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Observatório: Perdendo o encanto – as marcas do racismo na infância
Controle Remoto
04 ago 2019 | Por Por Anderson Lima (anderson.marques.lima@usp.br) e Mariana Carrara (marianacarrara@usp.br)

Imagine a seguinte cena: no dia 22 de julho de 2019, uma criança entra no Youtube e procura pelo canal favorito de desenhos animados. Ao entrar no canal My Pingu TV, descobre que há novo episódio sobre o mais recente conto de fadas. Outra narrativa comum sobre príncipes e princesas, correto? Infelizmente, o que vemos é, na verdade, mais um caso de racismo em um desenho animado. 

Com um canal de aproximadamente 700 mil inscritos, os espectadores que tiveram a oportunidade de assistir ao episódio de Dina and the Prince Story viram uma princesa recebendo uma maldição de seu pai, no momento que decide conversar com um príncipe. Das diversas consequências que poderíamos esperar, o roteiro opta pela pior escolha possível: Dina, anteriormente uma princesa de pele branca, cabelo liso, comprido e de cor castanha, passa a ser uma princesa de pele negra, com cabelo cacheado e castanho escuro. 

Através de dizeres como “agora eu estou feia” e “perdi meu brilho”, o desenho tenta nos mostrar que mesmo com a princesa ficando “feia”, o príncipe opta por continuar com ela, demonstrando que a ama, independente de sua aparência. Uma mensagem moral que perde todo sentido no momento que perpetua a noção de que uma cor de pele é mais bonita que outra. 

Após diversas reclamações com relação ao conteúdo racista, o desenho foi excluído e substituído por uma nova versão, com um pedido de desculpa segundos antes da nova versão iniciar: “Nós e nossa equipe de animação cometemos um grande erro. Garantimos que não foi intencional e prometemos que isso não acontecerá de novo. Obrigado por todo o seu apoio ao nosso canal todos esses anos”. 

Em entrevista à Jornalismo Júnior, Oswaldo Faustino, jornalista, escritor e grande ativista do movimento negro, comentou o fato: “Não sei se um mero pedido de desculpas consegue corrigir os danos já provocados”. Na opinião do autor, “há a necessidade de se produzir não só uma correção na história, mas algo de igual qualidade, que tenha como mensagem a valorização da diversidade, das diferenças que não podem e não devem ser hierarquizadas.”  

O caso apresentado por Dina and the Prince Story é apenas mais um ocorrido dos diversos exemplos que podemos ver ao longo da história. 

 

A música continua a mesma: narrativas racistas em desenhos animados

Talvez um dos maiores exemplos de desenhos com representações racistas seja Tom e Jerry (Tom & Jerry, 1940). Isso fica tão evidente, que, em 2014, ao incluir o desenho em seu catálogo a Amazon Prime adicionou um aviso para os assinantes, dizendo que “Tom e Jerry pode mostrar alguns preconceitos étnicos e raciais que já foram comuns na sociedade norte-americana. Estas representações eram erradas na época e são erradas hoje.” 

A utilização do conceito de blackface não fica restrita ao personagem Tom, mas vira um artifício visto em diversos episódios e na maioria dos personagens  [imagem: Copyright Warner Bros.]

O maior problema ocorrido no desenho seria os estereótipos que permeavam as décadas de 1940/1950 envolvendo a figura do negro. A problemática mais famosa ocorre no episódio Mouse Cleaning, em que Tom pinta a cara com carvão para enganar a personagem Mommy Two Shoes, figura negra. O ato de Tom é a representação do conceito blackface, no qual a pessoa pinta seu rosto de preto e os lábios de vermelho no intuito de interpretar de forma caricata uma pessoa negra.

 Em 1968, a Warner decidiu excluir 11 episódios dos Looney Tunes, desenho famoso por ter Pernalonga, Patolino, entre outros personagens. Esses episódios consistiam em cenas com conteúdo politicamente incorreto ou ofensivo, e a parte ofensiva era geralmente direcionada a algum conteúdo racista. All This and Rabbit Stew é o episódio mais polêmico envolvendo o tema, por mostrar um caçador negro que é enganado diversas vezes pelo Pernalonga, enquanto o coelho fala diversas injúrias com relação a sua etnia.   

Engana-se quem pensa que só a Warner publicava desenhos com conteúdo polêmico. Em 1940, a Disney lançou o desenho Fantasia. Em um ambiente místico, cheio de seres mitológicos, centauras se banhavam em um riacho e essas centauras eram representadas como sendo de pele branca e com cabelos de loiro a prateado. De repente, vemos a introdução de uma centaura de pele negra e cabelos enrolados lixando o casco de uma centaura “comum”. Essa cena foi modificada a medida em que novas versões saíram e, nessas versões, vemos a exclusão dessas centauras negras, e até uma mudança para um plano mais fechado, ocultando assim seu surgimento. 

