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Por que Skam não é a Skins norueguesa
Controle Remoto
04 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Se você já ouviu falar de Skam, provavelmente leu a denominação “Skins norueguesa”. Ao menos foi assim que me introduziram à série. Como fã de Skins, resolvi dar uma chance. O que encontrei, no entanto, foi algo muito diferente.

Para não dizer completamente diferente, eis o paralelo com Skins responsável pela associação: o retrato da adolescência. Ambas carregam tal premissa e buscam se aprofundar em determinados personagens para alcançar o feito. A abordagem de cada uma é, no entanto, muito destoante. Ao contrário da britânica, Skam o faz de uma maneira crua, sensível e autêntica.

Imagem: reprodução

Não à toa, Skins veio para o Brasil com o subtítulo “Juventude à flor da pele”. Todos os personagens são absurdamente — ênfase no absurdamente — problemáticos e descontam seus excessos emocionais em numerosas doses de álcool, drogas ilícitas e mentiras. Não que essa seja uma realidade distante. Pelo contrário, a overdose de sensações angustiantes e as escolhas inconsequentes são tão parte de estar em processo de autodescobrimento que tornaram Skins um fenômeno. Produziu identificação e deu certo. Entretanto, o exagero é tão intenso quanto superficial, o que gera uma romantização fantástica e perigosa em torno dos problemas dos personagens. Um exemplo disso é que Effy, uma das personagens mais complexadas, mesmo anos após o fim da série, continua sendo frequentemente endeusada e vista como um modelo a ser seguido nas redes sociais.

Enquanto isso, em Skam, existe responsabilidade e delicadeza por parte dos roteiristas ao lidar com temas pertinentes e polêmicos como relacionamentos abusivos e transtornos mentais e respeito ao lidar com as crenças. E se, por exemplo, em Skins as amizades são construídas sobre bases duvidosas e encharcadas por muito egoísmo, chegando a representar um empecilho, em Skam, as amizades são um alicerce, são a solução. Tudo isso sendo retratado de uma forma natural e, muitas vezes, sutil. Se fosse uma fotografia, se encaixaria no realismo, ao passo que Skins seria genuinamente hiperrealista.

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A beleza e a verossimilhança de Skam ficam ainda por conta do silêncio. Há enormes cenas dos personagens checando o feed do instagram, se arrumando para festas, assistindo vídeos na cama e, principalmente, trocando mensagens. Tal como é feito por outros programas como “Please, like me”, o silêncio chega a ser propositalmente incomodativo em diversos momentos. Quando a vez pertence aos diálogos, eles são condizentes com a realidade da juventude, não são apenas uma série de falas pretensiosas. Mas o que fica por conta do recado mesmo são os gestos e as expressões faciais e corporais. Os minutos preenchidos pelo conjunto silêncio e celular são, muitas vezes, os mais significativos.

Falando em tecnologia, os idealizadores de Skam souberam utilizá-la com sabedoria dentro e fora da ficção. O conceito de tempo real, tanto na liberação dos episódios aos pedaços, durante a semana, quanto na divulgação de mensagens de texto e na atualização das redes sociais criadas para os personagens, foram fundamentais para o processo de imersão do telespectador na obra. É tão notável o sucesso do método que Julie Andem, diretora e roteirista da série, e Mari Magnus, responsável pelo conteúdo online, estiveram em São Paulo nos dias 15 e 16 de setembro para a Mediamorfosis Brasil, evento que envolve um debate sobre comunicação, arte e tecnologia.

É importante ressaltar que a série é uma produção estatal da Noruega e tem um caráter educativo e de propagação dos ideais nacionais, o que fica bem explícito pelo teor e pela quantidade de discursos inseridos. A princípio, a série foi criada para o público norueguês e eles não esperavam que viralizasse fora do país. O êxito veio de uma forma insana. Foi até preciso bloquear temporariamente o acesso de fora ao site que liberava os clipes, por conta dos direitos autorais das músicas.

A série, que inicialmente pretendia ter 9 temporadas, acabou tendo só 4 e foi vendida para Simon Fuller, a mente por trás do American Idol. Depois de anunciar o fim, a criadora mencionou a crescente exigência dos fãs e preferiu encerrar positivamente a decepcionar as expectativas. Mais uma diferença entre Skam e Skins: o reconhecimento da produção de seus próprios limites e do momento certo de parar. É disso que se trata a qualidade: saber contar uma boa história independente da duração.

Ainda não ficaram claras as diferenças? Então vem cá que o Sala fez um resumo de cada temporada e tentou pensar em como seria se acontecesse no universo de skins.

