Home Virou História A 1ª Libertadores Feminina e as Sereias da Vila conquistadoras da América
A 1ª Libertadores Feminina e as Sereias da Vila conquistadoras da América
ARQUIBANCADA
18 out 2019 | Por Pedro Lobo

Mais de 14 mil santistas aglomerados na Vila Belmiro. O estádio na baixada, que chega a comportar 21 mil pessoas, está cheio de torcedores das Sereias da Vila. Às 11h30, no finalzinho da manhã de domingo, rola a bola para a final da primeira Libertadores feminina – já fazem dez anos daquele 18 de outubro de 2009.

Entre o batuque da organizada, balões brancos e papel picado descem das arquibancadas em festa. Um 9 a 0 contra o Universidad Autonoma, do Paraguai, carimbou a campanha das representantes brasileiras no ápice do futebol sul-americano.

Um continente (enfim) em disputa

A decisão da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) de iniciar um equivalente feminino ao consagrado torneio de clubes sul americanos levou quase 50 anos. Na época da criação da Copa Libertadores, nos anos 60, o futebol das mulheres ainda era proibido em países como o Brasil, permanecendo assim até 1979.

O que engatilhou a iniciativa 30 anos depois foi uma forte pressão política da equipe do Santos. A equipe campeã paulista e brasileira em 2007 – através de uma parceria com a prefeitura de Itanhaém – decidiu oficializar o time, oferecendo maior estrutura. No ano seguinte, ao vencer a Copa do Brasil, se viu em busca de uma conquista maior, é o que explica Aline Pellegrino, capitã do Santos na época: “Pressão não, vamos chamar do que? De advocacie… de lobby… de trabalho político? É isso! Está faltando uma competição aqui. Se no masculino se joga estadual, nacional e a competição internacional, cadê a competição internacional do feminino?”, a jogadora ainda completa: ‘Como é que pode um time como o Santos fazer um investimento daquele tamanho, o Brasil chegar em final de Copa do Mundo em 2007, medalha de prata em 2004, e não ter uma competição internacional de clubes aqui dentro?. Ali começou um trabalho político do Marcelo Teixeira [presidente do Santos] com a CBF, da CBF com a Conmebol… para que a Libertadores acontecesse. Se você fez a primeira, vai ter que fazer a segunda, a terceira… e tá aí dez anos da competição.”

Assim como nas primeiras edições do masculino, aquela em 2009 contava com pouquíssimos times. Eram 10, um para cada país filiado à Confederação. Com dois grupos de cinco – em que os dois melhores de cada cruzavam-se em uma semifinal– o torneio tinha sede única: o Brasil.

Com partidas da competição em São Paulo, Santos e Guarujá, as Sereias tinham pela frente o desafio de superar não apenas outros nove campeões nacionais, mas a pressão de representar o país-sede e lidar com o favoritismo de uma equipe multicampeã.

 

Formando um esquadrão

Desde o ano de 2007, as santistas viviam um momento muito vitorioso, iniciado pela conquista da Liga Nacional daquele ano, bem antes da CBF oficializar um Campeonato Brasileiro, 6 anos depois. Kleiton Lima, técnico do time na época, relembra aquele início. “A Liga Nacional, que era uma competição chancelada pela CBF, era a principal competição da época. A gente foi campeão com um elenco jovem, um time bem novo de meninas que estavam ainda anônimas, começando a despontar.”

Muitas das jogadoras que Kleiton cita, como Érika, Tamires, Fran e Alline Calandrini, entre outras, viriam a ser “protagonistas nas mega competições”, inclusive na Seleção Brasileira.

Escalação da equipe contra o Caracas, ainda na fase de grupos [Imagem: Reprodução]

Com os talentos em ascensão, além do nacional em 2007, as Sereias sagraram-se campeãs do estado (2007 e 2009) e do país (Copa do Brasil – 2008). Pela boa campanha, com a vinda do torneio continental, foram as escolhidas para competir pela taça. Mas mesmo sendo soberanas em terras nacionais, a ambição não diminuiu: nas palavras do treinador, daria para “tornar-se o time mais forte da América do Sul e conquistar o título”, a partir daí surgem as “cerejas do bolo”.

O pódio do futebol feminino internacional era quase que todo brasileiro: Marta era a melhor do mundo pela terceira vez, Cristiane a terceira melhor pelo segundo ano consecutivo, ambas jogavam nos EUA quando Kleiton sugeriu contratá-las. “A gente sabia que nosso time era suficientemente forte para jogar uma competição e ser favorito ao título independente de ter mais reforços, mas a responsabilidade  de sediar a primeira Libertadores era toda nossa, por isso, quanto mais pudéssemos nos reforçar para conquistar o título e não deixar passar essa oportunidade, seria imprescindível.”, relata.

Além da parte técnica, as estrelas, calejadas no futebol europeu, viriam para equilibrar o elenco “na parte de experiência e maturidade”, visando não apenas o título, mas “um futebol que pudesse representar o Brasil à altura dessa primeira competição”. 

Porém, segundo Aline, a vinda delas também carregava uma forte jogada de marketing do clube. A chegada de Marta à Vila Belmiro foi exibida pelo Jornal Nacional, e a presença dela em campo virou um atrativo a mais para o torneio, exibido em horário nobre pela TV Bandeirantes. Até os que eram de outras torcidas fariam um esforço para ver a melhor do mundo jogar em sua terra natal. 

