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Quando a Fantasia e a Literatura se Encontram
Na Estante
25 maio 2016 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de destaque: Daniel Miyazato/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

“Naturalmente está acontecendo dentro da sua cabeça, mas por que é que isto deveria significar que não é verdadeiro?” (Harry Potter e as Relíquias da Morte, Editora Rocco,2007)

Imagine um mundo completamente diferente, com dragões, magos, monstros, animais e árvores falantes, entre outros seres e situações incríveis. Todas essas são possíbilidades quando falamos de literatura fantástica.

Este tipo de literatura agrupa histórias que são construídas com base em aspectos maravilhosos, místicos, e que não são encontrados na vida real. Muito apreciado,o gênero encontra cada vez mais leitores por ser mutável e poder acolher tantas ideias diversas.

 

Representação de algumas criaturas presentes na Literatura Fantástica. Imagem: Divulgação. Fonte: Beccajjones

Elementos fantásticos sempre estiveram presentes na cultura humana, em épocas e linguas diferentes. Mitos e lendas de diversos povos são grandes precursores dessa literatura, que, com o passar do tempo, perderam seu teor religioso e se tornaram narrativas culturais. Além delas, a fantasia passou pelas novelas de cavalaria e por contos de fadas, com as primeiras manifestações escritas que o imortalizaram, até, enfim, se tornar um gênero literário consagrado.

O gênero fantástico é muito extenso e pode agrupar histórias muito diferentes, de inspirações distintas, dentro de uma mesma caixa. Por esse motivo, existem alguns subgêneros, que facilitam a identificação de narrativas semelhantes. Dentro de cada um desses, são diversos os livros que se sobressaíram e ajudaram a consolidar a literatura fantástica, e são eles também os mais lembrados quando falamos desta.

FANTASIA

O subgênero mais fecundo da literatura fantástica contabiliza diversos títulos famosos e amados, que marcaram gerações. Sua concepção considera tudo que está fora da realidade, o que é mágico e místico, tais como criaturas bastante estranhas.

– O Senhor dos Anéis (JRR Tolkien): Uma das trilogias mais aclamadas da história da literatura, O Senhor dos Anéis se passa em Terra Média e conta as aventuras do hobbit Frodo enquanto segue sua função de destruir O Anel, um artefato mágico que dá poderes à seu portador. Paralelamente, são narradas histórias dos Elfos, Reis e de outras personagens icônicas, como Gandalf e Smeagol, que marcaram o gênero fantástico.

– Harry Potter (JK Rowling): A série que marcou a infância de muitas pessoas nos últimos vinte anos, Harry Potter conta com sete livros que seguem o personagem homônimo em sua descoberta de que é um bruxo e sua inserção em um mundo mágico, passando por sua educação na incrível Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, sua relação com seus amigos e professores, e seu papel como o “Menino que Sobreviveu” na luta contra as artes das trevas. Em 2016, a série ganhou mais partes com o lançamento do oitavo livro “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, baseado em uma peça de teatro apresentada em Londres, e em Novembro, estreia o filme do spin-off “Animais Fantásticos e Onde Habitam”.

– As Crônicas de Nárnia (C.S Lewis): Um dos mais antigos livros do gênero, as Crônicas de Nárnia contam, em sete histórias curtas, fatos que versam sobre a terra de Nárnia, sua criação, e as participações humanas, inclusive dos “dois filhos de Adão e duas filhas de Eva” em sua história. O livro, escrito na Inglaterra protestante, é cheio de referências religiosas, tais como o paralelismo entre Aslam e o Deus cristão, que seriam a mesma entidade para mundos diferentes. Três histórias, “O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa”, “O Príncipe Caspian” e “A Viagem do Peregrino da Alvorada” viraram filmes.

– Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll): O livro conta a aventura da pequena Alice, que, descendo pela toca do coelho, encontra o fantástico País das Maravilhas, por onde passa por situações incríveis com personagens cativantes como o Gato de Chesire, o Chapeleiro Maluco e a Rainha de Copas. Já rendeu uma animação e dois live-actions à Disney (Alice Através do Espelho é lançado em maio), e o spin-off Once Upon a Time in Wonderland, da série da ABC.

