Home Raio X O ar rarefeito no futebol latino
O ar rarefeito no futebol latino
ARQUIBANCADA
12 jan 2021 | Por Jornalismo Júnior

Toda Libertadores da América ou Eliminatórias para a Copa do Mundo, surge aquele temor acerca dos jogos acima do nível do mar. Tanto na questão da velocidade do jogo, quanto nos  quesitos fisiológicos, partidas em altitudes elevadas costumam ser um trunfo para os mandantes e um assombro para os visitantes. O andamento da partida, em alguns casos, é tão diferente que, no ano de 2007, a FIFA chegou a proibir jogos acima dos 2.750 metros caso as equipes não se aclimatassem à altitude, medida revogada posteriormente.

O desempenho de equipes locais, comparado aos jogos ao nível do mar, possui uma diferença notória, como no caso Bolívia. Jogando em La Paz, cidade localizada à 3.640 metros de altura, a seleção costuma aprontar contra as principais potências, mesmo sem um grande desempenho técnico. Nessa cidade, por exemplo, foram oito confrontos contra a seleção brasileira, com quatro vitórias bolivianas. No histórico do confronto, só houve mais outra vitória contra o Brasil, demonstrando a influência da altitude. 

Mas por que existe essa assimetria tão grande entre os jogos a nível do mar e os com alturas elevadas? Quais as alterações ocorridas no âmbito esportivo e no fisiológico? A questão envolvendo a influência da altitude no desempenho esportivo apresenta um conjunto de variáveis: aclimatação, metabolismo, estrutura e, até mesmo, a altitude em si impactam os atletas de formas heterogêneas.

 

As mudanças, os efeitos e os impedimentos

Jogadores do São Paulo FC com o auxílio de cilindros de oxigênio [Imagem: Marcelo Hazan/globoesporte.com]

Não é raro em torneios continentais na América Latina encontrarmos confrontos entre times ou de seleções baseadas em locais de altitudes diferentes. Quando esses confrontos ocorrem em grandes altitudes, os atletas visitantes sofrem os efeitos desse novo ambiente, de propriedades que seus organismos ainda não estão acostumados.

Segundo o médico e chefe do Departamento Médico do Avaí Futebol Clube, Luís Fernando Funchal, o grande diferencial está na pressão do oxigênio presente no ar. Na chamada altitude, mais impactante a partir de mais de 2000 metros, há uma diminuição da concentração das moléculas de oxigênio dispersas no ar para que o indivíduo possa fazer a captação através de seu sistema respiratório.

O chamado “Mal da Montanha” produz diversas alterações fisiológicas em um organismo durante seu período de adaptação. A altitude provoca sonolência, dor de cabeça – denominada cefaleia – fadiga muscular precoce, dor muscular  inadequada, sensação de náusea e vômito. Tais efeitos causados pela rarefação do oxigênio são potencializados quando esse indivíduo não adaptado pratica atividades físicas.

Essa mudança ambiental começa a surtir efeito algumas horas depois da chegada no local alto. O médico comenta que o ideal seria realizar um período de adaptação de cerca de sete dias, para que se consiga ter uma melhor ambientação na baixa concentração de oxigênio do ar. Luís também comenta que o calendário e os custos vão contra as logísticas dos clubes e tornam-se obstáculos para um procedimento mais adequado: “Você muda toda uma equipe para ficar sete dias num local que não é a sua casa, com custos altos, treinando, tentando manter um nível de treinamento”, comenta.

Uma das técnicas muito utilizadas pelos clubes é a de viajar para o local de jogo em um horário muito próximo ao da partida. Nesse cenário, as equipes buscam justamente dar menos tempo para que a  altitude faça efeito no metabolismo de seus jogadores. 

Luís afirma que para executar esse planejamento, os times efetuam suas viagens em duas escalas: “O indivíduo vai à primeira escala, que fica em um nível mais baixo, e depois tem um voo ou um transporte muito rápido para o local de maior altitude. Assim, o atleta chega lá em torno de, no máximo uma ou duas horas, em cima do momento que vai fazer a atividade física”.

Percebe-se que há um certo menosprezo quando a mídia esportiva se refere aos times e seleções localizados na altitude. O tom utilizado é o de desvalorizar o aspecto esportivo das equipes e focar apenas no elemento da altitude como a maior virtude das equipes. 

Embora tenha afirmado que a altitude afeta, até certo grau, o alto desempenho esportivo, Luís Funchal faz algumas ressalvas: “Temos que nos lembrar que o país inteiro não é na altitude. E por mais que a altitude tenha sim um impacto, tudo está envolvido em educação”, comenta. 

