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O Grito: Pelo jeito, a parte interessante do terror ficou no Japão
CINÉFILOS
12 fev 2020 | Por Anderson M. Lima (anderson.marques.lima@usp.br)

Amado por muitos, odiado por tantos outros, chegou mais um reboot de O Grito (The Grudge, 2020). Ao contrário de seu “pai”, o reboot americano lançado em 2004, o longa chega em uma época em que o terror pelo terror já não agrada mais como antigamente.

Quando Ju-On (2002) chegou ao mundo (esse sendo o original), estávamos na época das adaptações americanas de filmes de horror japonês (estilo que ficou conhecido como J-Horror). Junto com Ringu (1998), que mais tarde ficou conhecido como O Chamado (The Ring, 2002), eles foram um produto significativo de sua época e marcaram o imaginário das pessoas, com seus personagens únicos derivados de mitos do terror japonês.

E aqui vem a grande estranheza desse recomeço: trazer uma nova maldição diferente da que estamos habituados. Isso poderia dar certo, se o roteiro desse um contexto plausível para tal coisa estar acontecendo. No entanto, o que vemos em tela são facilitações jogadas na cara do espectador e que nós precisamos aceitar para dar certo. Se aceito, partimos juntos da detetive Muldoon (Andrea Riseborough) em uma investigação que nos leva a diferentes personagens e momentos no tempo. 

Esses momentos são a parte mais interessante da obra, porque os melhores personagens estão exatamente neles. As histórias de Faith Matheson (Lin Shaye), Peter Spencer (John Cho) e do detetive Wilson (William Sadler) são bem mais interessantes do que o fio condutor da narrativa, comandado pela investigação de Muldoon. Os atores entregam atuações convincentes em seus arcos, com destaque para Shaye, que com pouco tempo de tela, entrega uma performance insana e marcante. 

Aliás, a montagem do filme é bem feita, porém, a partir de um determinado momento, quando a obra não mostra mais o ano em que a cena está ocorrendo, até podemos nos confundir temporalmente, já que não sabemos o final de cada personagem. Outro ponto importante é que as viagens no tempo acontecem em momentos prévios e posteriores ao primeiro O Grito, inclusive com citações diretas de personagens desse filme. Ou seja, apesar de ser um reboot, o longa respeita suas origens e serve mais como um spin-off (história derivada). 

Se há algo em que O Grito falha é na expectativa, pois sempre sabemos quando dado susto irá acontecer. Quando isso ocorre em um filme de terror, o objetivo principal já não pode ser mais alcançado. As partes envolvendo a banheira são um bom exemplo disso: construção interessante, clímax envolvendo o espectador, mas a pessoa já sabe que algo vai ocorrer. Há momentos de pânico? Sim, mas são poucos e bem rápidos, sem uma elaboração prévia, apenas o impacto do som e da imagem.

Os espíritos parecem mais zumbis do que fantasmas japoneses, mas o objetivo continua o mesmo: vingança. [Imagem: Sony Pictures Entertainment Deutschland GmbH / Allen Fraser]

Apesar do desconforto criado pelas situações, há uma forçação de barra em termos dramáticos quando o arco envolve a detetive Muldoon. O longa tenta nos aproximar dessa mãe, que acabou de perder o marido, e que tem que enfrentar algo sobrenatural em seu trabalho. Essa aproximação não funciona, e nem é tanto pela performance da atriz, mas pelo roteiro que não dá liberdade para um maior desenvolvimento da personagem.  

Como a nova maldição se restringe a um local em específico, poderíamos ter uma falta de liberdade na criação das cenas, mas isso não ocorre, já que os espíritos acompanham seus alvos e influenciam suas ações, algo como se a energia negativa vinda da casa acompanhasse quem entrasse ali. 

Há situações que a câmera está focada em um local ou personagem em específico, e de canto (ou no fundo), há um espírito se movendo ou olhando. Quem viu a série A Maldição da Residência Hill (The Haunting of Hill House, 2018) está acostumado com isso e sabe que esse artifício acrescenta camadas à cena, pois não sabemos o que vai acontecer, e se, de fato, haverá algo assustador.

Com um final anticlimático, mas previsível, O Grito deixa de lado seus pontos fortes envolvendo a cultura japonesa (cadê você Toshio?), arrisca em um enredo previsível (apesar da boa montagem), com sustos telegrafados e personagens secundários que roubam a cena e deveriam ter maior destaque com relação ao tempo de atuação.    

O longa tem estreia prevista para o dia 13 de fevereiro no Brasil. Confira o trailer: 

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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