– As Crônicas de Gelo e Fogo (George RR Martin): A série épica segue os conflitos da guerra pela posse do Trono de Ferro (Reinado dos Sete Reinos) e os combates internos e externos das famílias à ela ligadas. Os livros se passam nos continentes de Westeros e Essos, e são narrados sob pontos de vistas diferentes. Conta atualmente com 5 livros, e foi adaptada para TV, dando origem à série Game of Thrones, da HBO.

– As Crônicas do Matador do Rei (Patrick Rothfuss): Com dois livros já publicados, O Nome do Vento e O Temor do Sábio, a série se passa nos Quatro Cantos da Civilização e conta a história do lendário arcanista Kvothe em tempos diferentes; ainda jovem, no momento em que está na Universidade e paralelamente busca pelo Chandriano, um grupo mágico que matou sua trupe, e já adulto, quando se passa pelo dono de taberna Kote, e narra sua vida ao Cronista.

– Deuses Americanos (Neil Gaiman): Muito premiado, o livro é centrado na premissa de que deuses existem porque pessoas acreditam neles. A história, então, segue o personagem Shadow, enquanto este acompanha uma possível guerra entre os deuses de antigas mitologias e os novos deuses americanos, manifestações da vida moderna.

HORROR/MISTÉRIO

Este subgênero trata de elementos sobrenaturais, e traz histórias de criaturas como vampiros, lobisomens, bruxas e outras, que permeiam o imaginário popular.

– Drácula (Bram Stoker): Um dos grandes precursores do gênero, este livro remodela o mito do vampiro na literatura, ao introduzir a história de Conde Drácula, que quer se mudar da Transilvânia para a Inglaterra, na busca de sangue novo.

– Sherlock Holmes (Sir Arthur Conan Doyle): São vários os livros que trazem o famoso detetive como personagem, e, em cada um deles, Sherlock Holmes desvenda um mistério impossível, à partir de poucas pistas e com a ajuda do médico John Watson. Foi adaptado à filmes e séries de TV, e fez sucesso estrondoso.

– O Médico e o Monstro (R.L Stevenson): Publicado em 1886, este livro traz a questão do bem e do mal e de personalidades dúbias ao retratar o dr. Henry Jekyll, um médico influente e respeitável da sociedade londrina, e sua outra face, o sr. Edward Hyde, que se porta como seu lado cruel e que se permite a falta de responsabilidades.

– Frankenstein (Mary Shelley): Outro precursor, o livro questiona o progresso da ciência e sua inserção na vida humana, ao contar a história do cientista Victor Frankenstein e seu novo experimento: a criação da vida. Sua criatura, porém, está longe do que ele esperava, e, com repulsa, Victor o rejeita, fazendo com que o monstro fuja, o que eventualmente traz tragédias horriveis.

Cena do filme Victor Frankenstein, de 2015. Imagem: Divulgação. Fonte: Press Examiner

FICÇÃO CIENTÍFICA/DISTOPIA

Neste subgênero, ciência e literatura se mesclam, com características como a apresentação do progresso científico e a criação de realidades paralelas.

– Vinte Mil Léguas Submarinas (Julio Verne): Escrito no século XIX, este livro narra as aventuras do naturalista Pierre Aronaxx e sua equipe pelas profundezas do oceano, quando se tornam prisioneiros do Capitão Nemo no submarino Nautilus.

– Jogos Vorazes (Suzanne Collins): A famosa trilogia distópica do século XXI se passa em Panem, um universo pós-apocalíptico, e segue Katniss em sua trajetória para vencer os Jogos Vorazes, uma competição-carnificina promovida pela Capital, e sua posterior luta contra o controle desta metrópole sobre os distritos.

– 1984 (George Orwell): Publicado em 1949, o livro prevê o mundo no ano de 1984, que viveria sob o totalitarismo repressivo do Grande Irmão, e narra a história de Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade na Pista No. 1 (Inglaterra).
Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley): O livro descreve um futuro distante que vive sob a dominação do Estado Mundial, no qual as pessoas nascem de linhas de montagem e vivem em castas. Há a narrativa de Bernard Marx, que se sente descontente e passa a condenar a sociedade em que vive.

