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O Grande Nolan
CINÉFILOS
06 jul 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Isabella Galante
isabellavgalante@gmail.com

Conhecido pelos novos filmes do Batman e por A Origem, que apesar da fama muitos odeiam por ser “confuso demais”, Christopher Nolan é muito mais do que especulam os debates gerados por todas as suas produções.

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Nascido em 30 de julho de 1970 em Londres, começou seu interesse pela direção aos sete anos, quando fazia curtas estrelados por seus brinquedos usando uma câmera Super-8 de seus pais. Suas influências na época eram Star Wars e os filmes do James Bond.

Quando mais velho, estudou literatura na Universidade de Londres, enquanto realizava seus próprios filmes com a companhia de cinema da faculdade. Essa formação mostra seu autoaprendizado para o cinema, e reflete na sua precisão na escrita do roteiro de cada filme.

Seu primeiro longa foi Following (1998) cujas gravações duraram um ano inteiro porque toda a equipe, composta de amigos e familiares, trabalhava durante a semana e só podia gravar aos sábados. Técnicas usadas na gravação se relacionam ao orçamento limitado, como o uso do preto e branco (não precisaria controlar as cores da locação), os personagens perto de janelas (iluminação natural)  e o longo tempo de produção (muito ensaio).

Logo em seu trabalho inicial, Nolan demonstra qualidades incomuns para um diretor iniciante: a técnica, já mencionada, e a originalidade do filme, que nada tem de óbvio; sua paixão pela sétima arte é notável.

Following foi exibido em diversos festivais internacionais de cinema antes da mostra oficial e, através dessas participações, o diretor conseguiu credibilidade e boa parte do financiamento para sua próxima produção, Amnésia (Memento, 2000), que recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro e foi adorada pela crítica.

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Para Nolan, ir de um filme para outro foi o maior salto de sua carreira. No primeiro, ele trabalhou com conhecidos e sua mãe fazia os sanduíches para a equipe. Já no próximo, o orçamento foi de quatro milhões de dólares e havia mais de cem pessoas envolvidas.

Após Insônia (Insomnia, 2002), um filme com atores famosos, mas que não agradou muito, Chistopher decide adaptar a história do Batman, seu herói da infância, para as telonas. A interpretação moderna do personagem era inédita, prezando pelo lado grandioso, porém semelhante aos quadrinhos; a versão foi extremamente bem aceita pelos fãs e críticos. Com um toque mais contemporâneo, a trama, protagonizada por Christian Bale, que se encaixou perfeitamente no papel, ficou mais densa, complexa, sombria e realista.

Film Meets Art Christopher Nolan

Contando como Bruce Wayne se tornou um herói, em Batman Begins (2005), a história foi expandida para além daqueles que já conheciam o personagem, conquistou novo público e admiradores. A continuação da sequência foi Batman: O Cavaleiro das Trevas  (The Dark Knight, 2008), dirigido, escrito e produzido por Nolan. O filme rendeu mais de um bilhão de dólares nas bilheterias pelo mundo, assim como o próximo da série, oito indicações ao Oscar e foi eleito pela revista Empire como o melhor filme de super-herói de todos os tempos.

Seu filme mais recente é Interestelar (Interstellar, 2014), que contém uma maior base científica, pesquisada com profunda preocupação e construída a partir de consultas com especialistas.

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Christopher Nolan é grande fã de Stanley Kubrick e diz que os filmes dele têm muita influência sobre seu trabalho. Tanto é, que há semelhanças entre Interestelar e 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968). São duas histórias completamente diferentes, mas que entregam experiências audiovisuais parecidas.

 

Interestelar é o longa que despertou o maior número de críticas negativas, apontando falhas que a história supostamente teria. O diretor rebate dizendo que o padrão das suas produções é alto e há poucos furos no roteiro. Para ele, muitos dos problemas que as pessoas apontam se dão pela falta de entendimento, é necessário refletir um pouco e assistir novamente o filme, não há como absorver toda a complexidade de uma única vez.

O mesmo se aplica aos outros filmes de sua carreira (muitas vezes interpretados como difíceis). O próprio Nolan diz que a falta de compreensão vem da abertura a diferentes interpretações (sendo que uma não é mais válida que outra), mas a ambiguidade tem um propósito na história. O sentido das suas obras estaria em criar um mundo imersivo onde o espectador pudesse sentir algo diferente e escapar por algumas horas; ele sempre tenta criar um um universo alternativo que vai além das cenas do filme.
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Recorrências

O diretor, que é daltônico, é conhecido por ter uma pontualidade britânica, tomar chá compulsivamente, não importa o quão quente o dia está, e ter uma personalidade calma, que deixa os atores confortáveis, mas ao mesmo tempo é focado e disciplinado. Usa o mesmo tipo de roupa todos os dias: um terno de cor escura sobre uma camisa azul e calça social preta; a justificativa seria que assim ele não precisava pensar em o quê vestir e aquele tipo de roupa o deixava confortável: é como se vestir para um dia no escritório.