O bom marinheiro Popeye também não escapou de ter momentos racistas em seu início, mostrando retratos preconceituosos a personagens com características africanas. Ao vencer uma batalha contra habitantes de uma ilha, o pai de Popeye aproveita para colocar uma placa no pescoço de um nativo negro. Nessa placa, vemos os dizeres Cheaper by the Dozen (“Mais barato se comprado aos montes”), fazendo uma clara alusão à escravidão. 

Enquanto alguns desenhos mostram o racismo de forma mais sutil, outros como Popeye já colocam em evidência a perpetuação de um pensamento racista [Imagem: Domínio Público]

Como mudar o tom: Resgate da caracterização negra

Essa manutenção do discurso racista no entretenimento infantil faz com que a criança branca cresça sem empatia pela marginalização do negro e a criança negra com problemas de autoestima por não conseguir se enxergar em um personagem ficcional.

De acordo com Faustino, os desenhos animados, filmes ou séries infantis com “pretinhos de olhos esbugalhados e pouca inteligência” desqualificam o negro no terreno fértil do imaginário infantil, e os danos são inimagináveis na formação de crianças quando elas têm acesso a essas produções: quer para as negras, que terão sua autoestima abalada e adquirirão complexo de inferioridade que as faz se sentirem impotentes frente às exclusões, “quer também nas demais crianças que entenderão que o ‘natural’ é ser branco e detentor de fenótipos que lhes confere nobreza e lhes garante privilégios, jamais oportunizados aos ‘amaldiçoados’”, pontuou o autor.

A socióloga Jessi Streib liderou um estudo no qual analisou 36 filmes infantis. A pesquisadora chegou à conclusão de que eles perpetuam estereótipos sociais e de gênero, pois, embora os filmes sejam fictícios, sua popularidade entre as crianças faz a constatação ganhar relevância e perpetua em seus imaginários mitos relacionados à desigualdade. Essa mesma linha se aplica ao racismo. 

Os desenhos não criam estereótipos, padrões e preconceitos, mas eles reproduzem os já existentes na sociedade e a as crianças os aprendem. Sejam padrões de gênero, de classe ou de cor, ao reproduzir os desenhos ensinam para as crianças que aquilo é o “normal”.

Cena de Dina and the Prince Story em que o príncipe a vê pela primeira vez “feia” . [Imagem: Reprodução/ My Pingu TV]

Além disso, eles colaboram para a dificuldade de aceitação da criança negra logo na infância. Kiusam de Oliveira, doutora em Educação, mestre em Psicologia pela USP, especialista nas temáticas das relações étnico-raciais e contadora de histórias, questiona: “de que forma uma criança negra pode encontrar significado positivo na vida se não consegue se ver como personagem central no universo dos desenhos que lê e assiste?”

Por isso, Kiusam resgata a ancestralidade em suas histórias. Ela defende que a ancestralidade é capaz de provocar as costuras psíquicas necessárias para que suas identidades, fragmentadas pelas vivências racistas, sejam reconstruídas de forma saudável”.

Não é necessário só a existência de desenhos que não sejam racistas, mas também daqueles que mostram uma imagem positiva da criança negra, que ela não está acostumada a encontrar na mídia e na educação. 

Na série de livros Aventuras de Luana, a qual Oswaldo Faustino escreveu com Aroldo Macedo, Luana é uma menininha negra de 8 anos que vive num remanescente de quilombo, luta capoeira, tem família e tem um berimbau mágico que a leva para viajar pela história de seu povo. Eles não criaram apenas um reflexo para as crianças negras, porém um espelho em que as demais crianças passam a não ver os negros caricaturados, mas finalmente valorizados. “Luana é uma espécie de espelho mágico que naturaliza a beleza física, mas também a intelectual e a cultural afro-brasileiras”, disse o autor. 

Coleção de livros “Aventuras de Luana”, de Aroldo Macedo e Oswaldo Faustino [Imagem: Editora FTD]

As crianças reproduzem o racismo que vêem nos desenhos e, portanto, continuar exibindo e criando desenhos com conteúdo racista colabora para a manutenção deste preconceito. Nesse sentido, Oswaldo cita a famosa frase de Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto”

E diz que no caso dos desenhos infantis, não se trata do “não fazer” para “não influenciar”, mas do fazer o oposto para influenciar positivamente. “Nós, das comunicações temos as ferramentas para promover, incessantemente o anti-racismo”, disse Oswaldo. 

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