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O que faz uma potência olímpica?
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21 jul 2020 | Por Rebeca Alencar (rebs.alencar@usp.br)

As Olimpíadas de Tóquio, marcadas inicialmente para este ano, foram adiadas para 2021 devido às restrições impostas pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para conter a pandemia de Covid-19. No entanto, os palpites de quais países seriam destaque no maior evento esportivo do mundo ainda continuam, mesmo que a liderança das três maiores potências olímpicas no ranking – Estados Unidos, Rússia e China – já fosse certa. Mas afinal, quais fatores permitiram tal configuração?

Os três países sempre ocuparam pelo menos três dos cinco primeiros lugares da colocação geral de torneios olímpicos desde os jogos de Atlanta. Disputada em 1996, aquela foi a primeira edição em que as antigas repúblicas soviéticas participaram individualmente. A Rússia detinha a maior porção do território, bem como grande parte dos equipamentos esportivos, mas, por outro lado, a hegemonia estadunidense já era notória muito antes disso.

A esse respeito, Jorge Luiz Rodrigues, comentarista esportivo dos canais Fox Sports, afirma que este legado não surgiu por acaso, mas é fruto de investimento assíduo no esporte por parte do governo do país: “Os Estados Unidos têm uma estrutura olímpica maravilhosa. Eles têm centros de treinamento, e o maior e mais conhecido de Olimpíadas de Verão, em Colorado Springs, um negócio fantástico”, conta ele sobre a infraestrutura. 

Jorge, então, aponta a disponibilidade de infraestrutura como fator decisivo para a performance esportiva de uma nação. Todavia, não é difícil constatar que o bom desempenho, por sua vez, possui altos custos de desenvolvimento e, por isso, a disponibilidade de recursos financeiros é fundamental para o sucesso almejado. Vale lembrar que esse recursos nem sempre estiveram ao alcance da delegação chinesa, a terceira liderança olímpica.

“A China deu um salto quantitativo e qualitativo a partir de Pequim [2008]. A partir da preparação, em que eles iam sediar os jogos pela primeira vez, o país teve um salto fenomenal de desenvolvimento. Muito do sucesso da Olimpíada se deve à participação do país sede” , nota o comentarista. Além disso, ele ainda ressalta que o investimento para a recepção dos Jogos, feita pelo país asiático, foi produtiva, pois todos os centros de treinamento olímpico lá construídos foram fundamentais para a sua consagração como potência olímpica desde aquele período.


Os pilares do esporte

Mas, afinal, o que o sediamento dos jogos olímpicos proporciona? Essa oportunidade vai além de tomar o foco dos holofotes da mídia durante cerca de 16 dias de evento. É uma grande chance de movimentar a economia turística do país e, sobretudo, um orçamento multimilionário para aprimorar a sua estrutura esportiva para futuras edições e participações nas Olimpíadas. 

“O Reino Unido também é um exemplo espetacular que sediou e deixou legado. Como sede em 2012, teve um desenvolvimento extraordinário, e com resultados em 2016, embora não iguais à edição anterior, mas vinha de resultados muito ruins em 2004, por exemplo. Eles estavam em queda e revolucionaram a sua preparação, dando apoio a alguns esportes que normalmente não eram comuns de popularidade lá e cresceram muito com as Olimpíadas de 2012”, ressalta Jorge a respeito dos efeitos que a recepção de uma edição olímpica pode proporcionar.

Porém, o comentarista ainda afirma que essa chance não é suficiente para garantir, de maneira definitiva, o legado esportivo de uma delegação. Sobre isso, ele justifica que a perspectiva limitada aos quatro anos anteriores à participação ou recepção de uma Olimpíada é muito arriscada, dado que as possibilidades das metas estipuladas não serem atingidas são muito grandes. 

Nessa perspectiva, as políticas públicas de esporte atuam justamente em função da manutenção da sua estrutura e influência em seu respectivo país, tirando da questão financeira a total responsabilidade de manter esses fatores ativos. Entretanto, não é incomum o dinheiro se sobrepor a esse tópico em algum momento, principalmente em situações de crise econômica: “Em um país quebrado, sem apoio, você sabe que o esporte é a última coisa importante para a política dos economistas e dos governantes”, lamenta.

Com a fraca eficiência dessas políticas e baixo orçamento para investir em treinamentos e formações, é então que surgem os atletas de exceção: grandes talentos responsáveis pelo desempenho mediano de suas respectivas delegações e que se destacam em modalidades isoladas. 

