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Por trás das músicas: histórias e significados
Escuta Aí
05 jul 2020 | Por Gabriel Guerra (gabriel_guerra@usp.br)

Era uma quinta-feira de quarentena, ou seja, mais um dia migrando de rede social em rede social à procura de algum entretenimento. Olhei para a o relógio e vi que faltavam 15 minutos para meia noite, pensei: “Preciso dormir para acordar cedo amanhã”. O que eu fiz? Fui dar uma última checada no Instagram para ver se tinha algo novo. Vendo o primeiro story sinto a sensação de nostalgia: Vanguart, a banda que gosto desde o ensino médio, estava fazendo uma live. Comecei a assisti-lá mesmo depois de encerrada, e nesse momento eu nem me importava mais com o horário, estava imerso nas canções da apresentação. 

Em uma das pausas, após cantar Demorou Pra Seruma das minhas preferidas — o vocalista, Helio Flanders, compartilhou a história de uma fã, a respeito da composição, que o emocionou. A fã em questão disse ao grupo ter encontrado o significado dessa música em sua vida através dos versos:

“Daquela vez que caiu o céu

E eu te coloquei debaixo de mim

Da primeira vez que você chorou

Deitada no meu peito o coração

Quente de dor e amor, quente de dor.” 

Para a fã, o sentido partiu de um momento peculiar: o nascimento de seu filho, exatamente após o primeiro choro dele, deitado em seu peito, quente de dor e amor, como dizem os versos.

Terminei de assistir a live e já era uma hora da manhã. Desliguei o celular e tentei dormir, mas não conseguia. A história da fã tinha me deixado reflexivo. Comecei a pensar em qual era a verdadeira história por trás da canção e quantas outras possíveis interpretações das músicas do Vanguart os fãs já podem ter tido. Nesse momento decidi: “Vou fazer isso virar pauta”. 

Para responder às perguntas sobre o tema, o Sala33 conversou com Helio Flanders, vocalista do Vanguart. 

Helio nos conta que sempre é difícil explicar alguma história por trás de um som, ainda mais porque, na maioria das vezes, nunca é somente uma história. Ele diz que a canção não tem um sentido único, mas envolve uma sensação de cuidado e de estar na “ânsia de um encontro”.

O músico fala que a letra aborda a redenção dos sentimentos negativos que os relacionamentos sem entrega podem ter desenvolvido no indivíduo, ou que podem ser sentidos depois de sofrer com a solidão. “Quando ela acontece você nem acredita e pensa sobre o quanto esperou para isso. É uma canção celebratória para essa chegada”, afirma Helio. 

Capa do álbum Muito Mais que o Amor que possui a faixa Demorou Pra Ser. [Imagem: Divulgação]

Capa do álbum Muito Mais que o Amor, que possui a faixa Demorou Pra Ser. [Imagem: Divulgação]

 

Demorou pra ser, mas pro público é

No vídeo do YouTube de Demorou Pra Ser não é preciso descer muito os comentários para encontrar diferentes significados da música para o público . Há diversas interpretações e sentidos, de acordo com a vivência de cada indivíduo. Um comentário reverberou em mim, assim como o som reverbera todas as vezes.

Um inscrito do YouTube faz associações da música com momentos de sua vida. Primeiro ele diz lembrar de quando sua mãe adoeceu no trecho “quente de dor e amor”. Depois cita sua esposa, que era sua vizinha desde criança, e conta sobre estarem esperando o primeiro filho: “Não foi fácil entender/Demorou pra ser, mas agora é”, escreve o internauta parafraseando a letra da canção. 

O Sala33 entrou em contato com Carlos Henrique Alves, que contou sua história de vida, a qual carrega como trilha sonora a canção da banda. O fã afirma ter reencontrado o amor da sua vida, Luciene, após 27 anos separados. “Eu e a Luciele estudamos juntos no primário […], éramos namoradinhos na infância”, conta Carlos. O reencontro se deu por meio virtual, após ambos estarem divorciados (de outros relacionamentos), e distantes, já que ele morava em Curitiba e ela em Londrina, ambas cidades do Paraná. Mas, no feriado prolongado do 15 de Novembro de 2015, os dois marcaram um encontro e tiveram, enfim, o significado da música em suas vidas. “Demorou Pra Ser virou nossa música, porque uma história que começou em 1989 se tornou real em 2015”. A música representa tanto na vida do casal que, segundo Carlos, ambos vão tatuar frases da música para eternizar a história não só na mente e na alma, mas também na pele.

É incrível pensar e ver na prática o quão diferente pode ser uma mesma canção dependendo das experiências de cada indivíduo. Isso faz com que a música ganhe vida e se movimente com múltiplas feições e poesias nos moldes de cada interlocutor.

