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Retrospectiva 2015: discos brasileiros que deram muito o que ouvir
Escuta Aí
29 dez 2015 | Por Jornalismo Júnior

Fim de ano dá nisso: um punhado de listas que elencam os melhores discos, melhores filmes, melhores memes dos últimos 12 meses. O fascínio por rankings, que é ainda maior em tempos de internet, aflora como nunca quando chega dezembro. Este texto, que traz avaliações muito longe de serem definitivas, não dá uma ordem. Certamente deixo de incluir importantes discos brasileiros que foram lançados em 2015 e talvez tenha colocado alguns nem tão merecedores assim. Peço desculpas por quaisquer transtornos, mas convenhamos: as divergências é que dão graça às listas.

‘Você é minha irmã menina’

Este ano chegou a ser classificado como um ano em que o feminismo galgou espaços no debate público, incluindo campanhas como #askhermore, #primeiroassédio, #agoraquesãoelas e #meuamigosecreto e toda a repercussão que elas causaram. A música nacional não ficou para trás. Muito pelo contrário: vieram duas pancadas fortíssimas, nas vozes de Elza Soares e de Karina Buhr. Mulheres que cantaram a força e a dificuldade de ser mulher.

A mulher do fim do mundo é simplesmente um fenômeno. O disco abre com uma canção à capela, “Coraçao do mar”. A quem está atento aos créditos, uma grata surpresa: dois mestres assinam a música, que surgiu de um poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik. É o tipo de música que te faz pensar “preciso escutar o álbum todo”. Na faixa-título, que vem logo a seguir, Elza entoa os já antológicos versos “me deixem cantar até o fim / eu vou cantar até o fim”. “Maria da Vila Matilde” é um verdadeiro grito de coragem e força contra a violência de gênero, “Benedita” conta a história de uma travesti e “Pra fuder” dispensa comentários:

https://www.youtube.com/watch?v=IVxztdw2R4Q

E não só das temáticas e do brilho poético das letras vive o disco de Elza. O som frenético de músicos como Thiago França, Kiko Dinucci e Rômulo Fróes cria uma tensão deliciosa no decorrer dos 40 minutos. O álbum ressoa por dias na cabeça de quem ouve e repetir a dose é um efeito garantido.

É impossível ignorar que A mulher do fim do mundo é o maior acontecimento da música brasileira em 2015. Uma artista com mais de meio século de carreira brada 11 canções inéditas (é a primeira vez em que Elza lança um disco só com inéditas) em um projeto com músicos da cena contemporânea de São Paulo. Sem mais nada para provar no mundo da arte, Elza, carioca, negra, considerada “a cantora do milênio” pela BBC em 2000, fez um disco histórico.

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O show de A mulher do fim do mundo foi considerado o melhor de 2015 pelo Guia Folha, em votação de júri especializado. (Foto: Stépanhe Munnier/Divulgação)

Do sotaque pernambucano de Karina Buhr nasce Selvática. Na capa, com um punhal em mãos e os seios à mostra, a cantora diz a que veio. A faixa “Eu sou um monstro” questiona o espaço das mulheres e traz um dos versos mais marcantes do disco: “Mulher, tua apatia te mata”. Karina nega a imagem habitual de mulher e reafirma sua força enquanto tal, se dizendo um verdadeiro monstro.

Hoje eu não quero falar de beleza

ouvir você me chamar de princesa

Eu sou um monstro! Eu sou um monstro!

As guitarras e a voz firme marcam o álbum. Karina fala de luta, muitas vezes com palavras cifradas. Mas a cantora guardou o melhor para o fim. Na última faixa, “Selvática”, que conta com a participação de Elke Maravilha, é marcante o feitiço em cada palavra e cada acorde, sugando a atenção de quem ouve. Um baque.

Mais de Nordeste

Ao destacado time nordestino de 2015, que já conta com a pernambaiana Karina Buhr, se juntam também Siba e Chico César. Com seu segundo disco totalmente solo, De baile solto, Siba, ex-vocalista do saudoso e brilhante Mestre Ambrósio, faz uma mistura entre Brasil e Congo (o próprio cantor confessou a inspiração na música congolesa). O título é uma referência ao maracatu de baque solto, um dos principais estilos do maracatu, mas é também um chamado para a dança, para o baile, o que é realmente tentador diante da sonoridade animada do disco. A dezena de canções presta reverência ao canto rimado e metrificado da música popular do Nordeste. O trava-língua “aranha arranha a jarra / e a jarra arranha a aranha” (“A jarra e a aranha”) é um dos trechos que mais me chamou atenção. O espírito de cantador de Siba parece sugerir que os versos são improvisados na hora, à moda da tradição do repente nordestino.

