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Para entender o sucesso e influência de O Senhor dos Anéis
CINÉFILOS
29 maio 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Isabella Galante
isabellavgalante@gmail.com

gif hobbit

O Filme

O Senhor dos Anéis é uma trilogia de filmes baseada nos livros de J.R.R.Tolkien, linguista britânico. O primeiro volume foi lançado em 1954, enquanto a primeira produção cinematográfica só apareceu em 2001, dirigida por Peter Jackson. São mais de nove horas de sequência para os três filmes e com certeza foi um desafio para o diretor adaptar os livros densos, complexos e tão ricos em detalhe para a versão de cinema.

A história, que é uma continuação da trilogia de O Hobbit, se desenrola em um lugar chamado Terra Média e é baseado na luta entre o Bem e o Mal pela posse de um anel mágico. Uma lenda conta que anéis com poderes mágicos foram criados pelos elfos e distribuídos entre líderes de diversos povos; um deles é forjado pelo Senhor das Trevas para que ele pudesse controlar todos os outros. Mas o vilão acaba perdendo o anel, que vai parar nas mãos de Frodo Baggins, um hobbit que passa a ser perseguido por causa do objeto. Em sua aventura, o protagonista terá que atravessar a Terra Média, em uma expedição até a Montanha da Perdição, com a ajuda de elfos, magos, anões e humanos para destruir o anel e impedir que o Mal reine.

A saga, repleta de seres incomuns e particularidades linguísticas, geográficas e políticas, está entre uma das mais famosas na literatura fantástica. Existe toda uma cultura criada por conta da história, que encanta milhões de pessoas pelo mundo.

Para quem ainda tem dúvidas, assista:

Efeitos Especiais

Os efeitos especiais criados para a trilogia marcaram para sempre a forma de se fazer cinema, e é um das razões pela qual os filmes são tão aclamados. Em 1980, é fundada a empresa Weta Ltd., sendo Peter Jackson um dos sócios. Nos anos 90, surge Weta Digital, um segmento próprio para lidar com os efeitos especiais.

A trilogia de O Senhor dos Anéis começa a ser rodada simultaneamente, na Nova Zelândia, entre 1999 e 2001 (18 meses). Foram dois anos de pré-produção e dois após, para toda a trilogia, com o trabalho de 2.400 pessoas na equipe de produção e técnicos, 260 só de artistas que lidaram com os efeitos especiais. Nunca nenhum cineasta teve tanto dinheiro para um projeto. Só o primeiro filme custou aproximadamente U$ 300 milhões, estima-se que o custo da trilogia tenha sido de US$ 600 milhões.

Ao longo da saga foram usados 2730 efeitos computadorizados, um recurso crescente ao longo da saga. O último filme, O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (Lord of the Rings: The Return of the King, 2003), sozinho usou 1488 efeitos. A empresa lidou com a produção de forma única e inovadora para época, sendo usadas as técnicas: miniaturas, perspectiva, animação com o motion capture e os programas.

Miniaturas

A Weta criou o termo bigature em referência às 68 miniaturas de tamanho extremo (2,70 m) produzidas para o filme. Essa técnica foi usada durante toda a trilogia, combinada com os efeitos especiais (e câmeras controladas por computador para combinar os modelos com os atores), como para a torre de Sauron e Valfenda. A equipe de miniaturas trabalhou mais do que qualquer outra de efeitos especiais, totalizando mais de mil dias.

A bigature mais notável foi a de Minas Tirith (foto acima), que aparece no último filme. Ela tem 4 m até a torre mais alta e 9 m de largura. Os detalhes eram suficientes para sustentar o máximo close.

Perspectiva

Peter Jackson não foi a primeira pessoa a usar a técnica de perspectiva forçada em filme, mas ele conseguiu um resultado alcançado por nenhum outro. Em comparação com os outros efeitos, esse é simples e acabou sendo o mais efetivo.

O resultado desejado era conseguido basicamente colocando um ator mais perto da câmera que outro, depois aperfeiçoado pelos técnicos de efeitos especiais, fazendo com que quem interpretasse um hobbit parecesse menor que o resto do elenco. Elijah Wood, que interpreta Frodo, tem 1,68 m de altura, enquanto o personagem tem 1,07 m. Os efeitos podiam ser produzidos fazendo com que os atores que deveriam parecer maiores usassem roupas acima de seu tamanho normal, dublês (como anões) foram usadas em algumas cenas, e sets inteiros foram construídos em outras, para que todos ficassem do tamanho previsto por Tolkien.

Quando os atores interagiam diretamente com os hobbits, o diretor precisou usar mais de um método, do mais fácil ao mais complicado. A ideia era fazer parecer com que os personagens estivessem perto, mas na verdade os atores estavam bem longe, por isso foi preciso construir tudo no set para que houvesse interação e ao mesmo tempo escondesse o truque.

Essa cena foi gravada com ambos no mesmo cenário, mas a carroça foi construída para que a câmera ficasse fixa, escondendo que um sentava quase um metro longe do outro; ela era programada para que nenhum dos atores ficasse desfocado.

Ficava complicado quando a câmera não pudesse ficar perfeitamente imóvel. Então os produtores decidiram fazer algo inédito. Nesses casos, o equipamento ficaria em uma grua e o set em uma plataforma móvel, para que a cada movimento de câmera, cada parte se moveria de acordo, e a perspectiva ficaria normal. Os objetos em cena também era de tamanhos diferentes para interagir com os personagens grandes e pequenos.