De fato, o fator que deve prevalecer na análise de um país como potência esportiva perpassa sua situação socioeconômica e o tratamento do esporte como uma política pública.

 

Dopagem bioquímica 

Também chamado de doping no mundo esportivo, a dopagem bioquímica consiste em métodos ilegais de aprimoramento físico e que tem seu uso passível de punição. 

Há diversos tipos de dopagem no esporte. Uma tática muito popular nas décadas de 70 e 80 consistia uma “dopagem sanguínea” através do recebimento de sangue previamente coletado na altitude baixa. 

Atualmente banida, a tática é detalhada por Luís Funchal como “o aumento da quantidade de sangue agudamente, que é a eritropoietina. Ela é considerada doping porque você aumenta rapidamente a capacidade de transporte de oxigênio do sangue, algo que o atleta não está acostumado”. 

Ele também relata os perigos dessa abordagem, que eleva o risco de tromboembolismo. Se trata da coagulação do sangue e obstrução dos vasos, problema que pode comprometer alguns de suma importância levando a acidentes vasculares e  ao infarto. Segundo Funchal, esse risco existe pois promove “alterações sanguíneas abruptas de forma que o teu próprio organismo não consegue se adaptar e levar a riscos desse tipo”.

Em muitos países da América do Sul, tem-se o hábito de mascar a folha da coca. No entanto, tal prática é sabidamente considerada doping. O último caso mais veiculado sobre a coca envolveu o jogador Paolo Guerrero, penalizado e forçado a ficar 251 dias afastado dos campos. 

Luís comenta que a substância tradicional é um vasodilatador e atenua os efeitos fisiológicos provocados pela altitude. Dessa forma, a substância ajuda a tolerar a cefaleia e a sensação de mal-estar.

 

O efeito reverso?

Considerando o efeito da altitude na oxigenação humana, poderíamos considerar então que um atleta que treina normalmente na altitude teria uma vantagem de certa forma “desleal” quando fosse competir no nível do mar? A resposta é não.

Luís Funchal ressalta na entrevista a flexibilidade do organismo humano, que se desenvolve a partir das necessidades de seu ambiente. Assim, deve-se lembrar que uma pessoa acostumada ao ambiente da altitude apresenta a necessidade de ter um maior número de transportes de oxigênio, justamente pela rarefação do oxigênio natural.

O médico afirma que o ar rarefeito aumenta alguns fatores, mas também prejudica outros. A partir disso, esses indivíduos também necessitam de um período de adaptação, uma vez que “as células param de funcionar adequadamente do transporte. Então também parece que precisam dessa adaptação ‘contrária’ ’’, comenta Funchal.

 

Quando a altitude entra em campo

“No começo é complicado porque seu corpo não está acostumado com pouca oxigenação, eu sentia cãibras muito rápido”, é assim que Thomaz Santos, brasileiro naturalizado boliviano, com passagens por Jorge Wilstermann e Bolívar, relata suas primeiras experiências jogando em grandes alturas. Ele ainda conta que, até se adaptar ao ambiente, quase não conseguia dormir pela aceleração dos batimentos cardíacos.

 

https://www.instagram.com/p/Bs4MxSKBmoj/ Thomaz em ação pelo Bolívar, contra seu ex-time, Jorge Wilstermann [Imagem: thomazsantos19/Instagram]

 

Uma das causas das cãibras é o acúmulo de ácido lático nos músculos, provocando fadiga em excesso. Essa substância é produzida em atividades físicas de longa duração e de longas distâncias (o jogador corre, em média, de 12 a 14 quilômetros/jogo), e nem sempre a oferta de oxigênio é suficiente. Na altitude, em que há uma diminuição das taxas desse gás na atmosfera, existe uma propensão maior de sofrer tal desconforto.

O que mais afeta os atletas de clubes sul-americanos aclimatados ao nível do mar é, justamente, essa falta de oxigênio na atmosfera, ocasionando a dificuldade de respirar e, consequentemente, de manter o vigor físico durante toda a partida. É por isso que, para tentar manter o ritmo de jogo, dispõem de tubos e tanques de oxigênio nos vestiários. São utilizados, principalmente, no intervalo de jogo, para voltar ao segundo tempo em ritmo semelhante ao do primeiro, e no fim do jogo, para iniciar a recuperação.

Funchal apresenta que, além da pouca oferta de oxigênio, o que também dificulta a respiração é a baixa umidade do local: “É muito seco, e essa secura leva também a uma ressecamento das vias aéreas. As vias aéreas ficam ressecadas e difíceis de trabalhar, ficam ásperas, porque precisam de umidade. O indivíduo acaba tendo dificuldade em respirar e em oxigenar os tecidos e isso também dá uma sensação muito ruim”.

