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Refugiados, um lar chamado São Paulo
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09 jun 2017 | Por Jornalismo Júnior

Fome, conflitos armados, epidemias e desastres naturais são alguns dos fatores que desencadearam a atual crise humanitária internacional, a maior dos últimos 70 anos. Por consequência desses acontecimentos, milhões de pessoas – oriundas do Oriente Médio, África e Caribe, entre outras regiões – são obrigadas a deixar suas casas e buscar um novo lugar para viver. Os destinos mais comuns desses refugiados são países europeus, como a Turquia e a Alemanha. Porém, com a atual política migratória europeia, tem sido cada vez mais difícil a reconstrução da vida dessas pessoas.

Já no Brasil, de acordo com dados da ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), o número de pedidos de refúgio subiu mais de 2.800% só entre 2010 e 2015. Contando com cerca de 9 mil refugiados atualmente, segundo o CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados), o maior desafio brasileiro tem sido integrar esses novos moradores à vida no país.

A cidade de São Paulo recebe um grande contingente desses estrangeiros, que nem sempre conseguem um emprego na área em que atuavam em seu país de origem. Pensando numa forma de ajudar essas pessoas a mostrar o que podem fazer e de integrá-las à cultura brasileira, o Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado – Brasil) e o Shopping Center 3, criaram um projeto chamado Refugiados, um lar chamado São Paulo.

Durante os meses de março, abril e maio, os refugiados puderam expor e vender artes próprias como quadros, artesanato e roupas em uma ‘Feirinha Étnica’ localizada no Lounge Center 3, no segundo andar do shopping. Com ajuda de profissionais do Adus, eles montaram as lojinhas e venderam seus artigos.

Foto: Jade Rezende

Um dos vendedores é Anas Obeid, que deixou a Síria em 2012, devido à guerra civil. Ele foi viver no Líbano, mas não conseguiu permanecer no país por problemas de documentação. O refugiado, então, veio para o Brasil – que, segundo ele, foi “o único país que abriu as portas pra gente”. Anas era jornalista em seu país de origem e procurou o Adus para pedir ajuda na busca por emprego. Ele passou a ter aulas de português e começou a trabalhar com perfumes e outros itens de sua cultura, até que abriu sua própria loja. O sírio agradece o trabalho do instituto, dizendo que “fez muita diferença na nossa vida”, por dar a ele e aos outros refugiados a oportunidade de crescer, além de facilitar o contato com brasileiros.

Anas aparece ao lado direito do banner de divulgação do evento. Foto: Jade Rezende

Ao ser questionado sobre o que menos gosta do Brasil, Anas responde: “Na verdade, não tem o que eu não goste, porque é outra cultura, outro país. Eu tenho que respeitar tudo. Mas eu gosto muito do contato do brasileiro, do coração do brasileiro. Ele conversa de forma simples, normal, não tem muito ‘nariz em pé’. Eu gosto do sorriso. O sorriso [dos brasileiros] abre o sorriso dos outros.” Quando perguntado do que sente mais falta na Síria, ele diz: “Da minha família, primos e sobrinhos… Só isso.” Sobre o evento, diz ser “muito legal, ajuda muitos refugiados.” E continua: “Ele fez muita diferença na minha vida. Eu estava precisando de um dinheiro para conseguir uma casa, porque a minha família chegou aqui mês passado, e já consegui depois desse evento.”

Foto: Jade Rezende

Uma das responsáveis pelo evento contou um pouco sobre o trabalho do instituto: “Desde que o refugiado ou o imigrante, que por catástrofe ambiental, como são os haitianos, chegam no  Adus, eles recebem uma infraestrutura. Veem os documentos, se estão todos em ordem, fazem o cadastro, veem as necessidades prioritárias para eles, como  abrigo e aulas de português. É uma gama grande. Depois têm outros projetos como trabalho e renda, onde, além de tentar inserir o refugiado no mercado de trabalho, depois de um tempo, existe também uma manutenção para acompanhar como isso está sendo.” Sobre a questão profissional, ela diz: “Muitos deles, às vezes, chegam e são professores de outros idiomas. Então tem um preparo dentro do Adus para que eles se tornem professores de inglês, francês e árabe, para que isso possa ser uma profissão que reverta renda para eles. E lá tem um espaço, também, pra eles darem aula.”

Dady Simon ao lado de suas obras. Foto: Jade Rezende

Dady Simon, haitiano, é pintor e vende suas obras na feirinha. Ele chegou no Brasil em 2013 e depois de três meses conheceu o Adus, mas explica que não leva o título de refugiado, por ter deixado o seu país devido a uma catástrofe ambiental. O artista, então, começou a estudar português e ensinar francês para quem tinha dificuldade. A partir daí, a instituição passou a convidá-lo para diversos eventos e projetos. No Brasil, o que ele mais gosta é o povo e o samba. “Eu acho uma cultura bem divertida. É bem legal essa mistura da nação… Cada região tem um sabor diferente, um ritmo próprio, eu acho muito legal”, diz Simon. Ao ser questionado sobre o que não gosta no país, ele diz: “A violência. O país sem violência seria bem mais legal. Porque é um país muito bom, muito acolhedor, então acho que com menos violência o Brasil seria ótimo.” O que o haitiano mais sente falta de seu país é a sua família, o sorriso e alegria do seu povo e as praias do Caribe, e então conta que “tem gente aqui que não sabe que o Haiti faz parte do Caribe, pensando que fica na África. A pessoa fala ‘olha, você já foi no Caribe!’, e eu falo ‘eu sou caribenho!”

Os refugiados também tiveram a chance de personalizar a famosa placa “I?SP”, localizada na fachada do Shopping Center 3.

Com o evento, o Adus pretendeu fazer uma integração entre os refugiados e seu novo país, seguindo o trabalho de valorização cultural e social dessas pessoas. O instituto aceita ajuda, seja ela financeira ou através de doação de bens ou de voluntariado. Acesse http://www.adus.org.br/amigo/ para fazer parte do projeto.

Por Jade Rezende
jaderezender@gmail.com

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