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Observatório | Contratação de Robinho evidencia omissão do futebol diante da violência contra mulher
ARQUIBANCADA
18 out 2020 | Por Mara Mendes de Matos (mara.mmatos@usp.br) e Mateus Dias (mateusdesouzadias10@usp.br)

No sábado, 10 de outubro, o Santos Futebol Clube anunciou a contratação de um antigo jogador do time, Robson de Souza, mais conhecido como Robinho. O retorno foi declarado pelo próprio clube como “a última pedalada”, em tradução livre. Mas, o jogador, que deixou o time em 2005 não foi bem recebido nessa nova contratação. Tanto o time quanto o jogador foram duramente criticados. 

Em 2017, Robinho foi condenado em primeira instância, pela justiça italiana, a nove anos de prisão por violência sexual em grupo. Ele e cinco amigos violentaram sexualmente uma mulher albanesa em uma boate de Milão, Sio Café, no dia 22 de janeiro de 2013. O artista brasileiro Jairo Chagas tocava na boate naquela noite e o grupo de brasileiros, aprincípio, foi assistir ao show. A sentença foi dada de acordo com as evidências coletadas através de interceptações telefônicas realizadas contra os envolvidos no caso, reveladas nesta sexta (16) pelo Globo Esporte.

Durante o monitoramento telefônico, pode-se ouvir uma conversa entre o jogador e o músico, na qual Robinho dizia não ter tido contato físico com a mulher e que somente seus amigos teriam abusado dela. Ao ser lembrado por Jairo sobre sexo oral, o jogador falou que não acredita que o ato possa ser considerado como sexo. “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu”, disse ainda.

Na sexta (16), pela tarde, vazaram na internet novos áudios de Robinho. Em conversa com amigos pelo Whatsapp, ele aponta que a divulgação da transcrição das conversas, usadas no processo na Itália, é um ataque da Rede Globo, que estaria conspirando contra ele. Segundo o jogador, o mesmo aconteceu com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Para ele, “isso é coisa do demônio” e a Globo “não preserva coisas boas”, é uma “emissora do demônio”. A Gazeta Esportiva procurou a advogada de Robinho, Marisa Alija, que confirmou a veracidade do áudio.  

Em entrevista ao Observatório, Alessandro Kishino, advogado especialista em direito desportivo, elucida o que determina a lei em casos como esse. Ele esclarece que “não há nenhuma norma proibindo o Santos de contratar o Robinho. Mesmo que o atleta já tivesse sido definitivamente condenado, o Santos poderia contratá-lo”. 

Mas, considerando a influência cultural do futebol no país e a responsabilidade social que os clubes deveriam manifestar, a contratação é inconsistente, já que o mesmo time que realizou, ao longo de sua história, diversas campanhas adversas à violência contra mulher firmou contrato com um homem envolvido e condenado por um caso de violência de gênero.

Campanhas do Santos FC

Algumas das campanhas realizadas pelo Santos FC. Imagens: [Redes Sociais/Santos FC]

O movimento feminino da torcida santista, Bancada das Sereias, se posicionou contra a contratação de Robinho. Kelly, uma das administradoras do movimento, declara  que “nunca imaginaríamos que viveríamos isso com o clube do nosso coração”. Em pronunciamento nas redes sociais, as mulheres do grupo repudiaram o retorno do jogador e dizem se sentir “totalmente violadas e desrespeitadas”. Também disseram “mais do que a imagem do clube, mais do que o desrespeito com as mulheres, é vermos uma sociedade tão cruel com comentários tão machistas. Ainda mais triste, é ver mulheres com os mesmos comentários. Dói, dói na alma. Ontem o Santos regrediu em uma luta de anos e só nós sabemos o quanto perdemos”. 

Além disso, o repúdio à contratação do jogador também incentivou ações de coletivos de torcedoras de times do Brasil todo. Como medida diante do caso, e levando em conta a impossibilidade de ação judicial contra a contratação pela condenação por violência sexual, torcedoras de times como Flamengo, Corinthians e Internacional notificaram o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e pediram anulação do contrato devido a irregularidades. 

O Santos foi condenado pela FIFA por dívidas com o time chileno Huachipato, pela contratação do venezuelano Yeferson Soteldo, e o time colombiano Atlético Nacional, envolvendo Felipe Aguilar. A punição dada ao time impede a contratação de novos jogadores nas próximas três janelas de transferência após a condenação, entre 2020 e 2021. A medida passou a valer a partir do dia 13 de outubro e a publicação de transferência de Robinho pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) foi feita um dia antes da punição começar a valer, 12 de outubro, feriado nacional. Alessandro Kishino esclarece que “a FIFA tem esse poder de aplicar sanções aos filiados que não cumprem com as obrigações [no caso, pendências financeiras]”. 

Apoiados no parágrafo 3º do artigo 22 do Regulamento Nacional de Registro e Transferência de Atletas de Futebol da CBF – “a publicação no BID dar-se-á em horário de expediente da CBF” –, os coletivos alegam que a publicação no dia 12 foi irregular, mesmo que estabelecido plantão na CBF e na Federação Paulista de Futebol exclusivo para o fechamento da contratação. 

O Santos começou a ser pressionado pelos patrocinadores, que exigiam alguma providência em relação à contratação. Algumas das empresas chegaram a fazer posts em suas redes sociais reiterando o repúdio à contratação do Robinho pelo Santos. A Orthopride chegou a romper o contrato de patrocínio. 

Com o desenrolar desses fatos, no início da noite de sexta, 16 de outubro, o clube anunciou em seu perfil no Twitter que havia decidido junto ao jogador pela suspensão do contrato. Na nota oficial, o time da baixada declarou que a decisão foi tomada para que o jogador possa dedicar-se totalmente em sua defesa no processo.

O Movimento Bancada das Sereias, em fator da nota oficial, agradeceu pela decisão, mesmo que acreditem que não tenha sido feita pensando nas mulheres. 

Nós Santistas e todas as mulheres que acompanham e torcem para algum time de futebol agradecemos por essa decisão, mesmo sabendo que não foi por respeito a nós.

Publicado por Movimento Bancada das Sereias em Sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Para além de Robinho

O caso de Robinho não é o único. Há diversos outros casos semelhantes de jogadores envolvidos em crimes de gênero e que seguiram sua carreira sem maiores empecilhos. O mais conhecido é de Bruno Fernandes de Souza, chamado popularmente de “goleiro Bruno”. Ele foi condenado, em primeira instância, como mandante do assassinato de Eliza Samúdio, mãe de seu filho.

A pena estabelecida foi de 22 anos e três meses de prisão. Atualmente, ele aguarda em liberdade pelo desfecho de seu processo. O jogador já fechou contrato com dois clubes mineiros antes mesmo de cumprir seu tempo de reclusão. 

Muitas mulheres têm medo de denunciar os abusos que viveram em decorrência de discursos como “uma acusação dessas destruirá a carreira do cara”. Entre tantos casosCuca, Dudu, Juninho, Vampeta, Maradona, Danilinho –, pode-se notar certa negligência por parte da Justiça e que a vida profissional dos atletas permanece intacta. 

Tais exemplos representam a omissão por parte dos representantes do futebol, que normaliza as diversas formas de violência contra mulher e, assim, contribui com a cultura de estupro vigente em uma sociedade machista, como a brasileira. Esse cenário não é aceitável. 

 

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