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O que é fascismo? E outros ensaios: Orwell versus o mundo
Na Estante
14 ago 2017 | Por Jornalismo Júnior

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, fez sua fama durante o século XX com suas reportagens, ensaios e romances, dos quais A Revolução dos Bichos e 1984 são os mais notórios. Publicados durante a Guerra Fria, eles criticam duramente regimes totalitários e foram muito utilizados pelo bloco capitalista como propaganda anti-comunista.

Dessa forma, cria-se uma ideia de que Orwell era contrário ao comunismo em geral, mas “O que é fascismo? E outros ensaios” prova que essa imagem é completamente errada. O livro é composto por uma série de ensaios e resenhas do autor, escritos e publicados entre 1938 e 1948, que mostram que Blair era, na verdade, contra a radicalização e o totalitarismo de sua época, independente da ideologia. Ninguém escapava de suas críticas.

Seus ensaios refletem tanto a respeito do mundo socialista quanto capitalista. O texto mais famoso dessa coletânea é “O que é fascismo?“, no qual o autor discorre sobre a ignorância popular a respeito do tema, gerando uma banalização do termo, que passou a ser usado como ofensa ou elogio para as mais diversas correntes da esquerda e da direita.

Em “Quais são os criminosos de guerra?“, outro ensaio, o indu-britânico discorre sobre o tribunal do Grande Conselho Fascista que decidiu afastar Mussolini do poder em 1943. Embora tenha sido em vão, esse julgamento fez o autor refletir sobre quem são os reais crimes de guerra. Apoiar a guerra não seria ser cúmplice desse crime? Então por que só Mussolini estava sendo julgado? Quem não deveria ser julgado? O que é crime de guerra? Essas são algumas questões do mais tocante texto do livro.

Blair dá provas contundentes de que a França e a Inglaterra apoiaram a ascensão nazifascista pela Europa, manipulando seus cidadãos a apoiá-los. Além disso, expõe que essas nações cometiam crimes de guerra todos os dias em seus protetorados ultramarinos. Ressalta ainda que as atitudes da esquerda na época eram muito semelhantes àquelas que repudiavam nos governos liberais, uma vez que apoiavam o governo totalitário de Stalin e até seus pactos com Hitler, anteriores a Guerra. A verdade para o autor, por tanto, é que , todos têm uma parcela de culpa pela Segunda Guerra Mundial. Churchill não poderia julgar Mussolini, Luis Carlos Prestes não poderia julgar Stalin e assim por diante. Todos estavam indo juntos, levando a humanidade rumo à barbárie novamente.

O livro também mostra a paixão e exigência de Orwell pela literatura, trazendo diversas críticas a grandes escritores como Ezra Pound, W. B. Yeats e Oscar Wilde. Suas críticas não se delimitavam só ao enredo, indo desde a forma à posição política dos autores. Faz isso para proteger o que parece seu grande amor: a literatura. É claro que há questões de gosto pessoal e pode-se dizer que o resenhista aprendeu com suas críticas para escrever seus livros, mas todo comentário visava elevar o conteúdo da literatura da época. O escritor, para ele, tem um papel fundamental na sociedade: o da crítica.

Percebe-se, após algumas resenhas, que muitos dos enredos literários da época retratavam a polarização política. Alguns deles apenas retratavam a realidade, sem trazer nenhuma explicação para os problemas contemporâneos, e eram permeados de ideologia. Não que isso fosse ruim, Orwell não julgava a ideologia dos autores como certas ou erradas, mas defendia que isso os cegavam para fazerem uma boa obra. Em diversos textos ele critica os livros propagandísticos de ideologias, “a literatura de panfletos” como dizia.

Cada texto do jornalista possui uma sinceridade explícita, e a escrita de suas opiniões é tão bem feita quanto suas obras ficcionais. Embora os textos sejam independentes, eles formam uma unidade de sentido que nos conta um pouco da atmosfera conturbada e política da época. O que Orwell escreve não deve ser tomado como verdade absoluta, pois como ele mesmo demonstra em seus textos, não é possível ter certeza de nada durante aquele período histórico. “O que é fascismo? E outros ensaios” é uma coletânea gostosa de ler para entender que nem todos escolhiam entre comunismo e capitalismo, mas que era uma uma época de grande angústia política e social, assim como hoje.

Por Letícia Martins Tanaka
leticiamtanaka@usp.br

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