Usualmente, o enredo de seus filmes se baseia em um protagonista masculino desconfortável que tem que lidar com seu passado e com os desafios do presente, de forma obsessiva busca a justiça a qualquer preço. O tema da mente humana é uma constante, há uma profundidade psicológica, e a maioria das produções não segue uma sequência cronológica, fazendo com que o espectador não desvie a atenção. O observador deve ser paciente e se atentar aos detalhes, participativo, é ele quem constrói a história pela reflexão.

A edição é repleta de cortes bruscos e repentinos, aplicados até nos desfechos, que normalmente são rápidos e não-conclusivos, que tiram o espectador da zona de conforto, fazendo com que pense sobre o que assistiu, em uma análise mais profunda.

Gosta do trabalho de certos atores, que se repetem em diferentes filmes, entre tantos: Christian Bale (de O Grande Truque e todos os filmes do Batman), Cillian Murphy  (de Batman Begins, A Origem e Batman: O Cavaleiro das Trevas) e principalmente Michael Caine (estrela em seis filmes do Nolan, que o elogia por ser o sonho de qualquer diretor). Os artistas são escolhidos para interpretar papéis desafiadores para a personalidade de cada um.

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Extremamente realista, ele prefere sempre reproduzir os efeitos especiais a criá-los no computador, esses nunca foram usados em mais de um terço das cenas. Eles ocorrem somente nos casos em que não consegue produzir fisicamente o efeito, como um carro voando, e há um trabalho cuidadoso para passar despercebido, não ser notado como um produto de computadorização.

 

Tradição

Christopher Nolan se interessa por entender e participar de tudo que se relaciona à produção, desde a gravação do som até a edição. Esse envolvimento vem do fato de não ter estudado especificamente cinema, dessa forma, ele acredita que o maior aprendizado se dá através da curiosidade.

A câmera, durante as gravações, é sempre pensada como um participante, as lentes de zoom nunca são usadas, por exemplo, se move fisicamente; representa o espectador, que acompanha a trajetória dos personagens pelo labirinto criado por Nolan em suas histórias. O objeto é manipulado muitas vezes pelo próprio diretor, que prefere as câmeras antigas para pensar na relação com os atores, ele gosta de ver como a cena é em seu estado puro, não há uma tela digital, que passaria uma imagem pronta e em 2D.

Além disso, Nolan é um forte defensor do uso da película cinematográfica (que usam rolo de filme mesmo) em detrimento de formatos digitais (que usam bytes para transmitir as imagens). Ele relata que sente uma pressão crescente para abandonar a técnica antiga, algo que nunca entendeu, já que, para ele, essa forma continua sendo a mais rápida, o resultado parece melhor, a tecnologia é conhecida e confiável. Essa seria uma maneira de lucrar mais com a produção e movimentar a economia, mas até o momento não haveria motivo para mudanças.

Mesmo assim, ele foi o pioneiro no uso das câmeras IMAX nos blockbusters, como ocorreu em Batman: O Cavaleiro das Trevas. O pesado equipamento é considerado por ele o melhor formato de filme inventado, mas não serve para todas as produções, como por exemplo em A Origem, a intenção nesse era retratar a realidade, não sua natureza extraordinária, e aí foi gravado de forma mais espontânea, usando uma câmera portátil.

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The prestige

Nolan consegue dar vida a cenas que parecem ter saído de uma pintura, suas escolhas influenciam significamente a indústria do cinema. Ele prova que os filmes comerciais podem ser complexos e ainda assim, bem sucedidos, não se deixando influenciar pela maneira que os seus colegas executam um projeto. O diretor multifacetado exibe versatilidade, estudo e técnica; consegue fazer do filme mais barato em orçamento até o maior blockbuster baseado no mesmo processo de criação, mantendo a criatividade e espontaneidade das produções de menor escala.

Seu currículo inclui apenas nove filmes, dos quais quatro constam na lista das maiores e mais lucrativas produções do cinema. Com uma carreira de 18 anos, Christopher Nolan merece ser alvo de reflexão. Ele define seu trabalho como um show de mágica: o diretor surpreende as pessoas, direciona a atenção delas para um ponto, desvia de todo o resto. Seus personagens nunca são o que aparentam e isso geraria o elemento surpresa.

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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