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Personalidade e autoestima – o poder da moda na representatividade
Guardarroupa
17 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Arte: Maria Laura López- Comunicação Visual / Jornalismo Júnior

 

Por Daniel Terra (danielterra@usp.br)

Vestimos para parecer igual ou diferente? É uma pergunta que pode render uma discussão infinita. A partir de um questionário generalizado, é possível ver diferentes perspectivas e não uma só resposta. Pelo contrário: existe uma profundidade muito gigante. Claro que existem estilos muito característicos e, apesar disso, não podemos delimitar a pessoa a um rótulo. Não é porque um indivíduo usa bandana, jaqueta de couro, coturno e calça preta que ela não pode ser um engenheiro ou médico. Ou que um alguém do estilo hippie não goste de maquiagem e de ir ao shopping com os amigos. Até porque, dentro de um grupo, pode haver muitos sujeitos com roupas parecidas e até mesmo com personalidades próximas, mas isso não se reflete diretamente na essência, porque cada ser é único.

A sociedade define as pessoas com os seus valores, mas nossos valores não são uma verdade absoluta. Eles são construídos por cada indivíduo, por diferentes criações e modos de vida. Mas isso não garante que essa seja a forma mais correta de caracterizar uma pessoa. Apesar da roupa ser uma boa forma de comunicar quem você é, não é a melhor maneira para definir, até porque definir é limitar, e os seres humanos são complexos demais para ser reduzido de tal maneira.

E a moda é apenas um recurso para reforçar essa imagem. Na verdade, a pluralidade está presente em todos os lugares. São Paulo, Brasil e em todo o mundo. A cultura também revela muito disso: até no século XV, quando surgiu a moda, ela foi usada para diferenciar as camadas sociais, como os burgueses e os camponeses. Talvez seja por esse contexto histórico que a moda pode ser tão odiada ou polêmica. Muitos a enxergam como forma de capitalismo. Não que seja uma mentira. Mas sabendo usar conscientemente, ela pode sim ser uma aliada.

 

A pluralidade na vestimenta como forma de reafirmar a identidade

Moda pode parecer um bicho de sete cabeças para várias pessoas. Mas é incrível o fato de que, por meio da vestimenta, pode ser sintetizado muitas coisas. Através das roupas é possível ver e ler muito de uma pessoa. Afinal, a vestimenta é um código social e a escolha do que vestir não é diferente. Segundo Ciro Marcondes Filho, teórico da comunicação, “a roupa é uma linguagem, um sistema de signos. Pela roupa, eu leio o outro: seu estilo, sua visão de mundo, sua sensualidade, sem a roupa, o corpo torna-se apenas corpo-carne, não mais corpo-signos.” É possível pegar muito da essência de um sujeito pelo modo como ele se veste. Isso é tão real que a mesma pessoa com roupas diferentes não transmitirão a mesma mensagem. São as típicas cenas de filme em que a personagem nerd veste uma roupa sensual pra mostrar algo para o menino mais gato da escola e ele acaba se afastando, porque não gosta do que ela quis passar, mas sim da sua verdadeira essência.

Todo o figurino é muito representativo, nos filmes, novelas, séries. A roupa fala muito do personagem. Isso pode ser percebido por meio dessas produções visuais e aplicar na vida pessoal. É o que diz a consultora de imagem e psicóloga, Priscila Citera: “Tem a ver com a imagem que aquela pessoa quer passar. Se você quer parecer forte, precisa usar elementos que transmitem força. Se quer parecer meiga, precisa usar elementos que demonstram delicadeza. Encontrar característica da personagem que podem ser transmitidos através da forma que ela se veste, porque o vestir é uma simbologia”.

Matheus sempre remete à diversidade a partir de sua vestimenta, para reforçar sua identidade e também como uma forma de resistir. Ele tenta usar mais cores nos looks para remeter a sua sexualidade e a força que ela possui. É um modo de dizer que o grupo marginalizado em que ele se encontra pode mostrar resistência pelo vestuário.

Foto: Daniel Terra

 

Moda como expressão ou exclusão?