Para outras cenas, um conjunto de duas escalas foi usado. O ator que interpreta o anão Gimli (que deveria ter 1,4 m) era mais alto que a média, assim ele poderia atuar com os hobbits na mesma escala, enquanto os homens e elfos (de altura de 1,5 a 1,8 m) eram filmados depois. As duas cenas eram compostas para criar uma imagem, após fazer com que a escala dos personagens de menor altura, tivesse o tamanho reduzido, não precisando de dublês.

Animação

Os criadores gastaram meses de criação e variação com esboços e esculpindo maquetes, antes de aprovarem os projetos.

gollumAnimadores, então, faziam esqueletos e os músculos para que ficassem mais realísticos e depois coloriam. O processo era extremamente trabalhoso e complicado. Porém a maior herança deixada pela saga foi o motion capture, que foi usado nas acrobacias (principalmente para o personagem Legolas), nos cavalos (embora as mortes são de animação) e de forma mais notável para criar o Gollum.

A Weta começou a animar a criatura mais famosa dos filmes no final de 1998, para convencer os distribuidores a usar técnica. Andy Serkis interpretou o personagem, fornecendo a sua voz e os movimentos. Originalmente ele seria apenas digital, mas o diretor ficou tão impressionado com interpretação do ator que decidiu usá-lo em cena também.

Serkis contracenou com os outros em todas as cenas em que aparece. Para sincronizar os movimentos faciais e corporais, a equipe fez com que o ator, que tinha 12 câmeras apontadas para ele, vestisse um macacão de lycra com sensores ligados a um computador. Eram feitas três tomadas de cada sequência: uma com o ator sozinho, outra com seus colegas (como um ensaio para que os artistas soubessem para onde olhar) e a terceira no cenário real só com quem apareceria mesmo.

O time de animação usava os dados de captura de movimento e recreação manual das impressões faciais de Serkis, houve todo um estudo para que elas fossem criadas, assim como os dedos e tons de pele. Desde o primeiro segundo que o Gollum aparece como uma criatura completa no segundo filme, ficou muito claro que o motion capture revolucionaria os efeitos digitais modernos.

Programas

Houve o desenvolvimento de um software para criar personagens inteiramente digitais em cenas de batalha grandiosas. MASSIVE (Multiple Agent Simulation System in Virtual Environment) é o nome do programa de computador desenvolvido pela Weta em 1996 para criar sequências automáticas, ao invés de individualmente animar cada soldado. Esse programa tinha a função de permitir a cada um dos soldados “pensarem” por si próprios e lutarem independentemente, o que aumenta o realismo da produção.

Para cenas de mais de 200 mil agentes, o software tem uma espécie de memória, permitindo criar os movimentos de cada tipo de soldado, como os estilos de combate ou fuga, como acontece em uma batalha de O Retorno do Rei. Mesmo de perto, a cena parece real, diferente de antigamente, quando a técnica era a movimentação dos elementos em formação, como uma massa homogênea. Agora os gestos são individualizados e combinam com o tipo de personagem, o uso das espadas, por exemplo é diferente de um elfo para um orc.

Influência

O Senhor dos Anéis, transformou a Weta em referência, pela qualidade técnica, não somente na Nova Zelândia, mas no todo o mundo. O método de motion capture evoluiu e se tornou o performance capture. Com isso os atores podem interpretar macacos, aliens, dragões, tudo sem uso de próteses.

Alguns filmes que fazem uso da técnica: King Kong (King Kong, 2005) (que recebeu alguns Oscars por conta da Weta), X-Men: O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006), Avatar (Avatar, 2009), Prometheus (Prometheus, 2012), Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011) (em que Andy Serkis vive o chimpanzé protagonista) e mais recentemente a trilogia O Hobbit.

O software de inteligência artificial inspirou o uso em várias produções, como Alexandre (Alexander, 2004), enquanto permitiu filmes como Eu, Robô (I, Robot, 2004) e Wall-E (Wall-E, 2008) a usar a tecnologia de uma forma própria. Os efeitos especiais da trilogia até ajudaram na produção de Velosos e Furiosos 7 (Furious 7, 2015). Com a morte de um dos protagonistas, Paul Walker, os produtores recorreram a várias técnicas para conseguir terminar o filme, recriando o ator, com a ajuda da Weta Digital.

Repercussão

O conflito colossal nos Campos de Pelennor, com o exército de Sauron no terceiro filme, juntamente com a invasão de insetos alienígenas contra humanos em Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997), e o massacre dos soldados na abertura de O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), são consideradas como algumas das mais significativas cenas de guerra da história do cinema.

Considerado um dos maiores projetos cinematográficos já executados, a trilogia também alcançou um grande sucesso financeiro. Em sua primeira semana de exibição, o último filme quebrou o recorde mundial de bilheteria, arrecadando aproximadamente U$ 250 milhões; ao todo os três filmes angariaram mais de US$ 3 bilhões. A trilogia venceu 17 Oscar no total, sendo que o último dos filmes é recordista no prêmio, levando sozinho 11 troféus, um deles foi o de Melhor Filme, primeira e única vez que uma produção de ficção e fantasia ganhou nessa categoria. Alguns dos prêmios se devem aos efeitos especiais, como pela técnica da criação da pele do Gollum e pela perspectiva usada nos hobbits.

O Senhor dos Anéis é uma sequência de filmes única, que revolucionou a história do cinema e que continua conquistando fãs até hoje, mais de uma década após o lançamento nos cinemas. A história, que é um sucesso de público e crítica, permite que cada  espectador seja inserido no mundo de fantasias criado por Tolkien, e parte disso se deve ao efeitos mágicos imaginados por Peter Jackson e desenvolvidos pela Weta.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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