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Os avanços da edição 41 da SPFW
Eu Fui
30 abr 2016 | Por Jornalismo Júnior

A quadragésima primeira edição da Semana de Moda de São Paulo (SPFW, como é mais conhecida) aconteceu nessa última semana de abril, trazendo muitas novidades e abrindo espaço para vozes que precisavam ser ouvidas. A começar pelo próprio nome: sem primavera/verão ou outono/inverno, a edição de abril só trazia o título de SPFW N41, fazendo referência ao número de edições do evento. Em um país onde não há estações bem definidas ao longo do ano, manter uma separação por esse critério não fazia sentido, como faz em outros lugares. Assim, pioneiramente, essa edição apresentou-se como um híbrido das estações que temos em solo brasileiro.

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Um dos salões para trânsito do público contava com painéis de led de cenas do mundo da moda. Imagem: Isabella Schreen.

Além disso, dessa vez, as roupas desfiladas nas passarelas estarão disponíveis para os consumidores dias depois, e não mais dali a seis meses como acontecia. Isso porque, com o avanço das redes socias – e toda a transformação dos desfiles em espetáculos por essas ferramentas -, os consumidores se aproximaram cada vez mais das semanas de moda pelo mundo. As roupas desfiladas passaram a chegar aos consumidores muito tempo antes de pararem nas araras, através de fotos no instagram, twitter, facebook e snapchat. Com um tempo tão grande de exposição, o desejo pela peça já tinha acabado quando ela chegava nas lojas. O desejo de consumir é imediato, logo no momento em que colocam os olhos nas peças de roupa. Isso se tornou custoso para as marcas, que tinham que investir mais em divulgação para lembrar as pessoas de toda aquela coleção desfilada há seis meses. Os eventos, que antes eram direcionadas majoritariamente para profissionais da indústria, passaram a atender os consumidores, que são os que movem o mundo fashion, afinal. Agora, de fato, os desfiles focam nesse público. O SPFW, dessa vez – excetuando algumas grifes -, atendeu os anseios dos consumidores ávidos por consumirem, adequando seu calendário ao varejo, seguindo a tendência do “see now, buy now” (veja agora, compre agora).

Mas não foi só nisso que o evento inovou: trouxe temas lindos para discussão. Empoderamento feminino – de mulheres gordas e negras – foi pauta de bate papos na Praça Natura. Convidados como Jout Jout, Lorena Monique, Luana Génot, Karla da Silva, Jessica Tauane, Likiner, Elza Soares, Marina Caruso, Pathy Desejus e Fluvia Lacerda discutiram temas como empoderamento pela maquiagem, gordofobia, racismo e padrões de beleza em meio aos desfiles que aconteciam no pavilhão da Bienal.

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Pathy Soares (direita), Paulo Borges (ao centro) e Fluvia Lacerda finalizaram a sequência de rodas de conversa na Praça Natura. Imagem: Isabella Schreen.

Foi tudo muito lindo – na teoria. Enquanto rolavam papos empoderadores no setor “público” do evento, nas passarelas a cena era outra. É claro que havia toda a questão da beleza feminina lá também, contando que fosse de uma: magra, alta e com uma bela cintura fina. A questão negra, amplamente discutida e defensora do reconhecimento dessa beleza e a não segregação da mesma, foi um dos pontos mais comentados e, felizmente, é possível afirmar que seu reflexo na passarela está mudando. É evidente que ainda é o começo e a supremacia branca ainda é clara, porém, ano após ano o cenário está evoluindo.

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Alguns desfiles podiam ser assistidos em um dos dois painéis espalhados pelo evento. Imagem: Isabella Schreen.

Apesar disso, com relação a gordofobia e a modelo plus size, nada de novo. A mesmice ultrapassada, fiel defensora do corpo magro e modelado por dieta de alface ainda impera não só nas passarelas, mas no cenário fashion em si. Este foi o assunto mais debatido no último dia na roda de conversa, em que a modelo plus size Fluvia Lacerda criticou o padrão de beleza do mercado e defendeu a igualdade. Afinal, cerca de 50% das mulheres brasileiras estão acima do peso, então por que só as magras podem ser high fashion? Isso foi pontuado como um erro primário de falta de análise de mercado, mas todos sabem que existe sim um quê de preconceito. As discussões propunham criticar o cenário segregacionista e, se o fluxo motivador persistir, os chefões da moda hão de ouvir o clamor da mulher comum.

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As fotos da modelo foram estilizadas para mostrar a sensibilidade. Imagem: Isabella Schreen.

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As fotos da modelo foram estilizadas para mostrar a sensibilidade. Imagem: Isabella Schreen.

O projet How Do I Feel Today (como me sinto hoje) foi outra das atrações para o público da semana. Uma bela parede de uns bons metros de comprimento foi preenchida por 365 retratos, uma correspondente a cada dia do ano, da modelo e artista plástica Nathalie Edenburg. O objetivo era transparecer a intimidade de seus estados de espírito, e mostrar a sensibilidade e o desapego da beleza, através das fotos e de suas intervenções artísticas sobre os retratos dela, como mostrado na foto acima. Ela buscou explorar a diferença nos detalhes de cada dia, que a complementam e a torna singular.

A violência doméstica também foi pauta no evento, através de uma exposição do projeto Apolônias do Bem, uma iniciativa da ONG Turma do Bem. A mostra contava com fotos que mostravam o trabalho realizado pela organização: oferecer tratamento dentário gratuito à mulheres vítimas de agressões domésticas tão severas, que lhes causaram a perda dos dentes. Outro ponto que merece destaque, foi o desfile de Ronaldo Fraga, que colocou na passarela refugiados para desfilar, criticando a intolerância e a indiferença de alguns países que viram às costas para essas pessoas.

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Duas fotos conseguiam retratar o efeito da mudança visual das mulheres envolvidas na campanha. Imagem: Isabella Schreen.

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Duas fotos conseguiam retratar o efeito da mudança visual das mulheres envolvidas na campanha. Imagem: Isabella Schreen.

A primeira edição desse ano da semana de moda paulistana trouxe sim muitas inovações, mas ainda temos um relativo longo caminho a percorrer no que diz respeito a inclusão e representatividade das mulheres no mundo da moda. Pelo menos, com o “see now, buy now”, percebe-se que o clamor do público consegue sim ser levado em consideração na organização do  evento.

Por Victória Del Pintor e Isabela Schreen
vicdelpintor@gmail.com | isabella.schreen@gmail.com

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