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‘As sobras’ da elite brasileira 
Na Estante
18 out 2020 | Por Pedro Ferreira (umpedroferreira@gmail.com)

A elite brasileira é tediosa — para si mesma e para quem coabita com ela. E é do desejo insaciável de expurgar esse tédio que germina sua degradação moral. Em As Sobras de Ontem (Companhia das Letras, 2020), primeiro romance publicado do autor Marcelo Vicintin, o que restou dessa intitulada alta sociedade foram as tentativas frívolas de buscar um antídoto contra a chatice.

Combinando óculos escuros, robe e pijama de algodão, Egydio Brandor Poente é o personagem que abre a narrativa nos bálsamos de sua prisão domiciliar. Herdeiro da empresa de navegação de sua família, foi condenado em uma operação da Polícia Federal por corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Arrependido não de seus crimes, mas por ter sido pego, ele planeja encerrar cerimonialmente seu declínio com a réplica do banquete oferecido pela corte brasileira às vésperas da queda da Monarquia.

Através de uma escrita em forma de diário, Maria Luiza Alvorada se insere na história como uma alpinista social desde a adolescência. Vinda de uma família de classe média, está constantemente perdida em seus devaneios luxuosos e alterna entre a “cidade-cu” de São Paulo e a “cidade-bosta” de Florianópolis em busca de sua ascensão. Com isso, ela firma relações danosas com outros indivíduos durante sua escalada, o que culmina em graves consequências.

Marcelo Vicintin, autor de As Sobras de Ontem. [Imagem: Reprodução/Instagram]

Marcelo Vicintin, autor de As Sobras de Ontem. [Imagem: Reprodução/Instagram]

O desenvolvimento dos dois protagonistas ocorre de forma leve e permite um entendimento inequívoco dos perfis sociais abordados. Vicintin impressiona com uma estreia carregada de críticas ora bem-humoradas, ora ácidas, que são incorporadas naturalmente pela trama. Não há apelo a espantalhos ou comodidade em relação a concepções já enraizadas no senso comum, apenas a exploração de breguices e previsibilidades das classes média e alta brasileiras — com a riqueza de detalhes que somente o convívio com membros desse círculo social pode fornecer.

Egydio e Marilu compartilham de várias dessas breguices burguesas. O apelo materialista é manifestado em bolsas Louis Vuitton, porcelanas de Sèvres, cigarros Gauloises Brunes e vinhos Château Lafite. O elitismo e a arrogância inerentes às personagens é escancarado com corrupção em diferentes níveis, homofobia cordial e a eufemização de problemas sociais, como o sistema penitenciário brasileiro. Tudo isso acompanhado de estrangeirismos sem tradução presentes durante toda a leitura. Bullshit total.

Vicintin peca ao não investir em uma interligação mais concreta entre os dois protagonistas, o que induz o leitor a uma percepção de que Egydio é o foco da narrativa e os acontecimentos envolvendo Marilu são uma história secundária. Além disso, alguns momentos como a metáfora sobre pedófilos elaborada por Egydio e termos inapropriados utilizados durante a narração da infância de Maria Luiza são incômodos e geram uma dúvida: são representativos da formação de cada personagem ou meramente uma péssima escolha estilística do autor?

“O melhor momento das pessoas é quando elas estão subindo ou descendo. No topo, todos ficam chatos”. A frase do playboy Jorge Guinle é utilizada na epígrafe de As Sobras de Ontem e demonstra o reconhecimento daqueles que detêm poder ilimitado de sua também infindável superficialidade. Para Marilu, profundidade demais estoura os tímpanos. Se isso é verdade, a elite brasileira goza de uma audição vigorosa.

 

[Imagem de capa: Reprodução/Twitter/Companhia das Letras]

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