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Rush: a corrida pela vida e pela glória
CINÉFILOS
03 fev 2020 | Por André Netto (andrenetto@usp.br)

A rivalidade, junto com a paixão, é provavelmente o principal ingrediente que torna os esportes tão populares. O que seria do futebol brasileiro se não houvesse Grenal, Fla-Flu, Majestoso e o Derby? Se não houvesse as brincadeiras depois de se ganhar um clássico ou ser campeão em cima do rival? O que seria de Ayrton Senna sem Alain Prost e Nigel Mansell? Por mais que essas rixas possam acabar em violência em alguns casos, elas são peças fundamentais do esporte, e na hora de fazer um filme sobre esporte é quase inevitável que elas apareçam.

A rivalidade também pode ser protagonista, como é o caso do filme Rush (2013), que narra a disputa entre o britânico James Hunt e o austríaco Niki Lauda pela glória máxima do automobilismo. Os dois foram grandes pilotos da década de 70, na qual o esporte ainda era muito perigoso, com cerca de duas mortes por temporada. Atualmente a Fórmula 1 vem aumentando sua preocupação com a segurança dos automobilistas, mas ainda assim não conseguiu evitar a morte de Jules Bianchi em 2014.

A proximidade da morte e a maneira pela qual os pilotos lidam com a questão são tratadas como grande diferencial para o sucesso no esporte. James Hunt utiliza este argumento durante o filme para explicar o seu sucesso com as mulheres, ainda que isto provavelmente se desse por conta de seu estilo despojado e festeiro. O que para Hunt parecia simples, para Lauda era bem mais complicado: o austríaco é mais frio e calculista e tinha dificuldades para se relacionar com os outros.

Ainda que encarassem a vida de modo diferente, Niki e James não eram tão rivais assim quanto Rush propõe. Os dois chegaram, inclusive, a dividir o mesmo apartamento e eram amigos que frequentemente divergiam por conta de suas diferentes perspectivas. Mas na hora de construir o roteiro, fica mais interessante trazer a rivalidade que ficava apenas nas pistas para fora delas.

Niki Lauda e James Hunt mantinham uma boa relação fora das pistas [Foto: Autosport]

Um dos maiores desafios de fazer um filme baseado em fatos reais é conseguir traduzir toda a emoção do ocorrido para as telas. Isso envolve não só uma boa atuação mas também um bom roteiro, produção e efeitos especiais. Mas nada disso é possível sem uma boa história por trás, que seja capaz de prender a atenção do espectador por cerca de duas horas. Por mais que seja baseado nos acontecimentos de 1976, são inseridos alguns aspectos que servem para tornar a narrativa ainda mais interessante, e não se pode negar que essas “mentirinhas” contribuem muito. Afinal de contas, o filme não é um documentário, e sim uma ficção baseada em fatos reais.

O elenco do filme possuí incrível semelhança com as pessoas interpretadas [Imagem: JMPosterDesign]

No final fica mais clara como realmente era a relação dos pilotos: ambos se respeitavam muito e Lauda fica desapontado com a aposentadoria precoce de Hunt, já que a disputa o motivava a se superar. O exemplo mais claro disso é quando o austríaco sofre um grave acidente durante o GP da Alemanha de 1976, em Nürburgring, no qual ficou preso por minutos dentro de um carro em chamas.


O acidente

Aquela era a décima corrida da temporada, e Lauda liderava o campeonato com folga após ganhar cinco das primeiras nove corridas, enquanto que Hunt havia vencido apenas duas. A pista de Nürburgring é um circuito lendário no automobilismo, conhecido por ser extremamente perigoso e longo, com voltas de 22 km que demoravam cerca de sete minutos para serem completadas. Uma semana antes da prova, preocupado com a falta de segurança do autódromo, Lauda decidiu convocar uma reunião com os pilotos para discutir um possível cancelamento da corrida, mas os pilotos optaram por correr. Originalmente não houve nenhuma discussão entre os dois protagonistas durante este debate, mas o filme cria um embate entre os dois para sustentar a rivalidade que sugere desde o começo.

