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Perdidos no Espaço: uma releitura preocupada com a realidade
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19 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Letícia Camargo (camargoleticia@usp.br)

“Perdidos no Espaço”, série pioneira no ramo da ficção científica, foi exibida na televisão entre os anos de 1965 e 1968, com o total de 83 episódios, quando Estados Unido e Rússia ainda disputavam em silêncio pela corrida espacial, durante a Guerra Fria.

Narra a história da família Robinson, enviada ao espaço pela nave-mãe Resolute a fim de descobrir um planeta que possa ser colonizado por humanos. Porém, a nave sofre um ataque alienígena e fragmenta-se em outras naves menores, as “Júpiter”. Os Robinsons, assim como outros membros da missão, se vêem perdidos no espaço em um território desconhecido e precisam retornar à missão, enfrentando diversas dificuldades e com um vilão sempre à espreita, esperando para arruinar todo o plano.

Neste ano, em abril de 2018, a Netflix adaptou a série futurista ambientada 30 anos a frente e lançou uma nova versão para o clássico de Irwin Allen. A releitura da famosa história ganha novas cores, formatos, tratamento de efeitos especiais e visuais, novos cenários como florestas, geleiras e montanhas que tornam o planeta esteticamente fascinante, assim como todo o universo do seriado.

Porém, apesar de cumprir fielmente com o enredo original, seus produtores, Matt Sazama e Burk Sharpless, sentiram a necessidade de adaptarem-se aos tempos modernos e aos novos fãs em termos tecnológicos e, principalmente, no campo da ideologia.

A primeira temporada de 10 episódios foi totalmente pensada para os dias atuais e trata de assuntos que perduram em nosso cotidiano. A crescente discussão sobre o feminismo, com a luta por direitos iguais para ambos os gêneros, famílias disfuncionais e o incentivo ao trabalho em equipe são alguns dos temas abordados pela reformulação do seriado.

 

Desmistificação da “família perfeita”

A começar pelos personagens, os Robinsons estão muito longe de ser o estereótipo de família perfeita que temos. O pai, John Robinson (Toby Stephens), é um militar que vive distante da família devido suas missões no exército e tem dificuldades para se relacionar com os filhos. O pequeno Will Robinson (Maxwell Jenkins) é o que mais sofre com isso e uma vez no espaço, vai substituir a ausência do pai com um novo amigo, um robô.

Penny (Mina Sundwall) lida com a distância do pai um pouco diferente e adquire um ar rebelde na série, contrariando ordens e geralmente acabando por ser a responsável pelos problemas que surgem durante a viagem.

Judy (Taylor Russell), a irmã mais velha que está se formando em medicina, é sensata e designada a tomar decisões na ausência dos pais. Entretanto, é a que mais tem conflitos com John que, apesar de tê-la visto crescer, não é seu pai biológico. Essa é uma das novidades da série, já que a mãe, Maureen (Mollyu Parker), vem de um outro casamento e com uma filha. Diferentemente da série dos anos 60, aborda um pouco sobre divórcio, que era pouco aceito e incomum.

Em vista de Judy vir de um casamento diferente, as duas irmãs Robinson se detestam. E, para além do conflito com filhos, John e Maureen ainda enfrentam uma discussão sobre um possível divórcio que precisa ser deixado de lado em prol da sobrevivência de todos. Em meio a tantos conflitos, a maior alteração feita é que a série adquire um tom sombrio sobre o que as famílias vivem no mundo real: relações conflituosas e nem sempre rodeadas de afeição.

A série, além de tratar de uma temática científica, também lida muito com sentimentos, anseios e angústias de seus personagens, o que a torna muito próxima da realidade. Constantemente o bem-estar e a união da família são retratados como a chave para a resolução de todos os problemas que vão surgindo, já que muitos deles ocorrem justamente pela discordância entre eles.

 

A força da representatividade feminina

Fonte: UOL

A série remontada para a atualidade também não poderia deixar de lado o forte protagonismo feminino. O vilão Dr. Smith dos anos 60 agora se tornou a antagonista Dra. Smith — interpretada pela atriz Parker Posey —, que definitivamente está perdida no espaço e não deveria estar na nave Resolute. Não tendo nada de doutora, é, em verdade, manipuladora: sempre que pode, está a atrapalhar os planos dos Robinsons, apesar de ter uma atuação por vezes cômica e cativante como vilã da série.

Outra alteração também é feita no comando da tripulação: John deixa o posto de comandante da nave e líder da família dos anos 60 para transferir-lo à Maureen. Matriarca dos Robinsons, a mãe é experiente em física e engenharia, cheia de autonomia e a todo tempo procura transpassar isso aos seus filhos, instigando-os a usarem as ciências ao seu favor. Desde o primeiro episódio, vemos que a mãe toma a frente dos problemas e faz com que todos os Robinsons consigam licença para estar na nave Resolute, não medindo esforços e violando leis a fim de proteger seus filhos.

A preocupação com a representatividade feminina também assume caráter racial: a filha mais velha, Judy, deixa de ser uma atriz loira (Marta Kristen) do seriado de 1965 e passa a ser negra (Taylor Russell). Essa mudança demonstra a visibilidade do movimento negro e que o mesmo vem se fazendo valer mesmo em filmes e seriados, sendo parte das mudanças ideológicas no quesito tempo.

Fonte: Observatório do cinema

 

Incentivo ao trabalho em equipe

O seriado ainda nos deixa uma mensagem muito significativa sobre a importância do trabalho em equipe. Na versão de 1965, os Robinsons estão sozinhos no espaço e são praticamente os únicos personagens da série. Já na nova versão, outras naves Resolute são enviadas para compor a missão e forçam pouso em um mesmo planeta. Desta forma, se veem obrigadas a superar diferenças e organizarem-se para trabalhar em conjunto.

Percebemos que todas as tentativas egoístas que vão aparecendo no decorrer da narrativa falham e mesmo a vilã, Dra. Smith, necessita recorrer ao restante da tripulação para que consiga sobreviver.

As más impressões causadas pelo Robô habitante do estranho planeta também são desmistificadas, à medida em que ele se mostra solícito aos tripulantes da nave. Mesmo em desconfiança com o personagem, os membros da Resolute aceitam sua ajuda e criam certo afeto por ele, em especial o pequeno Will Robinson.

A série, para além da ficção e entretenimento, vem com a proposta de repensarmos certos valores, preceitos e preconceitos incutidos em nós. Gera uma discussão sobre a família, autonomia, liderança, trabalho em equipe e o universo dos sentimentos, apesar de seu caráter científico. A nova releitura da Netflix consegue captar as questões discutidas no cotidiano e trazê-las para reflexão de modo inovador e divertido. A série está sendo renovada para lançar sua segunda temporada e por enquanto ainda não tem data de lançamento.

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