em um mercado ou uma loja, pela ideia de que roubariam o estabelecimento, novamente, por seu estilo remeter a visão da periferia como fonte de criminalidade. Ítalo ainda aponta um agravante para essa situação na vida dele: a pele negra. Por isso, nunca consegue identificar se o preconceito ocorre pela cor da pele, pela roupa vestida, ou pela junção de ambos. 

Estudante da Universidade de São Paulo, Thiago Torres cursa Ciências Sociais e se identifica como “o chavoso da USP”. [Imagem: Reprodução/Instagram]

Estudante da Universidade de São Paulo, Thiago Torres cursa Ciências Sociais e se identifica como “o chavoso da USP”. [Imagem: Reprodução/Instagram]

Mesmo com a estampa do preconceito, o estilo chavoso e o funk estão superando as barreiras sociais e alcançando as classes mais favorecidas. Os rankings de aplicativos de streaming mostram isso em números, pois o ritmo para o qual antes nem era cogitado um grande volume de vendas, hoje conta com diversas músicas nos índices de “mais tocadas”.

Os “risquinhos” na sobrancelha se tornaram ícones não apenas na favela, mas também chegaram em parte da classe média como algo estiloso, e às vezes com o uso até mesmo do termo “chave”. Sobre essa apropriação dos símbolos do funk, os chavosos da periferia não veem como algo incômodo, mas enxergam como uma possibilidade de aumentar a visibilidade do que é de verdade o estilo, afastando-o da ideia do crime e da apologia às drogas: “Se as classes mais altas fazem, se torna bem aceito. Mas nas classes mais baixas, isso não ocorre tão fácil, a gente precisa ter muita luta”, diz Ítalo. A frase configura uma realidade na qual a renda dita o que é certo e moral, mas no ponto de vista dos funkeiros, ela pode ser um fator de mudança para todo o preconceito sofrido.

Além disso, o documentarista Renato Barreiros afirma que falta a música erudita e outras manifestações culturais na periferia e em outros ambientes de jovens. Mas, para ele, a demanda está focada no baile funk, pois ele é forma de diversão e reflete a festa que o adolescente gosta, e o estilo chavoso representa essa preferência.

Dentre várias visões e opiniões acerca do estilo “chavoso”, a manifestação cultural é válida e muito presente na vida do jovem de periferia. Sem muita atenção e estudo, o estilo se formulou ao longo do tempo a partir das influências de famosos e marcas conhecidas, de modo que se tornasse símbolo de riqueza e expressão para aqueles menos favorecidos financeiramente. Por isso, embora já muito bem formulado e personificado, assim como em outras vertentes, o conceito de “chave” passou e ainda passa por um crescimento exponencial de seguidores e novos adeptos, além de diversas transformações desde o nascimento do funk paulista.

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