Com a confirmação da corrida, Hunt e Lauda foram para o grid, largando em primeiro e segundo, respectivamente. Chovia naquele dia, e todos os pilotos (com exceção de Jochen Mass) decidiram largar com pneus para chuva, mas a pista secou logo após a primeira volta e eles foram para os boxes trocar os pneus. Lauda acabou ficando para trás depois da primeira volta e do pit-stop e, ao tentar recuperar as posições perdidas, bateu forte e se viu envolto de chamas em um forno de oitocentos graus, cena que o filme representa com uma fidelidade impresionante.

Carro de Niki Lauda em chamas no acidente na Alemanha [Foto: Globallookpress.com]

Niki sofreu graves queimaduras e perdeu parte da orelha. Teve que enxertar pele da perna na cabeça e tirar líquido do pulmão por um processo bastante doloroso. Mas nada parecia doer mais do que ver o rival Hunt ganhando corridas e conquistando pontos importantes enquanto ele estava no hospital. Isso o motivou muito durante sua recuperação e, depois de apenas seis semanas, ele voltou às pistas para tentar defender o título.

 

A opinião de Lauda

Por ser protagonista do filme, Niki Lauda foi procurado pelo roteirista Peter Morgan para ajudar na construção da narrativa. O ex-piloto afirmou, em entrevista ao programa da TV americana In Depth with Graham Bensinger, que no início o roteiro continha erros básicos, como acreditar que se virava uma chave em um carro de Fórmula 1. 

Irritado no começo, Lauda foi cada vez mais se envolvendo com a produção. Passou a conviver com o ator alemão Daniel Brühl, que o interpreta no filme, ensinando os princípios básicos do esporte. O austríaco também contou que o ator lhe contou quais haviam sido suas maiores dificuldades: “O mais difícil é que você está vivo. As pessoas te conhecem, sabem como você fala. Você está na televisão, está aqui. O mais importante para mim é entender como você é”, explicou Brühl ao piloto. 

Niki Lauda posa ao lado de Daniel Brühl, ator que o interpretou no filme Rush [Foto: Pacificcoastnews.com]

Niki também afirmou que estava nervoso para o lançamento do filme após assistir a uma versão ainda no corte bruto: “Quando vi pela primeira vez pensei: ‘Ahh, devo ter sido um filho da p… no passado’. Fiquei preocupado, e não estava satisfeito para ser honesto. Falei para Pete: ‘Você fez o seu filme, está certo. Mas eu acho que eu não era tão ruim assim’”. 

Porém, quando chegou no dia do lançamento em Londres, ele teve uma segunda impressão muito diferente da inicial, principalmente ao ver a reação das pessoas ao seu redor: “Eu olhava para os lados e prestava atenção na reação das pessoas. Os via rindo, chorando e tinha muita emoção entre as pessoas assistindo o filme. Ele (o filme) está 80% certo, realmente, o que aconteceu naquele ano. Há um pouco de Hollywood nele, mas, ao todo, especialmente com a aceitação do público, eu realmente gostei.”

Agora o tricampeão mundial luta mais uma vez com problemas de saúde. Tudo começou durante suas férias em julho, quando contraiu uma gripe. Quando retornou à Áustria para se tratar, foi diagnosticado com uma infecção severa nos alvéolos pulmonares, e foi submetido a um transplante emergencial. No começo o ex-piloto teve boa recuperação, mas depois começou a ter problemas no fígado e passou por hemodiálises. 

Niki Lauda e Toto Wolff no paddock na Mercedes [Foto: Getty Images]

Desde então são poucas as informações sobre o estado de Lauda. Recentemente, Toto Wolff, chefe da equipe Mercedes, da qual o austríaco é presidente não-executivo, forneceu algumas informações sobre o ex-piloto. Em entrevista ao jornal Die Welt, Wolff afirmou que mantém contato regular com Niki, e que, assim como 42 anos atrás, ele assiste as corridas no hospital e batalha para completar mais uma volta no circuito da vida.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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