Estado de poesia, de Chico César, veio após um hiato de oito anos do paraibano de Catolé do Rocha. E já na primeira faixa ele sugere que trouxe sua música de volta, com os dizeres “acorda, acordeom!” (“Caninana”). O disco é menos visceral, com menos usos extremos da voz, e se dedica sobretudo ao valor da palavra, ao cuidado com os versos. É bonito, embora passe longe do espetacular. Destaque para “Negão”, que fala da opressão ao povo negro e conta com a participação do poderoso e reverenciado baiano Lazzo Matumbi.

Com poucas palavras

A banda paulistana Bixiga 70 lançou uma nova bomba em 2015, algo que já está se tornando praxe. E ainda bem! Sempre que eles saem do estúdio, lá vem coisa boa, e não foi diferente dessa vez. Se você é das pessoas que acreditam que músicas boas precisam de letra, Bixiga 70 III é uma boa razão para mudar de ideia. “Este disco é dedicado a nossos ancestrais”, registrou a banda, que se inspira no afrobeat e na tradição das percussões africanas para construir seu próprio som. É uma delícia de disco, a ponto de, após a última faixa, você buscar apressadamente na internet quando e onde será o próximo show deles. A tempo: Bixiga 70 IIIfoi escolhido como o melhor disco do ano pela revista de música sul-americana Sounds and Colours. É complicadíssimo escolher uma música favorita, mas acho que fico com a sensualidade de “Lembe”. A nona e última faixa, “7 pancadas”, mente: na verdade, foram 9.

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Na ativa há apenas 5 anos, a música do Bixiga 70 já deu muito o que falar no Brasil e também no exterior. (Foto: Casa Fora do Eixo Minas/Flickr)

Anganga é um disco que não agrada a todos. Particularmente, o achei espetacular. O projeto é uma parceria entre a cantora Juçara Marçal e o músico Cadu Tenório, que navega por sonoridades pouco experimentadas, e traz cantos de trabalho (chamados “vissungos”) de escravos mineiros. O som é reinterpretado com a voz e as vocalizações de Juçara, acompanhada de ruídos e de técnicas da música eletrônica, e as letras, quando existem, ficam em segundo plano. Das oito faixas, quatro são vissungos (como “Canto III”), duas são congados e duas são composições próprias. Todo o disco, que foi batizado em nome da entidade suprema do povo banto (Anganga Nzambi), é atravessado por essa atmosfera profunda, que traz o som de outros séculos, do passado e do futuro. E cuidado: escutá-lo à noite, sozinho e com fones de ouvido pode ter um efeito assustadoramente delicioso.

Nem tão underground assim

Em 2015, os olhos mais atentos à música nacional certamente se depararam diversas vezes com Conversas com Toshiro, de Rodrigo Campos, e não só pelo vermelho chamativo da capa. As constantes referências ao Japão, país com o qual a música brasileira não possui tantos diálogos assim, são uma grata surpresa. Os títulos já denunciam: “Wong Kar-Wai” (fica na cabeça o verso “Jonas da Baleia”, entoado repetidamente por vozes femininas), “Katsumi” (“não tem pelos pubianos / já tem incompletos dezoito anos”), “Mar do Japão” (que parece uma miscelânea onírica entre os mares daqui e os de lá). Rodrigo Campos, que também participou de A mulher do fim do mundo, fez um trabalho bonito, com a ilustre presença de nomes como Juçara Marçal, Ná Ozzetti e Curumin. Vale conferir.

“Tem que ter coragem / mas tem que ter o dom” e “Tem que ter suor / mas tem que ter suingue / energia que nunca se extingue”, dizem os versos de “No momento 100%”, uma das melhores músicas de TransmutAção, de BNegão & Seletores da Frequência. Dom, suor e suingue estão por toda parte no disco, produto de um dos nomes mais destacados do rap nacional atual. Com o tempero do samba rock, o álbum vai longe e contagia quem o escuta. Sem dúvidas é um dos trabalhos mais preciosos da nossa música ao longo de 2015, embora não tenha causado tanto rebuliço assim.

E o que mais?

Decidir quem entraria nesse apanhado foi uma tarefa complicada. Foram escolhas pessoais e de forma alguma sacramentam um rol sagrado (bom, tirando A mulher do fim do mundo, que é o disco soberano). Preciso deixar registrada a importância de discos como Carbono (Lenine), Estratosférica (Gal Costa), Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa… (Emicida), Manual ou Guia livre de dissolução dos sonhos (Boogarins), Thiago França (Passo Torto & Ná Ozzetti), Apraia (Cícero) e tantos outros que deram muito o que falar e ouvir em 2015.

 Por Matheus Pimentel 
matheus.pimentel.aguiar@gmail.com

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