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O Simpatizante – da ambivalência ao nada
Na Estante
27 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Gabriela Teixeira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

“A tarefa do espião não é se esconder onde ninguém possa vê-lo, uma vez que ele mesmo não será capaz de enxergar coisa alguma. A tarefa de um espião é se esconder onde todo mundo possa vê-lo e onde ele possa ver tudo.”

Essa é uma das lições que o protagonista de “O Simpatizante” (Alfaguara, 2017) aprende tão logo é escolhido para ser um espião do Partido Comunista. Infiltrado no Exército da República do Vietnã, ele logo ascende na hierarquia militar, tornando-se capitão e braço direito de um importante general local. Tal condição facilita seu trabalho de espionagem, mas ao mesmo tempo o prende a certas obrigações que o fazem agir contra seus ideais.

O ano é 1975 e o mundo está polarizado pela Guerra Fria. Tal qual o da sua vizinha Coreia, o território vietnamita se encontra dividido em dois: o Norte (de tendências comunistas e ligado à URSS e à China) e o Sul (cujo governo se alinhava aos Estados Unidos). Apesar dos conflitos entre os dois lados já existir desde 1954, é apenas uma década depois que os EUA tomam parte na guerra, o fazendo com tamanha agressividade que sua atuação recebeu críticas até mesmo de uma parcela da população americana. Contudo, apesar de sua forte ofensiva, a vitória ficou com o Norte. Assim, em abril de 75, após um acordo de cessar-fogo e da renúncia do presidente do Sul, as tropas norte-vietnamitas invadem e conquistam Saigon, a capital sulista, iniciando o processo de unificação do Vietnã.

A narrativa do livro inicia-se exatamente com os momentos que antecederam a queda de Saigon, quando, apavorados pela iminente invasão dos comunistas e pelo que ela representava, os membros da classe militar e política do Sul começam a organizar suas fugas, buscando refúgio especialmente entre seus antigos aliados, os americanos. Como homem de confiança do General, cabe ao protagonista não apenas auxiliá-lo nessa evasão, como também acompanhá-lo, o que o permite dar continuidade ao seu ofício de espião. A história então se desenvolve a partir da ida dele para os Estados Unidos e das memórias e situações que serão desencadeadas por causa da mudança.

Um detalhe chama a atenção durante a leitura: poucos são os personagens cujos verdadeiros nomes são revelados e, na maioria dos casos, as identificações são definidas pelos papéis que desempenham socialmente. Desse modo há o General, a Madame, o Cineasta, entre outros. O próprio personagem principal também segue essa tendência, sendo tratado pela alcunha de Capitão.

Por outro lado, se seu nome é ocultado, todo o resto se revela ao leitor. Passado, presente e as angústias em relação ao futuro do Capitão se expõem completamente através da narração em primeira pessoa, que permite um bom aprofundamento no psicológico do protagonista. Enquanto relata o processo de adaptação e a formação de uma resistência dentro da comunidade de refugiados vietnamitas nos Estados Unidos, o Capitão apresenta também um pouco dos caminhos que o levaram até aquela vida de duplicidade, que, aliás, vai muito além de seu trabalho. Filho de uma aldeã pobre e de um padre francês, desde sempre o Capitão precisou lidar com preconceitos sofridos por causa de sua condição de mestiço. Tendo em si um pouco de dois mundos diferentes, no fundo ele sente que não faz parte de nenhum dos dois. Essa sensação de não pertencimento o acompanha até a vida adulta, quando, apesar de vangloriar-se de ser sempre capaz de ver os dois lados de uma questão, ele vez ou outra vacila, incerto de suas convicções e até de sua própria existência.

O Simpatizante não impressiona somente por ser um romance de estréia premiado com um Pulitzer. Viet Thanh Nguyen não apenas apresenta um novo olhar sobre uma guerra devastadora, mas vai além e constrói um personagem que, com todas as suas divisões e complexidade, parece personificar o próprio Vietnã.

Por Gabriela Teixeira
gabstaraujo@gmail.com

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