Primeira temporada: sobre confiança, rivalidade feminina e relacionamentos tóxicos

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“Eu me tornei insegura e desesperada. Sua opinião importava mais do que a minha. Não deveria ser assim”. A fala pertence à nossa protagonista inicial, Eva Mohn, em seu grande momento de elucidação. Logo no primeiro episódio, somos introduzidos a uma garota solitária, cujo único relacionamento profundo parece ser o namoro com Jonas Vasquez, que se mostra mais como agravante do que como alívio para o drama introspectivo de Eva.

Os arcos mais importantes da temporada — e da série — iniciam sua construção nos três primeiros episódios: a formação do círculo de amizades feminino central e a relevância de terceiros na relação de Jonas e Eva, como a ex-melhor amiga da menina, Ingrid, o atual melhor amigo de Jonas, Isak, e um rapaz bonito que mais adiante ficará conhecido como Penetrator Chris.  

As rivalidades femininas se esfacelam rapidamente, os laços de amizade entre Eva, Sana, Noora, Chris e Vilde se tornam cada vez mais fortes, erros são assumidos, histórias mal-resolvidas recebem uma conclusão e nesse meio tempo, Eva, a garota sozinha e sem identidade do começo se torna uma personagem forte, determinada e ativamente em busca de si mesma.

Como seria em Skins?

Para arrecadar dinheiro e atenção para seu Russ Buss (tradição norueguesa que consiste em uma temporada de festas em ônibus no final do ensino médio), as meninas se envolveriam em vendas de substâncias ilícitas e dariam várias festas. Na festa à fantasia, Eva atingiria Ingrid com uma pedra na cabeça e iniciaria um trisal com Chris e sua namorada. Jonas ficaria desolado e tentaria se suicidar na pista de skate, mas Isak o impediria com um beijo. Eva assistiria à cena quando estivesse a caminho de pedir perdão e resolveria fugir. As meninas iriam à procura de Eva em uma carona perigosa e o carro bateria, deixando Vilde em coma. Todos passariam a culpar Eva pelo acontecido, exceto Jonas. Os dois voltariam a ter um relacionamento nada saudável e se tornariam praticamente uma pessoa só, sempre bêbados e chapados.

Segunda temporada: sobre primeiros amores, abuso sexual e sororidade

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Com seus trajes invejáveis e o icônico batom vermelho, Noora Amalie Sætre, foco da segunda temporada, é a primeira na série a dar um nome ao feminismo. Ao contrário de Eva, sua personalidade é marcante. Seu transborde de confiança e sua necessidade de proteger as amigas a todo custo fizeram com que ela protagonizasse uma das cenas mais memoráveis da série. “Pare de andar como um clichê de merda”, ela diz a um garoto e sai andando de cabeça erguida, enquanto tudo que nós conseguimos pensar é “caramba”. Mas a temporada de Noora não é sobre ela ser a intocável feminista acima das sensações. Pelo contrário: é sobre ela ser humana e estar propensa a se apaixonar, a se machucar e a agir de maneira irracional. É, enfim, sobre se deixar sentir.

Não apenas a fragilidade de Noora é explorada, como também novas facetas de outros personagens. Dentre eles estão William, nas palavras de Noora, um “clichê de merda”, que acaba, de certa forma, fugindo ao estereótipo de galã com traumas de infância que se apaixona pela garota que o despreza, e Vilde, que demonstra ser muito mais do que uma menina imatura e egoísta. Na verdade, o modo como a história se desenrola só confirma a generosidade de Vilde e como a união entre mulheres é essencial.

No final, a frase na parede do quarto de Noora é um lembrete constante, quase como um mantra, e é basicamente o que a série tenta passar ao longo de quatro temporadas. Isso diz tudo: “Todos estão lutando uma batalha da qual você não sabe nada. Seja gentil. Sempre”.

Como seria em Skins?

Após a noite fatídica da segunda temporada, a síndrome de Estocolmo ganharia seu espaço. Noora iniciaria um relacionamento super abusivo com o irmão de William e os dois morariam juntos em um algum beco esquisito, abusando das drogas o dia inteiro. Noora ficaria grávida e seria abandonada. Ao saber disso, William iria até Noora e prometeria assumir aquele filho como seu. No entanto, ela acabaria perdendo o bebê. O irmão de William voltaria durante uma festa e William o mataria com várias garrafadas na cabeça. Depois disso, William desapareceria e só retornaria na quarta temporada, completamente diferente. O final mostraria Noora sendo levada pelas amigas a uma clínica psiquiátrica, em clima de comemoração.