A presença dos atletas de exceção, segundo Jorge, é recorrente em países como Portugal e Brasil, por exemplo. Ele cita Rosa Mota, corredora portuguesa, e Guga, tenista brasileiro, como gigantes em suas modalidades. Mas insere que ambos não foram produto de formações massivas, tanto no atletismo quanto no tênis, fazendo com que o destaque desses países em ambos os esportes fosse momentâneo, durando apenas enquanto esses esportistas ainda competiam. 

“A potência olímpica é o que é justamente porque trabalha massivamente para o surgimento de outros grandes atletas, para que quando aquele grande atleta finalize sua carreira tenha um substituto, alguém bem preparado como a ginástica americana tem, como a ginástica da antiga União Soviética tinha. E Portugal, infelizmente, está nesse outro campo mais parecido com o Brasil, com o agravante dessas crises econômicas que o país teve recentemente” comenta, a respeito dos desdobramentos do investimento ativo em novos talentos do esporte.


O conservadorismo no esporte

A lógica é clara: quanto mais atletas competindo, maiores são as chances de medalhas. Foi seguindo esta linha de raciocínio que os Estados Unidos levaram mais de 550 atletas aos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, sendo 290 mulheres, e conquistaram o primeiro lugar no ranking geral. No entanto, como é possível compor um time numeroso e competente em países que só homens possuem permissão para competir?

O conservadorismo exacerbado em países, principalmente do Oriente Médio, é fator limitante da participação feminina na cultura e sociedade, e no esporte não é diferente. Os professores e geógrafos Camila Hallite e Rafael Fernandes, graduados pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) afirmam que esse cenário não é algo recente nas nações conservadoras: “A partir da segunda metade do século passado, a mulher passa a lutar mais pelos seus direitos e a ocupar novos espaços na sociedade industrializada, e essa ampliação também se deu no esporte”, dissertam. 

Essas lutas, às quais Camila e Rafael referem-se, provocaram melhorias efetivas em relação ao papel da mulher na sociedade. Por outro lado, dentro dos países conservadores, principalmente em relação a sua participação no esporte, o progresso ainda é muito lento. Exemplo disso é a Arábia Saudita que, em 2012, pela primeira vez na história de sua participação nos Jogos Olímpicos, levou mulheres à competição: a judoca Woodjan Ali Seraj e a corredora Sarah Attar. 

“Na Arábia Saudita, as mulheres não têm direito a estudar, a trabalhar, a abrir conta bancária, e a utilizar os serviços de saúde, a não ser que tenham permissão do pai ou do marido. Outra dificuldade é que a prática de esportes na escola pública também é proibida para as mulheres sauditas”, contam os professores sobre a falta de autonomia das mulheres nesse país. Visto isso, a presença de somente duas mulheres na delegação pode ser considerada insignificante comparada a de outros países, mas para as que sofrem com as restrições impostas pela cultura conservadora, foi uma grande vitória. 

Há, porém, grandes esforços por parte do Comitê Olímpico Internacional (COI) para que a participação feminina não seja limitada em função dos costumes e doutrinas de seus países de origem. Segundo Jorge Luiz, o órgão tem se movimentado para que essas circunstâncias se mantenham as mesmas por muito mais tempo.

“Hoje, o Comitê Olímpico Internacional tem uma preocupação muito grande com a igualdade de gênero. Então a sua meta de alguns anos pra cá é ter o mesmo número de atletas masculinos e femininos competindo”, explica ele, afirmando que já notou evoluções dentro desse objetivo, principalmente, nos últimos 20 anos. 

Sarah fez história no esporte mundial e na Arábia Saudita, ao ser uma das primeiras mulheres no país a competir em uma edição das Olimpíadas

Sarah fez história no esporte mundial e na Arábia Saudita, ao ser uma das primeiras mulheres no país a competir em uma edição das Olimpíadas [Imagem: Getty Images/Streeter Lecka]


E o Brasil?

No futebol, o Brasil pode se considerar uma potência esportiva, em vista de seus cinco títulos mundiais. Por outro lado, esse mesmo status não se aplica em sua condição dentro das Olimpíadas. Hoje, o país é considerado um emergente dentre os demais nas competições olímpicas, e Jorge Luiz afirma que ele tem todo potencial para ascender ao nível potência. Contudo, é necessária a implementação de políticas nacionais de esportes, inexistentes até então. Consequência disso é deixar os times olímpicos à deriva de patrocínios externos, situação, segundo ele, extremamente arriscada para as equipes.

“Basta ver que os esportes olímpicos são apoiados, geralmente, um ano antes da Olimpíada acontecer. Aí, aparece um monte de patrocinador, um monte de empresas querendo associar a sua marca àqueles atletas mais importantes”, afirma o comentarista sobre a realidade das condições de apoio ao esporte.