Outrossim, dentro desse mesmo assunto, é relevante citar duas pesquisas diferentes, mas que sintetizam muita coisa analisada nesse texto:  Primeiro, existe um análise que diz que não é à toa que o super-homem entra na cabine como Clark Kent, vestindo terno e de óculos e troca de roupa, tornando-se o super-homem. A roupa pode mudar a forma como você se enxerga e como você se comporta. O corte de cabelo, maquiagem, acessórios e qualquer outro tipo de atividade física já mostra um amor por si mesmo e isso implica na imagem, na personalidade. Usar esses elementos ajuda a construir a mensagem de quem você é.  

Dentre outros exemplos, a artista Frida Kahlo pode ser uma boa referência, e Priscila concorda: “A Frida Kahlo era uma mulher muito forte, mas ao mesmo tempo muito sofrida. Muito fragilizada, fisicamente e emocionalmente, mas possuía uma força pra se levantar e lutar pelo que ela acreditava. O estilo dela mostrava muito de sua personalidade. Era uma forma criativa de se vestir, diferente. Era uma artista muito feminina, mas muito castrada, oprimida sexualmente, fisicamente. Foi traída, perdeu o filho… muitas coisas maltrataram ela, então ela se vestia para se expressar tanto a forma como ela via o mundo, como ela sentia o mundo. Tem coisas que mostram se ela estava em uma fase boa ou numa fase ruim, doente, ou com a autoestima mais baixa. Como artista, eu acredito que tinha mais sensibilidade pra colocar pra fora como ela se sentia e sua personalidade. Uma mulher que a gente pode se basear para projetar como alguém que projeta na roupa como ela era e como ela se sentia.”

Em um questionário mais geral, foram feitas diversas perguntas a diferentes pessoas. Uma delas foi se a moda tem o poder de representar a personalidade de uma pessoa. 71,4% responderam que sim, contra 22,4% depende e 6.2% não.

Sentir excluído por não possuir determinada peça implica muito na questão do status. O ego vive muito por isso: uma marca projeta em qual nível social a pessoa está. Nem sempre está certo, claro. Mas quando uma pessoa possui determinada roupa, leva prestígio, a faz ser bem vista pela sociedade. E as pessoas querem isso, porque melhora a sua imagem e leva a outros benefícios. Claro que essa realidade é para quem possui uma melhor condição financeira e é, talvez, uma forma muito concreta de perceber a desigualdade social.

É isso que comprova o gráfico: em algum determinado momento, alguém já desejou muito uma peça. E 60,4% já se sentiu excluído de um grupo por causa disso. E talvez isso aconteça com maior frequência na adolescência, que é a fase que a autoestima é diminuída devido às mudanças do corpo e isso causa muito estranhamento. A questão de tantos jovens se espelharem em famosos também influencia, mas de acordo com o passar dos anos esse sentimento diminui, a pessoa se conhece melhor e encontra sua essência. Dentro da mesma pesquisa feita, foi unânime a resposta que sentem uma diferença na autoestima.

Um dos problemas é essa falsa necessidade que as pessoas encontram em parecer com as outras. Se espelhar em alguém não tem problemas. Torna-se um problema quando você perde sua autonomia para estar parecido com alguém que não tem nada a ver com você e está na mídia, representando e vestindo algo que talvez não represente ele próprio –  mas a publicidade e seu trabalho o levam a usar as melhores marcas a fim de ter uma imagem positiva, já que grifes representam um status muito forte na sociedade moderna.

Se representar por meio das roupas não quer dizer simplesmente que você precisa uma marca X. Claro, se você tiver a possibilidade de comprar algo pela sua qualidade e durabilidade, estará fazendo um bem também ao meio ambiente e à indústria da moda. A ideia é misturar marcas, preços, estilos: o importante é vestir o que sintetize o seu estilo, a sua personalidade e que as pessoas possam ver a sua essência por meio de suas vestimentas. A consultoria de estilo é especial por isso, já que trabalha o seu melhor e aumenta sua autoestima. Por que não amar a si mesmo?

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