Terceira temporada: sobre sexualidade, transtornos mentais e aceitação

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O ponto de vista é agora de Isak Valtersen, o primeiro e único protagonista masculino da série. Coadjuvante na primeira temporada e praticamente um figurante na segunda, o dilema central do garoto gira em torno da descoberta e da aceitação de sua própria sexualidade. Ao longo dos 10 episódios, o amadurecimento de Isak é bastante visível e o desenrolar dos acontecimentos é muito bem ritmado.

Foi essa a temporada responsável por popularizar a série a nível mundial. Diversas citações, imagens, gifs e vídeos começaram a ser replicados nas redes sociais, especialmente no Tumblr, no Twitter e no Youtube, marcados com o nome Evak, uma junção de Even e Isak. O tom dado ao romance dos dois meninos é diferente daquele que costumamos ver na cena mainstream. O que acontece é bem simples: eles se conhecem e, gradativamente, se apaixonam. As pedras no meio do caminho têm a ver quase que exclusivamente com os problemas individuais de cada um e com o medo de ser insuficiente ou, nas palavras de Lorde, um fardo.

As inúmeras referências a Romeu e Julieta assustaram muitos fãs normal para uma geração acostumada a criar teorias maquiavélicas para Pretty Little Liars e a acompanhar os finais trágicos dados a casais LGBTs —, mas no final, eles são apenas uma história de amor adolescente comum.

Como seria em Skins?

Depois de ver Even beijando Sonja, Isak pediria que Eskild o levasse a alguma boate gay. Bêbado, cometeria algum erro sério que magoaria Eskild e seria expulso do apartamento. Ele sairia do lugar e faria uma ligação para os pais se assumindo e não receberia nenhuma resposta. Então iria até a casa de Jonas, que o acolheria. Em determinado momento, Jonas usaria Isak para fortalecer o próprio ego e o beijaria. No entanto, Isak e Even logo se reconciliariam. Even morreria atropelado logo após a primeira noite dos dois. Isak faria um lindo elogio fúnebre afirmando como Even foi seu único e verdadeiro amor. Ele decidiria se fechar emocionalmente.

Quarta temporada: sobre religião, cyberbullying e dificuldades na comunicação

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A quarta e última temporada nos traz a protagonista mais multifacetada: Sana Bakkoush. Entre os favoritos do público desde o começo, a muçulmana tem um gênio forte e é rígida quanto ao que acredita e quanto ao que sente, por mais que seja sempre generosa com os amigos e não os julgue por ter um comportamento diferente do seu. No entanto, nenhum de nós tem uma fé inabalável e, novamente, a série bate na tecla de que reprimir os próprios sentimentos é uma escolha um tanto quanto arriscada.

Logo a que mais transmitia lições, a que parecia estar sempre certa — a competitividade e a intransigência de Sana são amplamente exploradas, especialmente em sua própria temporada —, mostra um lado vulnerável, suscetível a dúvidas e que comete erros. Sana passa a questionar os preceitos de sua religião, a diferença de tratamento entre meninas e meninos — o que fica explícito quando passamos a acompanhar o grupo de amigos do irmão de Sana — e o modo hipócrita como a sociedade finge abraçar o que é diferente. Ao mesmo tempo, ela passa a ouvir conselhos de seu parceiro de biologia, um Isak muito mais maduro, e aprende a ser menos dura consigo mesma.

Na segunda temporada, Noora diz: “Quem diria? Sana tem um lado suave”. Na quarta, nós vemos que ela não só tem um como tem vários.

Como seria em Skins?

No maior estilo “uma vez magoada, dez vezes mais fria”, Sana se rebelaria, abriria mão do hijab e pintaria o cabelo de loiro. Isak, que estaria em sua versão mais gótica e desapegada após a morte de Even, arrastaria a garota para diversas raves. Até que em uma delas, Sana, em seu estado mais deplorável, acabaria na cama com William. Noora se vingaria plantando falsas evidências no computador de Sana e a acusando de terrorismo. A polícia desapareceria com a muçulmana e todos terminariam em um grande protesto em forma de música. Finalizaria com o enterro simbólico de Sana durante o Russ Buss.

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Nada disso seria impossível em Skins. Baseando-se no enredo mostrado ao longo de 3 gerações e 7 temporadas, na verdade, são hipóteses bem palpáveis. Mas não é o que acontece por uma simples razão: Skam não é a Skins norueguesa. Em Skins, os personagens parecem querer estar dormentes e fingir que não se importam e isso é considerado cool. Em Skam, eles não se dão ao trabalho: eles sentem, se importam e fim. O ponto é mostrar que pessoas precisam de pessoas. E que apesar das diferenças, o amor existe.

Parafraseando o discurso final de Jonas: “O medo se espalha. Com sorte, o amor também”. No final, eles sabem que pertencem a algum lugar. Isso é Skam.

Por Anny Oliveira
acoliveiramartins@usp.br

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