– As Crônicas Marcianas (Ray Bradbury): Este livro descreve um Marte bem diferente do que sabemos atualmente, e narra a colonização do planeta por humanos fugidos da Terra e todos os problemas que isto traz aos marcianos.

Poster com um dos slogans do Partido Socialista Inglês, do livro 1984, de George Orwell. Imagem: Divulgação. Fonte: The Template

Literatura Fantástica Brasileira

Acompanhando o crescimento da literatura brasileira, o gênero fantástico, têm, nos últimos anos, ganhado cada vez mais adeptos no Brasil.

Além da explosão destes livros no exterior e de suas adaptações ao cinema e à televisão, que influenciaram os leitores brasileiros, a produção independente é outro fator decisivo para este aumento de público e obras. “É um mercado muito abrangente, tem muitos autores e muitas autoras, e é bastante receptivo. Os leitores estão confiando bastante em autores independentes, tanto quanto confiam naqueles que vão para as livrarias”, conta Denise Flaibam, autora da série Os Mistérios de Warthia. “Agora, ‘escrever um livro’ não é tão difícil quanto era antigamente. Publicar, então, menos ainda. Existem diversas plataformas e meios para se realizar esse sonho”, completa.

Denise começou a escrever através de fanfics – histórias escritas por fãs de alguma obra já pública – ainda muito cedo, e migrou para a literatura fantástica ao treze anos, quando começou a escrever Warthia. É ela quem supervisiona o processo de edição, no qual trabalha com leitores beta e revisores, e quem divulga, principalmente através das redes sociais, seus livros. Hoje, Denise tem livros à venda na Amazon e irá relançar os Mistérios de Warthia pela editora Mundo Uno.

Denise não é a única autora brasileira de literatura fantástica que faz sucesso no mercado editorial. Alguns autores estão no campo há anos, e a cada dia cativam mais leitores.

André Vianco foi um dos primeiros brasileiros a se aventurar no gênero, escrevendo principalmente livros de horror e suspense cujos personagens são vampiros. Quando foi demitido de seu emprego, em 1999, usou seu FGTS para lançar 1000 cópias de Os Sete, seu primeiro best-seller, e passou por diversas livrarias para tentar colocar seus livros nas estantes. Posteriormente, assinou com a editora Novo Século, que publicou diversos de seus títulos.

Eduardo Spohr é jornalista e autor de Batalha do Apocalipse e da trilogia Filhos do Éden, livro de fantasia e horror que trata de anjos, demônios e dos fins dos tempos. Eduardo também foi um dos primeiros a escrever literatura fantástica no Brasil e depois de publicar seu primeiro livro pelo site JovemNerd, onde é colaborador e auxília em um podcast, assinou com o Grupo Editorial Record.

Da esquerda para a direita: André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz e Eduardo Spohr, autores de literatura fantástica brasileira. Imagem: Divulgação. Fonte: Vida de Escritor.)

Raphael Draccon é romancista, editor e roteirista, e escreveu a trilogia Dragões de Éter, em que revê as histórias de diversos contos de fadas de maneira mais sombria. Assina também Fios de Prata – Reconstruindo Sandman e Cemitérios de Dragões. Começou no mercado com um roteiro premiado pela American Screenwriters Association. Assinou inicialmente com a editora Planeta BR, e hoje está com a Editora Rocco.

Por fim, outra autora de fantasia que faz muito sucesso é Carolina Munhóz. Ela é jornalista e romancista, e assina livros que, em sua maioria, se passam em universos que envolvem fadas, tais como os best-sellers Féerica e O Inverno das Fadas. Lançou um livro em parceria com a atriz e cantora Sophia Abraão, e colabora com o podcast RapaduraCast.

O mercado editorial para literatura fantástica, tanto no Brasil como no exterior, está a cada dia mais fortalecido, e contabiliza títulos clássicos e modernos que lhe dão muita visibilidade. Como conta Denise Flaibam, “Fantasia é um gênero que nunca se apaga, sempre se reconstrói, então mais e mais vemos novos títulos e histórias recheando as estantes.”

Por Victória Martins

victoria.rmartins19@gmail.com

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