 

 

A música cura 

A jornalista, e fã da banda, Nívia Passos começou a ouvir com frequência o grupo em 2011, e desde então não parou mais. Ela comenta que algumas músicas lhe remetem a significados, como Demorou Pra Ser, que marcou um relacionamento longo de sua vida. Ou Pra Abrir os Olhos, que com a frase “O que importa é o que te quebra em duas cidades” marca o seu contexto atual de trabalhar em São Paulo, mas ter sua vida e amigos no Rio de Janeiro. “Assim que a quarentena acabar eu pretendo tatuar isso”, afirma Nívia sobre a frase. 

Ela também conta sobre uma coincidência singular entre um relacionamento e os shows da banda. Segundo a fã, aconteceu duas vezes de seu relacionamento ser terminado na véspera do show. “Eu ficava meio mal com o fim do relacionamento, e o show do Vanguart era uma cura, uma terapia para mim”, comenta. 

Nívia  também associa a música Tudo Que Não For Vida às histórias envolvidas na relação, que segundo ela foi problemática. “Nesse relacionamento eu acho que me deixei de lado, coloquei a minha felicidade nas mãos de outra pessoa.” A jornalista se identifica com a frase: “Descobri que a razão de viver nunca estaria nela se não estivesse em mim”. Ela diz ter feito isso durante o relacionamento, botava sua razão de viver na do companheiro. Porém, Nívia tirou boas conclusões ao fim da história: “Essa música virou um marco de uma coisa que eu tinha que aprender. A ver o valor em mim antes de ver em outra pessoa”, encerra. 

 

 

O significado como fim de si mesmo

Como o repertório da banda passa de cem músicas, existem diversas interpretações dos diversos sons. Helio conta que muita gente perguntava, logo após a canção Semáforo ser lançada, se a expressão “só acredito no semáforo” era alguma gíria para as drogas. E o cantor explica que Semáforo é um som que aborda o ceticismo e a dificuldade de acreditar em alguma coisa nos dias de hoje.

Outra interpretação que marcou o cantor foi em relação à música Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai. O compositor recebeu um print da internet, em que um comentário dizia que a música tratava sobre o rapaz matar a companheira, se matar e então ambos se encontrariam no céu. “Pelo amor de Deus, que coisa horrível! Jamais escreveria algo assim”, foi o que Flanders expressou após ler o comentário. 

Helio também traz à tona uma reflexão sobre o ato de buscar interpretar o significado das músicas: “Acho que a gente às vezes tem que parar de procurar tantas coisas nas músicas e mais senti-las”, afirma. Ele faz uma analogia disso com a leitura de poemas, pois afirma que o fator mais emocionante desse ato é o efeito que ele causa em si, e não a tentativa de buscar o significado da leitura. “Acho que a beleza nas coisas já basta por si só”, comenta o cantor, referindo-se às suas composições. 

 

 

Lágrimas de significado

Todo fã já deve ter feito a seguinte pergunta: “Como será que ele(a) compôs essa música?”. Ou “o que será que estava passando em sua mente no momento da composição?”. Helio responde que grande parte das suas composições são feitas da seguinte forma: ele inicia uma gravação e começa a falar para chegar a algum resultado. É um processo de improviso: “Quase como um repentista”.  

Entretanto, ele compartilha uma memória que o marcou, antes de gravar E o Meu Peito Mais Aberto Que o Mar da Bahia. Segundo Flanders, apenas ele e Reginaldo Lincoln estavam no Rio de Janeiro, gravando as vozes. Mas os dois estavam travados na parte “E eu só queria te guardar/Onde eu pudesse ter sempre que eu sentisse medo”, e precisavam de um verso final. Com ambos já no estúdio, Helio disse a Reginaldo: “Isso é tão bonito que só tem um coisa que podemos falar, que é dizer ‘que o teu amor sem fim já mudou a minha vida“. Reginaldo concordou com o verso e respondeu que era sobre isso que eles estavam falando!

Helio Flanders e Reginaldo Lincoln. [Imagem: Arquivo pessoal/Instagram]

Helio Flanders e Reginaldo Lincoln. [Imagem: Arquivo pessoal/Instagram]

Após isso, os dois foram gravar separadamente suas vozes. Quando Reginaldo terminou de cantar, ficou quieto e não saiu da sala de gravação. Neste momento Helio foi até a sala para ver o que estava acontecendo, e ao chegar se deparou com Reginaldo chorando por ter cantado essa frase final que eles compuseram no estúdio. “É uma daquelas coisas que vale a pena a demora. A luta pelo verso que é capaz de fazer um dos compositores da música chorar ao cantar”, finaliza o cantor.

Como diz a música que fez esta pauta surgir: demorou pra ser, mas agora é. E foi através de lágrimas genuínas que ambos tiveram o seu significado interno da música, Que proporcionará outras lágrimas com outros significados, para assim dar vivacidade à música e à arte. 

Sala 33
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