Home Controle Remoto “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”: Os 50 anos do ‘Festival da Virada’
“Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”: Os 50 anos do ‘Festival da Virada’
Controle Remoto
21 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Os Mutantes, Roberto Carlos, Elis Regina, Jair Rodrigues, Dori Caymmi. Todos simultaneamente no mesmo palco. Não exatamente cantando e tocando, mas prestigiando o primeiro lugar de “Ponteio”, ao final do III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. Há exatos 50 anos, o bis que consagrou a vitória da canção apresentada por Edu Lobo e Marília Medalha provava de forma concreta o quão caloroso havia sido todo aquele festival.

Edu Lobo e Marília Medalha apresentam “Ponteio” (Imagem: Wilson Santos/Jornal do Brasil)

Os jurados tinham uma difícil tarefa desde as eliminatórias. Composto por grandes nomes como Chico Anysio, Julio Medaglia e Ferreira Gullar, o grupo de júri havia selecionado para a final de 21 de outubro doze canções dentre as 36 já pré-selecionadas. Dentre as concorrentes estavam apresentações de figuras como Gal Costa, Erasmo Carlos, Elza Soares e até Hebe Camargo.

Os festivais nos teatros – esse tendo ocorrido no antigo Teatro Paramount -, contavam sempre com uma participação efusiva do público, que, inclusive, se manifestava em torcidas tanto favoráveis quanto contrárias, transformando o cenário em um caldeirão de aplausos e vaias. Era difícil assistir a alguma apresentação que não fosse contestada e, ao mesmo tempo, ovacionada. Mesmo assim, a disputa entre os doze finalistas, apesar de acirrada, tinha alguns favoritos e provavelmente um preterido em potencial.

A noite em 67, aquela que inspirou o filme homônimo de Renato Terra e Ricardo Calil, representou um misto de estilos e efervescências. As atuações de Gilberto Gil e Caetano Veloso, com “Domingo no Parque” e “Alegria, Alegria”, respectivamente, plantariam a semente do tropicalismo na música brasileira, lançando forma ao movimento e o alavancando para o ano seguinte. Ambas as apresentações contaram com a inesperada presença de grupos de rock e suas guitarras elétricas, que enfrentavam forte resistência no Brasil. Apenas alguns meses após a Marcha Contra a Guitarra Elétrica – defendida por artistas como Elis Regina e até mesmo o próprio Gil -, o público e os jurados foram surpreendidos com a presença do instrumento Yankee no palco do Teatro Paramount, naquele que viria a se tornar o “Festival da Virada”.

Com a participação de Os Mutantes (uma banda, até então, pouco conhecida), Gil alcançou o segundo lugar da competição, com uma das apresentações mais aplaudidas do festival. Curioso é o episódio em que Randal Juliano, entrevistador da noite, se dirigiu a Arnaldo Baptista: “Temos aqui um dos rapazes d’Os Mutantes. Como é que você se chama?”. E então, Arnaldo se apresentou e mencionou “os outros dois Sérgio e Rita”, se referindo a seu irmão Sérgio Dias e a ninguém menos que Rita Lee.

Em uma noite, de diversas formas, memorável, o público do festival foi, por vezes, surpreendido e suas incansáveis vaias foram contornadas em alguns casos. Apesar de Caetano Veloso não ter sido muito bem recebido pelo público, fez ao lado do grupo argentino Beat Boys uma radiante apresentação de “Alegria, Alegria”, que, com toda sua simpatia e seu carisma, transformou a maioria dos gritos contrários em assobios e aplausos e os garantiu a quarta colocação no festival.

Após apresentações muito aplaudidas, com direito a gritos de “Já ganhou” – como as de Elis Regina e Gil -, entraria no palco Sérgio Ricardo. A apresentação do paulista foi conturbada do início ao fim. O cantor tentou conversar com o público, que o vaiava incessantemente, buscando negociar uma compreensão e um espaço para trégua. A embaraçosa cena se estendeu ao momento de ira de Sérgio Ricardo, em que o cantor se dirigiu à plateia de duas formas: esbravejou “Vocês ganharam!” e, em seguida, quebrou o violão e arremessou contra os espectadores. O episódio ficou marcado na história do festival e rendeu ao paulista a desqualificação da competição.

Momento em que Sérgio Ricardo arremessa o violão na plateia, por sequência de fotos da Revista O Cruzeiro (edição nº 57/58, disponível na Coleção Especial da Biblioteca da ECA-USP)

A noite contou ainda com o rei do iê-iê-iê, Roberto Carlos, em uma inesperada interpretação de um samba – “Maria, Carnaval e Cinzas” – que, apesar de bastante contestada principalmente por aqueles avessos à Jovem Guarda, acabou ficando com a quinta colocação. O grupo MPB4, além de emplacar “Gabriela” em sexto lugar, também entraria em cena junto com Chico Buarque: “Roda-Viva”, muito ovacionada pela plateia, garantiria a Chico a terceira posição no festival.

Os prêmios de melhor intérprete e melhor letra ficaram, respectivamente, com a eterna Elis, por “O Cantador” (de Dori Caymmi e Nelson Motta) e com “A Estrada e o Violeiro”, de Sidney Miller e interpretada por ele e Nara Leão. O primeiro lugar do festival, por fim, pertencia à música de Capinan e Edu Lobo. Apresentado pelo próprio Edu juntamente com Marília Medalha, “Ponteio” embalava a plateia desde as eliminatórias. O favoritismo ficou ainda mais claro na apresentação da vitória, em que as vozes da plateia repetiam quase que em uníssono “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar” e os gritos “Edu! Edu!”, que deram fim àquela noite ao preencherem o saguão do teatro.

Por Beatriz Gatti
beatrizgatti.c@gmail.com

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