Um espetáculo a preço popular

“O time era muito forte. Você via ali um time levinho, todo mundo magrinho, fininho, voando… o time era muito bom e redondinho. Aí vêm Marta, Cristiane… [ela solta um palavrão], fica um negócio surreal”, lembra a capitã.

Equipe comemora título [imagem: Santos FC]

Como se o chapéu na entrada da área não fosse o suficiente, Maurine corta uma, duas zagueiras num espaço muito curto. O que ela vai fazer agora? Magia! Da meia lua, o chute cavado acerta o travessão por capricho e estufa as redes da goleira boliviana.  O segundo gol da goleada de 12 a 0 contra o Enforma, ainda na fase de grupos. Nessa partida, Cristiane, a artilheira do campeonato, ainda meteu um de letra – um dos 15 gols que faria até a final da competição.

Falta lá no canto direito, perto da bandeirinha. Marta evita a saída num passe de calcanhar. Fran recebe, ginga, dribla para cima da defensora e leva uma pisada. Na bola parada, o lançamento da melhor do mundo é um passe preciso na cabeça de Cris. Gol. O quinto do Santos na noite define a vaga na final. A torcida explode no Pacaembu e a artilheira sobe no alambrado. Festa feita, mas com amarelo tomado, a camisa 89 é expulsa e fica fora da decisão.

Cristiane e Aline Pellegrino subiram no alambrado do Pacaembu após gol decisivo na semi-final [imagem: Santos FC]

Os ingressos que chegaram aos 5 reais durante a competição parecem pouco para o futebol das Sereias da Vila. “Se passar pela terceira, vai lá na forquilha”, é o grito de Luciano do Valle segundos antes do gol de falta de Marta aumentar a vantagem na finalíssima. A bola passa pela terceira jogadora da barreira e atinge o “canto onde a coruja dorme”, no encontro da trave com o travessão. Lindo. Esse, Cristiane aplaudiu dos camarotes da Vila.

42 gols em 6 jogos, apenas 2 gols sofridos, invencibilidade e muitas goleadas: números de uma equipe que foi a melhor defesa e o melhor ataque daquele título em casa. Ainda assim, o show das santistas descrito por Aline também tem algo a falar sobre o futebol sul americano de dez anos atrás.

A jornalista esportiva Luciane Castro, que cobriu o evento na época, fala de uma disparidade histórica entre as demais seleções do continente e o Brasil, visível para ela desde o primeiro Campeonato Sul-Americano entre seleções, em 1991. De lá para cá, das 8 edições da competição, as brasileiras venceram 7. Parte dessa diferença vem de uma questão  prática. “´É aquele mesmo sistema nosso: as meninas não crescem com bola no pé como crescem os meninos.”

Além disso, a questão do investimento é fundamental. Ainda que fique bem atrás de países como Austrália, Inglaterra, Nova Zelândia e EUA, o Brasil tem uma organização um pouco melhor que a dos vizinhos, é o que cita a também jornalista Juliana Arreguy. Para ela, a discrepância vista nas seleções é ainda maior nos clubes. “Mesmo com todos os problemas que enfrentam, os times brasileiros ainda são mais organizados do que as outras equipes da América do Sul”. Dentro dessas questões organizacionais, entra a qualidade das instalações, o número de atletas, a capacitação das pessoas envolvidas, entre muitos outros fatores.

 

Dez anos depois

Após a final contra a equipe paraguaia, Kleiton Lima citou o evento como um marco, um “divisor de águas”. De fato, muita coisa mudou em dez anos: as próprias Sereias da Vila viveram um momento difícil com o Santos fechando o projeto entre 2012 e 2014. Porém, o tempo também serviu para mudanças positivas: a Libertadores ganhou mais times – a partir de 2019, serão 16; e a qualidade do futebol no continente tem se elevado.

É o que relata Luciane, que tem visto isso ao longo dos anos: “Eu cobri três Libertadores in loco (2009, 2011 e 2014) e foi um divisor de águas porque você começa a observar muitas equipes sul-americanas melhorando muito o nível de seu futebol.”

Ela cita como exemplos a Colômbia, a Venezuela e o Chile, que “começaram a ver o futebol feminino com mais interesse e a melhorar o nível”. O último viria a derrubar a hegemonia brasileira na Libertadores, com o Colo-Colo campeão em 2012.

Com a obrigação dos clubes sul-americanos, a partir desse ano,  de assumir uma equipe feminina para disputar as competições da Conmebol, Aline Pellegrino vê a melhora da Libertadores como um movimento natural. Ela acredita numa “via de mão dupla”: ao pedir que os clubes invistam, também haverá pressão para que se organize campeonatos melhor estruturados. “É a moeda de troca que vai rolar!”, diz ela.

Com tais progressões, Juliana também tem uma perspectiva positiva para que a modalidade encontre um equilíbrio de forças entre os países: “Essa realidade está mudando um pouco. Ainda se vê o Brasil como uma hegemonia grande na América do Sul, mas os outros países também estão se reforçando: a Argentina está brigando pela profissionalização das atletas, o Chile também teve um boom muito grande no futebol feminino nos últimos anos, até fez sua 1ª Copa do Mundo esse ano. Acredito que não muito longe a gente deve ter essas equipes brigando de igual pra igual com o Brasil”, conclui.

 

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