A problemática estrutural, no entanto, era supostamente para ter sido posta sob controle com o sediamento das Olimpíadas de 2016. Todos os recursos destinados à preparação dos atletas, de um centro olímpico e à melhoria na infraestrutura esportiva garantiram a 13ª colocação no ranking geral ao país, o que corresponde à melhor performance brasileira no evento. Porém, de acordo com Jorge, todos os incentivos para a realização do evento não foram bem aproveitados para o desenvolvimento efetivo do esporte nacional.

Mas tal situação não é uma realidade preocupante e desanimadora para todos os times que competem nos torneios olímpicos. O vôlei brasileiro, por exemplo, tanto masculino quanto feminino, sempre foi uma modalidade que recebe investimentos firmes, e não há de ser coincidência que estas seleções sempre cheguem aos jogos como favoritas ao pódio.

O bicampeão olímpico de vôlei Maurício Lima, medalhista de ouro nas Olimpíadas de Barcelona (1992) e Atenas (2004), atribui o sucesso dos times brasileiros de voleibol aos treinamentos e estrutura disponíveis a eles: “Acho que tudo isso [o desempenho] veio de um retorno muito grande de estrutura que o Brasil montou nesse centro de treinamento e, por causa dele, acho que nos preparamos muito bem para esses campeonatos importantes”.

Maurício se refere ao o Centro de Desenvolvimento de Voleibol (CDV), localizado em Saquarema, Rio de Janeiro. Com uma área de mais de 100 mil m², o espaço conta com quatro quadras indoor, seis de vôlei de praia além de salas de musculação, fisioterapia, pesquisa, saunas, e muito mais. Por toda sua estrutura, o centro é reconhecido como o melhor do mundo dentre os destinados à modalidade.

O ex-atleta afirma que a infraestrutura do CDV é impressionante, sem deixar nada a desejar e ainda é aprimorada ao decorrer dos anos: “A estrutura da Seleção Brasileira, quando chegam os jogos mundiais ou Jogos Olímpicos, nos deixa muito bem preparados e somos sempre um dos favoritos ao título. Se ganhamos ou perdemos é consequência do esporte e do campeonato em si”, completa ele, adicionando que está positivo em relação aos futuros resultados do vôlei brasileiro nas próximas competições olímpicas.

Porém, as medidas preventivas para evitar a propagação da epidemia de coronavírus, em relação ao esporte, não se limitaram apenas ao adiamento das Olimpíadas de Tóquio. Em vários momentos, todos os treinos foram suspensos e, longe dos centros de treinamento, ginásios e quadras, os atletas tiveram como alternativa a prática de exercícios em casa, sem a mesma produtividade que fora dela e, principalmente, sem seus respectivos treinadores.

Jorge Luiz aponta que essas circunstâncias não são favoráveis à performance de nenhuma delegação dentro dos jogos, muito menos, ao Brasil: “Por mais que haja tecnologias hoje em dia, é muito difícil você se recuperar com o material e quantidade de atletas de alto nível que as potências olímpicas têm para superar mais rápido essa situação do que nós, que temos vários ‘atletas de exceção’. Nós temos vários ‘atletas de exceção’, nós não temos aqueles gigantes do esporte”, explica, ressaltando que o vôlei brasileiro é uma exceção a este cenário.

Perguntado sobre as expectativas em relação ao desempenho do Brasil nas Olimpíadas de 2021, o comentarista não se mostra confiante. Ele afirma que com o conjunto de complicações do isolamento social, falta de patrocínio somados à infraestrutura fraca e, sobretudo, aos escassos os benefícios que o sediamento do evento lhe proporcionam, é muito difícil o país repetir o mesmo resultado de 2016 e, mais ainda, é superá-lo.

“Nos próximos meses, a gente vai ver aí muito sofrimento, muita reclamação, muita tristeza por parte de atletas olímpicos em relação à falta de apoio, e que certamente vai impactar lá na frente a preparação final desses atletas para julho e agosto de 2021, que são as novas datas das Olimpíadas”, conclui ele, antecipando a provável frustração dos atletas que irão competir em nome do Brasil no ano que vem, os mais prejudicados de toda a defasagem que o esporte profissional enfrenta no país. 

O Ouro conquistado em Atenas foi o segundo das três vitórias olímpicas do  vôlei masculino

O Ouro conquistado em Atenas foi o segundo das três vitórias olímpicas do vôlei masculino [Imagem: Getty Images/Adam Pretty]

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