Apesar dessas dificuldades, há um ponto explicitado por Thomaz que pode, inclusive, melhorar a qualidade do jogo. Para ele, a altitude, por dificultar a captação de oxigênio pelo organismo, promove um jogo com menor velocidade do que normalmente, propiciando o toque de bola: “Fica um jogo mais jogado, sem muita marcação e pressão por conta do desgaste maior”.

Mas se o jogador tem dificuldade para correr, o que traz velocidade à partida é a bola. A aerodinâmica dela é diretamente influenciada pela pressão atmosférica e pela resistência do ar e, consequentemente, quanto mais alto, menor são esses índices. Um exemplo extremo dessa situação é o do time Real Potosí, da Bolívia, que manda seus jogos na cidade homônima, a 4.000 metros de altura, onde tanto a pressão quanto a resistência possuem cerca de 65% desses parâmetros a nível do mar.

Em grandes altitudes, portanto, a bola tem tanto seu curso quanto sua velocidade alterada, parecendo ficar até mais leve. Isso favorece os chutes de longa distância, mas não por auxiliar o atacante e, sim, por dificultar o trabalho dos goleiros. É por isso que, antes de partidas muito acima do nível do mar, preparadores começaram a aplicar treinos com bolas de vôlei para simular os efeitos da altitude, já que o material destas é mais leve e tem mais variações em sua trajetória.

 

A influência no resultado final

A aclimatação ao ambiente de altitude é fundamental para se conseguir ter uma experiência melhor no jogo de futebol e, aliado à grande qualidade técnica, algumas equipes costumam se dar melhor do que outras – como foi o caso da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970. É inegável que aquele esquadrão, com os cinco “camisas dez”, tinha talento e era um dos favoritos para a conquista do torneio. Porém a preparação conduzida por Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira foram essenciais para a adaptação da equipe aos efeitos de altitude, sendo a primeira equipe a desembarcar no México, um mês antes do início da competição.

E, em campo, essa preparação foi essencial para que a seleção mantivesse o vigor físico no segundo tempo, diferentemente das outras equipes. Jogando a maioria das partidas no estádio Jalisco, em Guadalajara (1560 metros de altura), e a final no estádio Azteca, na Cidade do México (2250 metros de altura), 12 dos 19 gols marcados, por exemplo, foram na segunda etapa, além de só ter sofrido dois gols nos 45 minutos finais, demonstrando a superioridade física incomum jogando na altitude. 

Entretanto, atualmente, o calendário é muito apertado e os times de futebol não conseguem aclimatar-se, o que faz com que os jogadores sintam os efeitos da altitude de forma contundente. Foi o que aconteceu com a Argentina, nas eliminatórias da Copa de 2010, contra a Bolívia, na temida altitude de La Paz. No ano de 2009, Messi, prestes a ser eleito melhor do mundo pela primeira vez, Tévez, Aguero e Di Maria não conseguiram praticar seu futebol e, muito influenciados pela falta de ar sentida, perderam por 6 a 1, a pior derrota sofrida pelos argentinos na história.

O gol de Marcelo Moreno (de camisa verde) que abriu o placar para a goleada histórica [Imagem: Reprodução/SporTV]

Mas é na Libertadores da América e na Copa Sul-Americana que esses confrontos são mais comuns. As competições anuais promovem embates entre times com uma maior capacidade de investimento e de qualidade técnica e equipes que utilizam dos jogos na altitude e de retrancas para tentar alcançar resultados e classificações. Tudo isso aliado à catimba e à pressão quase que intrínsecas a essas competições.

Foi o caso de Santos e Bolívar, pelas oitavas de final da Libertadores de 2012. Defendendo o título da competição, o alvinegro praiano teve dificuldades físicas por conta da altitude e, junto com uma atuação violenta da equipe boliviana, perdeu o primeiro jogo por 2 a 1. Contudo, no jogo de volta, Neymar, Ganso e companhia mostraram o porquê eram tão idolatrados e golearam por 8 a 0, decretando a classificação e apresentando como os efeitos da elevação foram decisivos no primeiro confronto.

Neymar marcando, de pênalti, o segundo dos oito gols da partida [Imagem: Reprodução/SantosTV]

A altitude costuma ser um grande diferencial dentro das quatro linhas e um imenso temor dos preparadores físicos. Estes que tentam o máximo para que as equipes não sejam tão prejudicadas pelos efeitos dela, seja no placar, seja no corpo humano.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*